terça-feira, 22 de setembro de 2015

CENAS E PERSPECTIVAS (DO LADO DE CÁ, OU NÃO, DO TELEVISOR)

Quando olhamos a televisão, dá-se um fenómeno ao qual não tomamos bem o pulso, porque nos habituámos ao «pensamento que não pensa» como disse Heidegger. Seja uma transmissão em directo, seja o que for de ficção: telenovela, filme, ou outro. É quase compulsiva a tendência para tal se encarar numa perspectiva diferente da que seria a de estarmos lá, ou se esses acontecimentos se dessem aqui ao lado, ou mesmo vistos em épocas diferentes. O filósofo português António Telmo (1927-2010) disse algo como isto: se vemos imagens de alguém que já morreu, há mais ou menos tempo, se porventura víssemos essas pessoas de repente no nosso quarto, ou ao dobrar de uma esquina, ficaríamos gelados de medo e acharíamos algo estranho. Todavia, vê-las no ecrã não só não nos assusta, como muitas vezes até gostamos e deliramos!

Assim, temos o ecrã como intermediário entre duas perspectivas, o que tanto pode amortecer como exaltar. O interesse, prazer, ansiedade, numa cena de telenovela ou de um filme, de uma querela familiar, maquinação de negócios, ou cena amorosa – quantas vezes conferindo estatuto de ídolos às personagens – tudo isso reprovaríamos com desdém entre os nossos amigos e vizinhos.

Mas então aquilo não é ficção?! Aqui o virtual e o real. O primeiro deixou de ser IDEAL (no sentido filosófico helénico e até hegeliano) e assim passou-se a uma mera reprodução do quotidiano nos seus aspectos mais caricatos, quantas vezes manifestamente inferiores. O paradigma da não-proximidade lança desafios outros que a imaginação solta e certas convenções não aceitam do lado de cá do televisor ou do monitor perante a internet e agora o facebook com o novíssimo chat.

A nossa mente, que (ainda) mente, como diz o pensador Paulo Borges (1959), é assim simplesmente porque ainda não pensamos bem, não imaginamos as coisas livres do erro, atitude essa que nos está reservada num futuro ainda distante, tal escreveu Max Heindel em «Conceito Rosacruz do Cosmos». Libertar-se do (muito) desnecessário onde nos atolamos diariamente e concentrarmo-nos no essencial, ou como disse um outro filósofo português José Marinho (1904-1975), «no que mais importa», parece ser um caminho seguro. A tragédia do virtual contemporâneo, ainda que nele voem laivos de futurismos, deixou de expressar o IDEAL para ser o “barroquismo” mais rasteiro, onde a ausência de estética e ética, nos deixam cada vez mais atolados. Há, contudo, e sempre, a ave que se ergue das suas próprias cinzas.

Eduardo Aroso ©
Equinócio de Outono, 2015


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Tanto por fazer...
Se o silêncio tivesse cor, dir-se-ia que as tem todas ainda num estado dormente e semi-obscuro mas promissor. Horizonte promessa irreversível, semente sem entraves de germinação...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

 DESPERDÍCIO OU DESATENÇÃO?
(Breve evocação de Jorge Luis Borges)

Numa das suas célebres seis conferências, que a editora «Crítica» de Barcelona coligiu em 2001, Jorge Luis Borges fala-nos de uma BELEZA QUE ESCORRE CONSTANTEMENTE DO MUNDO. Na verdade, sempre os poetas viram o mundo mais profundamente, de um modo mais holístico, o que nos tempos actuais contrasta com a tendência para a temática de motivos emergentes e simultaneamente mutantes.
 Se por um lado é dever estar vigilante à imanência mais imediata da vida, o horizonte de esperança e de perenidade (que persiste sobre as catástrofes do mundo em qualquer época) só pode ser fixado por aquilo que, seja de que modo for, se move como constante nesta terra de passagem, linha de horizonte presente e alheia às mudanças do mundo. No mínimo requerido para este deserto de transição seria impossível, entre os escombros do viver humano, não existir a tal beleza escorrendo como a luz do sol em cada dia, que teimamos em ver apenas mecanicamente ou biologicamente com a sua devida importância para a vida vegetal e mais recentemente nos efeitos sobre a epiderme do ser humano.  
Porque até para ver a beleza que escorre dos figos entre os braços do Verão e do Outono, é necessário chegar perto deles ou tê-los na mão, essas lágrimas doces e generosas dos deuses, sabendo que muitos desses frutos vão cair no chão, sem que ninguém os aproveite.

Eduardo Aroso

15-09-2015

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

SALMO NOCTURNO

Ó terraços do sublime,
varandas de asas
libertas de grades...
Distâncias encurtadas
de ocultas verdades.


