sábado, 6 de fevereiro de 2016

O CARNAVAL, A IDENTIFICAÇÃO DA CARNE E UM JÚBILO RADICAL

Oh, se esta alegria fosse a que diariamente nos falta, a que se busca em vão quantas vezes por caminhos infrutíferos, o júbilo perdido do simplesmente existir como ser, matéria-prima humana fosse ela, anterior aos vislumbres do ADN. Lembrança de um génesis que um vento aleatório, mas possível, ainda pode trazer.
 Quem dera este provocado e intenso lance - que vem e desaparece como o suor de algumas horas – fosse folia de saber confiança no destino e na vida, como o nascer matutino do sol e o parto anual da natureza na diversidade de crias que nos chegam de vários modos e para tantos suprimentos.
 Actos de pura motricidade, provocados, anémicos e transgénicos, fossem eles a Folia do Espírito Santo, a da abundância sem desperdício, que faz acontecer a mensagem sem intermédios, e que fará cada qual ser, ao mesmo tempo e em cada dia, o juiz e o julgado. Se invocar a alegria, sem o seu cultivo, não é um ofício negro, fá-lo aparecer como cinzento, ao jeito do abuso do sagrado dom da comunicação, pela, pior que vacuidade da palavra, a sua perversão no ávido altar do entendimento humano. Por desnecessário, nenhum seguro de vida pode garantir o autêntico desfile da vida.

Eduardo Aroso ©
6-2-2016


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

CURIOSIDADES NATURAIS E LEGÍTIMAS DAS CRIANÇAS
(A CRIAÇÃO DE AVES)

- Mamã, só vejo o nosso papagaio aqui na gaiola!
Onde existem os bandos de papagaios?
- Nas televisões, filho! É onde podes ver mais. E de várias cores…
- Então, sendo eles de várias cores, palram de modo diferente?
- Nem tanto. O piu piu deles vai dar sempre ao mesmo. A isso chama-se, em filosofia, o óbvio,    ou algo parecido. Os papagaios têm todos uma característica igual, e é por isso que lá permanecem: palram sempre o que nós gostamos de ouvir.
- Mamã, como se reproduzem esses papagaios?!
- Nem queiras saber, filho. É muito mais complicado do que aquilo que se passa no capoeiro das galinhas da tua avó!...

Eduardo Aroso
4-2-2016


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

ENSINANDO ASTRONOMIA (E METALURGIA) ÀS CRIANÇAS

- Mamã, os tachos têm pernas?
- Que pergunta! Claro que não!
- Mas eles mudam de sítio…
- Sim, movimentam-se…alguém os muda.
- Quando é que os tachos estão quietos e acabam as trocas e baldrocas?
- Olha, filho, quando acabar o metal de que são feitos e que há nos ministérios. Mas olha que o movimento dos tachos é como o do Sol à volta da terra: é aparente. Isto é, assim como o Sol é que está parado e a Terra gira em volta, também os tachos são sempre os mesmos; as pessoas é que vão girando à volta deles.

(O filho fechou o livro, dizendo que já tinha entendido o princípio basilar da astrometalurgia).

Eduardo Aroso 1-2-2016



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

AFORISMOS (38)

A outra face do fanatismo - também ela lamentável - consiste no acto abusivo de, em alguém, a tomar por uma profunda e construída convicção. E o que nos admira ainda é o facto de não lhe podermos atribuir o sentido de ser uma espécie de vizinha da chamada militância política. Ambas podem estar carregadas de irracionalidade ou visão centrada apenas na verdade de cada uma. Há todavia uma diferença significativa, pois que na relação fanatismo-religião e na conotação militância-política, neste último caso é suposto que exista a consciência da lei civil que, na desobediência à saudável convivência cívica, pune mais ou menos rapidamente, ao invés do fanatismo religioso.

