quinta-feira, 2 de abril de 2015


TRÂNSITO SOLAR

O rosmaninho incita caminhos
Para um cortejo de oferendas
E a Páscoa é o que escorre
Do sonho concreto
Respondendo ao equinócio absoluto,
Porque a seiva e o sémen
São gémeos no amor equivalente.

Ruminância da terra
O chão inadiável e resoluto
Tudo é propulsão
Para escalas de cima abaixo,
Voos de pombas e aromas
Recuperam graciosamente
Linhas perdidas e espaçosas do paraíso
Que ficaram ilegíveis num papiro
Que hoje ninguém tem…

O rosmaninho abriu-se risonho
Numa confissão pública
Que transgride a crosta da terra.
Cresce para negar a morte
Que o duro Inverno
Parecia anunciar.

Eduardo Aroso

Páscoa, 2015

in http://www.triplov.com/espirito/aroso/2015/pascoa.htm

terça-feira, 31 de março de 2015

Hoje
A História de Portugal
É escrita em papel de jornal.
A importação que fica mais cara
É de caixotes de lixo para a pátria.


Eduardo Aroso © 

segunda-feira, 9 de março de 2015

DO CIVISMO (1)

O civismo - vulgarmente conhecido com alguma insuficiência por cidadania - deveria implementar-se a curto prazo com o mesmo rigor de controlo da classe política eleita, como o fisco o faz presentemente em relação ao contribuinte.
A proporção é desejável e urgente. As formas de alienação a que o «mainstream» nos submete, deverão transformar-se no mesmo rigor e verdade de não lesar a confiança política do eleitor, como o de não ser admissível a falta de pagamento na hora certa do que é devido ao Estado.

Eduardo Aroso

sexta-feira, 6 de março de 2015

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (33)


Os pássaros sabem, por alguns sinais, pressentindo dias agitados. Não é conveniente ignorar o seu piar. Eles já interpretaram o nosso absurdo silêncio, por um lado, e, de outro modo, o nosso ruidoso escapismo da vida. Seria bom sabermos a linguagem dos pássaros.
Eduardo Aroso, 6-3-2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015



Não te espante o riso murcho das esquinas
Os rostos pesados pelo adiamento planeado.
Tudo são cargas sugadoras da alma
Deste povo tão curvado.
O olhar o chão
Vértebra sobre vértebra,
Voto atrás de voto
E o resultado são gritos para dentro
Que sufocam acção e pensamento.
Não te espante: o cinismo é claro e não finge
Mesmo quando inauguram praças e ruas
As mentiras são concubinas nuas
Exaurindo Portugal.
Mas se imitam a esfinge
O que neles predomina e mata
É a pata felina de animal.

 
Eduardo Aroso ©
20-2-2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

CRÓNICA (SAZONAL) DOS FINS DO SÉCULO XXI
 A «Comissão do Beijo» apreciou milhares de beijos, perante um público eufórico, só comparável ao das grandes finais de futebol, e perante as câmaras de televisão e ainda dezenas de fotógrafos. Diz-se que, naquele tempo, só coisas assim despertavam as pessoas da melancolia social e política portuguesa. Foi eleito então o par que esteve mais tempo com as bocas coladas, presumindo nós que o beijo já tinha sido dado (uns segundos bastam) e apenas estavam ali a permutar hormonas e não se sabe que mais.
 Alguns psicólogos da época – os que geralmente iam aos programas televisivos da manhã – consideraram isso como a intensidade máxima do amor, tendo alguns elaborado até uma espécie de escala do tipo da que existia para medir imediatamente a hemoglobina dos diabéticos. O governo de então apressou-se a apoiar a iniciativa como factor de estabilização e até sustentabilidade social (curiosamente o que não disse nada sobre o assunto foi o mais alto magistrado da nação, designado, nesse tempo, por Presidente da República). O governo foi generoso e aos casais e os que de qualquer modo coabitavam, de idades abaixo de 30 anos e acima de 10, fez um desconto no IRS desse ano de 0,2%. Imagine-se que até a imprensa internacional deu eco. Aliás, foi a própria ministra das finanças que veio sublinhar que as boas práticas em Portugal devem ser transparentes e vistas por quem quer que seja, e não às escondidas com sacos azuis.   
O ministro da educação, desse ano da graça de dois mil e quinze, chegou a recomendar a prática nas escolas do beijo demorado (fotografado e filmado, pois a História faz-se com documentos!), como uma pedagogia eficaz contra actos bélicos que estalavam em todo o mundo. Um comentador televisivo disse que era uma prática com boa alavancagem, isto é dar-se nas bocas, contando que não se tirasse dos bolsos! Um deles, mais utópico, via nesse dar a boca, durante minutos e horas, o gesto para, no futuro, tapar as bocas de todos os esfomeados do mundo, acabando assim a pobreza, reafirmando que estes beijos filmados eram, portanto, um bom exemplo. Nesse dia cantou-se o hino nacional e os cinemas abriram as suas portas para quem quisesse ver gratuitamente «As 50 sombras de Grey».
Eduardo Aroso (em viagem no espaço e no tempo) ©  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (32)
 
Todo o passado deve ser corrigido. Porque o acto humano sobre a Terra é sempre imperfeito, e a instintiva ânsia de o tornar melhor é que constitui a razão do presente e do futuro. Talvez por isso, Marx disse que a «História repete-se», mas nãono jeito de uma fotocópia...
 Todos sabemos que, com ou sem «tragédia» da primeira vez e «farsa» da segunda (como queria o pensador germânico), o certo é que o jogo deve ser jogado. Corrigir o passado é jogar melhor agora o jogo. A Grécia ensaia já o tempo futuro para melhores heróis, seja qual for o país onde surja o novo Parnaso. Rectificar o passado é aperfeiçoar o trânsito humano neste mundo.
8-2-2015
Eduardo Aroso