Eduardo Aroso,
8-9-2015

sábado, 29 de agosto de 2015

DE UMA (RE) LEITURA DE «HISTÓRIA SECRETA DE PORTUGAL DE ANTÓNIO TELMO

Santa Maria, no portal sul do Mosteiro dos Jerónimos -  e cuja posição arquitectónica a António Telmo não passou despercebida na sua ímpar obra - lançando o seu olhar sobre o Atlântico, como que acompanhando a frota de Cabral, parece profetizar sobre a grande civilização do futuro a que se chama Brasil. De outro modo podemos vê-la, como indizível presença no altar dos céus que é o Cruzeiro do Sul, constelação que, segundo o emérito astrónomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em «A Astronomia em Camões» a refere como «uma das glórias dos navegantes portugueses, que a teriam registado pela primeira vez». Não é descabido, portanto, vê-la com mais ou menos metáfora no céu nocturno sobre a cruz das quatro estrelas que Camões em «Os Lusíadas», VIII, 71, refere do seguinte modo: «Descobrir pôde a parte que faz clara/ De Argos, da Hidra a Luz, da Lebre e da Ara».

Santa Maria a mesma Senhora resplandecente sobre uma azinheira no centro de Portugal, e que no trânsito mistérico se poderá esclarecer talvez um dia se este local, onde, bem perto, os Templários assentaram praça, tem repercussão com o famigerado centro do mundo conhecido por Agartha e outros nomes. É deveras interessante pensarmos que o culto à Senhora, o mesmo é dizer a um supremo princípio maternal e feminino, foi requerido pelos Templários, guerreiros do lado de fora e secretos do lado de dentro, mas onde se vê claramente que os dois círculos e até o princípio da dualidade (veja-se o cavalo com duas figuras, que alguns identificam como o signo astrológico de Gémeos, o do movimento e das viagens) numa ordem guerreira, portanto dinâmica e marciana, tenha tido no seu seio a vibração da candura feminina da Virgem Maria. Já que de planetas também se fala, não me consta que se tenha reparado num pormenor notável: é que tanto as aparições de Fátima, de Maio, como as de Outubro se dão nos meses dos signos Touro e Balança, ambos regidos pelo planeta Vénus, da harmonia e da paz, conhecido também como a estrela d’ alva ou estrela da manhã e estrela da tarde.
Assim, no olhar benevolente e cintilante como o mais amplo horizonte ao nascer do sol, a mesma Senhora vigilante no portal sul dos Jerónimos ou da azinheira do centro de Portugal, parece confirmar e aguardar serenamente aquela frase que tantas vezes o mestre António Telmo proferia: «reunir o que está disperso».

© Eduardo Aroso, 29-8-2015, dia de plenilúnio.


EVOCANDO ANTÓNIO TELMO (2-5-1927/21-8-2010) HERMENEUTA DE “DIÁLOGOS DE AMOR” DE LEÃO HEBREU E AUTOR DE “A VERDADE DO AMOR”
A luz intensa e súbita pode cegar. Não se tem dito o mesmo do amor verdadeiro, esse quando irrompe como lava de vulcão, mais em forma de luz do que de temperatura… sobre as emoções rotineiras, vulgarizadas também como afectos, ou desalmadamente sob a forma de “ter um caso”, ou na degradada e absurda expressão “fazer amor”.
Pode amedrontar e em simultâneo causar espanto se o amor surge como uma espécie de epifania. Receio que nos pode paralisar momentaneamente, pois também a isso não ficou imune, na visão, Paulo na estrada de Damasco, onde os seus olhos ficaram cobertos de escamas durante dias. A verdade é que somos, por enquanto, vasos frágeis para conter essa torrente misteriosa que faz estremecer o mundo da matéria, ao mesmo tempo que só ela o pode mover.
Quando esse amor amedronta e causa espanto é também o sinal de que chegou a hora de sermos guerreiros de luz afrontando um falso adamastor que se ergue para barrar a verdadeira aventura divina no campo de batalha mais desamparado e obscuro em que presentemente vivemos.
Se é verdade que houve céu antes da terra, é certo que <a terra antes do céu> tem o sentido da Grande Obra, pois que da terra ninguém se pode alhear seja qual for o nirvana! Quem ergue a espada de luz, afrontando o adamastor do receio e do espanto, tem já dentro de sim a certeza, como se fosse um terraço que dá para o mar imenso de todas as possibilidades que se abrem na linha do horizonte. Também nós, os do Portugal da esfera armilar, queremos o oceano antes do céu.
Cabo Mondego, 20-8-2015
EDUARDO AROSO ©

quinta-feira, 30 de julho de 2015

CREDO LUSÍADA ©


Creio nas líquidas madrugadas
Último perfume da lua
(Ressaibos de saudade da lonjura),
Para desafiar o sol
Até ao zénite da aventura.

Cais das Colunas,
Julho de 2015
Eduardo Aroso ©