O
SER E O PODER - RESCALDO DE UMAS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS
(OU
A ENTREGA DE TESTEMUNHO PERANTE AS CAMADAS DO TEMPO) ©
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Mas só um sonho maior, de um arco de trezentos e sessenta graus, pode ser o
móbil de convergência do povo português; apenas com a percepção, seguida de
esforço, de um projecto verdadeiramente assente na nossa natureza potencial,
seja o modo próprio de fazer e divulgar cultura, seja a eficácia de um
aproveitamento global emergente daquilo que geneticamente somos e flui - quando
não é obstruído - na força de trabalho. Diversidades as nossas, de sempre (uma
forma mais estável de riqueza), começando pela geografia deste pequeno
rectângulo («nesga de terra debruada de mar», como lhe chamou Torga) que em
poucos quilómetros vai da lezíria à planície ou da plasticidade do litoral ao
granítico interior; a diversidade feita do convívio multirracial e
intercontinental, lusa identidade com a génese no tronco cristão, hebraico e
islâmico (berbere). Pelo que, a diversidade deve, como inteligência, ser gerida
como tal, na visão superior que deve estar presente naqueles que lideram.
Assim,
de que modo este «nada que é tudo», como acentuou Pessoa, se poderá fazer um
Portugal mais presente numa Europa tão ausente? Muito a propósito destas
eleições, é acutilante o que escreveu Adriano Moreira no DN já em 17 de
Setembro: «Grande parte das alienações que
se vulgarizam tocam nas raízes das comunidades e, portanto, na sua identidade.
Nas crises brutais por que Portugal passou nestes já longos séculos, foi a segurança
da identidade da sociedade civil que permitiu reconstruir um novo futuro».
O sonho nunca foi inatingível, mas é certo que tem
sido método seguro construir do perto para o longe, caminhar do conhecido para
o desconhecido, e, por isso mesmo, a vera cultura política em Portugal deve
começar por estudar a nossa longa e rica tradição municipalista (termo que se
deve sobrepor a autarquia). E é da responsabilidade dos municípios, juntas de
freguesia, escolas e outras instituições, essa tarefa tão bem colocada há já
algumas décadas pelo filósofo Afonso Botelho na sua obra ímpar «Origem e
Actualidade do Civismo».
O que temos vindo a assistir nas últimas décadas,
nas relações dos governantes com o povo, são posturas visceralmente
antiportuguesas e contra a natureza (o mesmo é dizer contra todos os seres) de
indivíduos de uma cultura híbrida mal enxertada (quando mesmo sem enxerto
nenhum), de projectos que trazem carimbos de Bruxelas; de gente que gosta de
tapar relva com alcatrão; posturas e modos de agir (salvo as excepções que
felizmente não são tão poucas!) que têm laivos faraónicos, quando, a todo o
custo, se quer deixar o nome, a data e mais não sei o quê, nas pirâmides de
cimento de cada localidade (só ali não fica mausoléu por impossiblidade). Ou
quando o espírito iletrado, degeneradamente burguês, confunde um vitral com os
azulejos de uma casa de banho.
A iniciativa
individual, legítima de quem dirige e gere, é uma inteligência que ainda se
confunde com o dever de gerir prioritariamente a inteligência do cidadão. Mas
nisso sempre houve um obstáculo, esse que o vate Luís de Camões, sabendo dos
ventos de todos os tempos, bem conhecia ao escrever a última palavra de «Os
Lusíadas».
Seja qual for o poder, de uma pequena comunidade ou
mais centralizado, seja o de um mandato local de uns poucos anos, ou o de
períodos históricos dilatados, ou corrigimos os vícios (de casa pequena de quando
o império era grande) e agimos em consonância entre a epiderme de fazer
transpirar e o anímico do «tudo vale a pena», ou a alternância de poder é
sempre a mesma fotocópia mais ou menos desbotada.
©
Eduardo Aroso, 30-9-2013