Eduardo Aroso
26-1-2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

NA PACHORRA DAS ELEIÇÕES, UMA HISTÓRIA DE DOMINGO

Era uma vez um fiscal de uma obra que andava a ser feita há cerca de 900 anos! Como é de ver, durante a obra os fiscais foram aparecendo e desaparecendo. Uns melhores, outros nem tanto, nunca se incomodavam muito a examinar certos pormenores da obra, ou seja, quando aparecia uma espécie de cotão num canto, aquilo passava na vistoria, e logo se agarrava mais cotão… Noutros lados surgiam outras coisas, enfim… Não se sabe porquê, o certo é que todos queriam ser fiscais. Até senhores, muito bem na vida, gostavam dessa profissão, a de fiscais, e mesmo certos trolhas que não podiam ir além disso.
 Em princípio o trabalho estava definido na profissão; mas apareciam fornecedores, vendedores, mediadores, gente que tinha escritórios (isto é, que também tinha que fiscalizar outras obras), mais isto e aquilo, e isto levantava complicações, porque alguns deles, noutros tempos, tinham oferecido umas luvas (nem sempre as mesmas) para os fiscais andarem na obra. Mas fiscais havia que, em certas épocas, já pouco fiscalizavam… O caricato é que a obra sendo a mesma ia passando no tempo, ou seja, os proprietários para reivindicar, em muitos casos, já não eram os mesmos (!), porque também iam morrendo.
 Por isso, a moral da história pode ser esta: o fiscal lá ia fazendo das dele. O último fiscal, então, foi uma desgraça. Nem simpático era, sempre de maus modos quando falavam para ele, talvez porque soubesse que não se podiam ir queixar a outro. O que eu gostaria é que o próximo fiscal fosse melhor, que não deixasse ganhar cotão nos cantos do império, que visse bem o que há debaixo dos tapetes e das soleiras das portas e que vigiasse melhor certos janelos das lojas, por causa do mofo e do que lá se esconde e não está no projecto. Oxalá! Assim seja!

Eduardo Aroso ©

24-1-2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

UM PRESIDENTE PARA A PÁTRIA, A NAÇÃO E O PAÍS

Do mesmo modo que não me contento com um deus menor, desses que surgem por aí ao virar da esquina das novas prédicas religiosas inflamadas, também não gostaria de ter um presidente menor, mesmo cavalgando no corcel gasto da frase: «de todos os portugueses». Anseio por um presidente maior (seja qual for a sua estatura física) para os destinos de um Portugal maior, remanescente esse que é mais verdadeiro do que o longínquo e deturpado dos ecrãs e jornais diários.

Nenhum dos candidatos tem formação holística de nervura intrinsecamente portuguesa; nenhum deles tem um fulminante pensamento que atravesse, palpitando, oitocentos anos de História, sendo mais fácil ir buscar a palavra «Europa» ou «internacionalismo» mas não saindo do caseirismo do beija-mão ao interesse do momento; nenhum deles tem o estetoscópio necessário para saber as batidas do coração do Povo (grafa-se com maiúscula para distinguir do povo votante, o das estatísticas), mesmo que os candidatos voltem às feiras, às escolas, e visitem lares de idosos. Seria bom agora haver rei (entenda-se herdeiro da estirpe de Aviz), mas não sendo possível pela república parlamentar, talvez o fosse pela república do Povo! Ser académico brilhante, comentador televisivo, empresário pragmático ou abraçar causas de protecção social, é como dizer «a César o que é de César…». Mas o facto de cada um desvalorizar «o tom» em que o adversário se move, mostra a manifesta insuficiência de perfil globalizante, qual águia altaneira. Já há muito que degradação das elites do espírito levou necessariamente à degradação da vida política sem ética nem estética.

Mas… quanto aos candidatos? É o que temos? Será assim? Ou apenas o que se nos mostra do mais (e melhor) que existe e não se manifesta?!!! Nos momentos cíclicos da vida nacional percebe-se que o subterrâneo mito português do Encoberto vem um pouco mais à superfície. Um rei oculto ou um presidente sombra passam nas avenidas insatisfeitas da nação. Mas o cerrado nevoeiro faz com que toquemos as esquinas de dor ou então sigamos caminho sem saber por onde vamos.  Nenhum dos candidatos se preparou para ser presidente maior do Portugal maior, ainda que tenhamos o dever de escolher um deles. Todavia, haverá sempre um rei oculto ou um presidente sombra na avenida enigmática da espera que, infelizmente, nunca desespera.

Eduardo Aroso ©
13 de Janeiro de 2015







segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

PAISAGENS (2)

O poeta adoeceu. Não é que as flores morressem como se o jardineiro as não cuidasse. Ficaram apenas de certo modo perplexas por causa do oxigénio que se interrogou também, porque sentiu que não bastava para dar vida às pessoas, em ondas de alegria, ao mesmo tempo que as folhas das árvores se arrepiaram, amarelecidas, naquela ausência, onde se notava que a palavra era outra seiva que fazia o verde primavera todo o ano e o oxigénio tomava o nome de esperança.

11-1-2016

Eduardo Aroso ©