segunda-feira, 20 de junho de 2016


DESÍGNIO

Se uma voz me fala e a não ouço,
Serena-me a paisagem
E a certeza de um rumor
Que é destino e viagem.

O rio corre para o oceano
Quem sabe ao fim do mundo;
De oriente a ocidente
Vai-se pelo segredo arcano.

O rio passa sobre a raiz do tempo
E é no fundo oculto das águas
Que se interroga o movimento.
Aquieta-se a torre lá no cimo
Como se a coragem e a fé
Cumprissem um desígnio.

Eduardo Aroso ©
Dornes - Ferreira do Zêzere, 20-6-2016

(Solstício de Verão)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O MENDIGO 


 Anda pelas ruas da comunidade,
Mas onde pára mais é em Bruxelas,
Agora o grande centro paroquial
Das europeias e finas favelas.

Com o tempo foi guardando no bolso
As mais belas obras - sonhos adiados.
No grande lar da terceira idade
Estão os ideais gregos acamados!

A economia prepara uma grande festa
Transmitida em directo pela televisão.
Na casa da Europa uma placa vai dizer:
Aqui viveram Aristóteles e Platão.

Agosto de 2010
Eduardo Aroso ©


domingo, 12 de junho de 2016

FÁBULA LUSA

Em tempos que ainda estão, numa nação finisterra, havia um bela capoeira à beira-mar plantada. Ora, um dia, perante o agudo canto matutino do galo, algumas companheiras fizeram-lhe o seguinte reparo:
 - Olha lá, é necessário que diariamente sejas assim tão insistente e estrondoso? Ainda nem se vê a luz do dia e já estás a levantar o trompete, arrancando-nos do sono!
- Não é uma questão de ser ou não rei da capoeira e de ter ou não crista alta; se eu não o fizesse, quem anunciaria a aurora?!


Eduardo Aroso
 12-6-2016

terça-feira, 7 de junho de 2016


DA POLÉMICA NUTRIÇÃO

Do erário público
Comem a carne.
Os ossos são para o povo.
Sempre foi assim.
Nada de novo.

Mas sempre existe a cautela
De nunca faltarem ossos
Em quantidade suficiente
(De não haver fome
Completamente)
Distribuídos em certas ocasiões
Mais cedo ou mais tarde.
Porque se assim não fosse
Os ossos seriam dentes
E comeriam a carne...

Eduardo Aroso
Junho, 2016



terça-feira, 24 de maio de 2016

CURA

Volver ao centro
É descoberta,
Alegria de todas as periferias.
Mas o caminho por onde passes
Deve ficar estremecido.
Tudo será o ouvido absoluto
Para escutar de novo a palavra limpa do Génesis.
Da boca de cada pedra sairá som e vida;  
És tu inteiro pelo corpo,
Por certo a nuvem mais densa e carregada…
Não desanimes se o murmúrio é sufocado.
No deslizar que buscas encontras afinação.
Se estás entre o pássaro e o vento,
A seiva generosa e o fulgor da aurora,
Se és caixa de ressonância disto tudo
Soa perfeita a melodia.
Regressam a ti o antes e o depois,
Nesse ponto de equilíbrio
Além da geometria!

Eduardo Aroso ©
24-5-2016


domingo, 15 de maio de 2016


PENTECOSTES EM SANTA CLARA ©

(Ao José Gomes
que labora nesse lado do rio)

Uma rosa abre-se do Alto
Vinda de uma raiz sem espaço.
O tempo é uma boca aberta
Sentado no ínclito regaço.

Senhora, porque passais
Com água e fogo em vossas mãos
Na caridade da espera
Pela gnose da consumação?

Uma rosa abre-se do Alto
Dada em pétalas de fogo
E se há palavras que não soam
Elas cantam no coração do povo!

Eduardo Aroso ©
Coimbra (Sta. Clara, 13-5-2016)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

PORTUGALIZANDO (4)

Portugal é uma super-estrutura numa infraestrutura que nunca existiu! O paradoxo é que o alicerce parece estar em cima, por isso os materiais de construção vêm do sonho e do além-história. Basta-nos a baba dos deuses! 
O necessário animar, pelo sopro do Espírito Santo no espaço numa fraternidade criativa. Só aí percebemos a queda definitiva de todos os adamastores; as não limitações de Deus, que certos teólogos gostam de procurar. Se sempre fomos empurrados para o mar, é este ponto uma espécie de purgatório, nem o céu de outrora nem o inferno de agora onde morrem todos os sonhos e esperanças. Mar, terra e ar, serão o nosso passeio, como viram Gago Coutinho e Sacadura Cabral, na via deste último elemento.
Todavia, há um cimento necessário, mas não esqueçamos que esse betão se faz e desfaz pelo sopro do tempo. Chamemos-lhe então simplesmente cimento do tempo, um heterónimo que se cria e se desfaz. Mas nele, como disse o bispo brasileiro D. Helder da Câmara, «não se pode prègar religião a estômagos vazios». Nem religião nem nada. Até as formas atraentes do sonho nos podem parecer fantasmas se um ancião tem que dormir num quarto húmido e não tem sopa para se aquecer de noite. 

Eduardo Aroso
12-5-2016