METAMORFOSES DO BETÃO
IN COIMBRA CITY
Um dia
Os musgos,
Certas plantas
E algumas estranhas flores de lotes...
Subirão latejantes
Pelas paredes em agonia,
Lamentando o destino
De não serem terra,
Junto ao Parque Verde
Ali onde tudo respira
E a esperança nunca se perde.
Coimbra, 26-2-2016
Eduardo Aroso ©
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Miranda do Corvo, 1-2-2016
PAISAGENS (2)
Um a um, os ramos iam caindo como se gente
fosse atirada abaixo de uma varanda, sem que houvesse ímpeto de desprezo ou
belicismo. Ao som estridente da serra mecânica, amontoavam-se no chão, deixando
um alívio no cimo da árvore. Era como o arrumar de uma casa, ou alguém que
retirasse ideias caducas da cabeça que já não podiam dar mais nada. Por fim,
ficou o tronco grosso, frio e hirto, uma espécie de estátua vegetal à espera
que a primavera lhe faça nascer os cabelos e da maquilhagem mais bela: um verde
humedecido de seiva.
Eduardo Aroso
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
HIPERTENSÃO J E HIPERATENÇÃO
Um criador artístico é um
hipertenso, quer os indicadores apareçam, ou não, no respectivo aparelho de
medição. Tudo nele está acima do normal e, com a idade, isto é, a prática e o
ânimo de «dar à luz», pode mesmo aumentar de intensidade. O par da hipertensão
é uma intuitiva hiperatenção mesclada de sentimento estético que acaba por
definir o perfil de artista hipertenso que talvez melhor se defina como um
hiperacordado!
Há dias, alguém me dizia que
vinha do médico cardiologista, relatando-me o sucedido. Para remate de conversa
disse-lhe: - Pois tome lá (se for caso disso) o comprimidinho necessário, mas não
deixe de criar, de continuar a sua obra, mesmo que os outros ainda não a reconheçam
como deve ser. Continue, pois se deixa de o fazer, então é que as suas veias
lhe rebentam de vez, e aí é o cabo dos trabalhos… O homem riu-se, acrescentando
que era mesmo o fim do trabalhos… Ainda me disse: - Antes que as veias rebentassem
morria-me a alma antes do corpo!
Eduardo Aroso
11-2-2016
sábado, 6 de fevereiro de 2016
O CARNAVAL, A IDENTIFICAÇÃO
DA CARNE E UM JÚBILO RADICAL
Oh, se esta alegria
fosse a que diariamente nos falta, a que se busca em vão quantas vezes por
caminhos infrutíferos, o júbilo perdido do simplesmente existir como ser, matéria-prima
humana fosse ela, anterior aos vislumbres do ADN. Lembrança de um génesis que
um vento aleatório, mas possível, ainda pode trazer.
Quem dera este provocado e intenso lance - que
vem e desaparece como o suor de algumas horas – fosse folia de saber confiança
no destino e na vida, como o nascer matutino do sol e o parto anual da natureza
na diversidade de crias que nos chegam de vários modos e para tantos suprimentos.
Actos de pura motricidade, provocados, anémicos
e transgénicos, fossem eles a Folia do Espírito Santo, a da abundância sem
desperdício, que faz acontecer a mensagem sem intermédios, e que fará cada qual
ser, ao mesmo tempo e em cada dia, o juiz e o julgado. Se invocar a alegria,
sem o seu cultivo, não é um ofício negro, fá-lo aparecer como cinzento, ao
jeito do abuso do sagrado dom da comunicação, pela, pior que vacuidade da
palavra, a sua perversão no ávido altar do entendimento humano. Por
desnecessário, nenhum seguro de vida pode garantir o autêntico desfile da vida.
Eduardo Aroso ©
6-2-2016
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
CURIOSIDADES
NATURAIS E LEGÍTIMAS DAS CRIANÇAS
(A CRIAÇÃO
DE AVES)
- Mamã, só
vejo o nosso papagaio aqui na gaiola!
Onde existem
os bandos de papagaios?
- Nas
televisões, filho! É onde podes ver mais. E de várias cores…
- Então, sendo
eles de várias cores, palram de modo diferente?
- Nem tanto.
O piu piu deles vai dar sempre ao mesmo. A isso chama-se, em filosofia, o óbvio,
ou algo parecido. Os papagaios têm
todos uma característica igual, e é por isso que lá permanecem: palram sempre o
que nós gostamos de ouvir.
- Mamã, como
se reproduzem esses papagaios?!
- Nem
queiras saber, filho. É muito mais complicado do que aquilo que se passa no
capoeiro das galinhas da tua avó!...
Eduardo Aroso
4-2-2016
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
ENSINANDO
ASTRONOMIA (E METALURGIA) ÀS CRIANÇAS
- Mamã, os
tachos têm pernas?
- Que
pergunta! Claro que não!
- Mas eles
mudam de sítio…
- Sim,
movimentam-se…alguém os muda.
- Quando é
que os tachos estão quietos e acabam as trocas e baldrocas?
- Olha, filho,
quando acabar o metal de que são feitos e que há nos ministérios. Mas olha que
o movimento dos tachos é como o do Sol à volta da terra: é aparente. Isto é,
assim como o Sol é que está parado e a Terra gira em volta, também os tachos
são sempre os mesmos; as pessoas é que vão girando à volta deles.
(O filho
fechou o livro, dizendo que já tinha entendido o princípio basilar da
astrometalurgia).
Eduardo Aroso 1-2-2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
AFORISMOS (38)
A outra face do fanatismo - também ela lamentável - consiste no acto abusivo de, em alguém, a tomar por uma profunda e construída convicção. E o que nos admira ainda é o facto de não lhe podermos atribuir o sentido de ser uma espécie de vizinha da chamada militância política. Ambas podem estar carregadas de irracionalidade ou visão centrada apenas na verdade de cada uma. Há todavia uma diferença significativa, pois que na relação fanatismo-religião e na conotação militância-política, neste último caso é suposto que exista a consciência da lei civil que, na desobediência à saudável convivência cívica, pune mais ou menos rapidamente, ao invés do fanatismo religioso.
Eduardo Aroso
26-1-2016
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