sábado, 13 de agosto de 2016


CONDIÇÃO ORIGINAL ©

O mar é um pêndulo.
Depois da agitação
O rigor das estrelas
Devolve-lhe a ondulação certa.
Não há amplitude maior
Que os braços abertos da espera.

Eduardo Aroso

(Cabo Mondego, Agosto 2016)©

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

ENDECHA ©

Esta ausência de barcos
Dói como a sede no deserto.
Quem urdiu a rede fatal de punhais
Onde o esforço se fere?...

Eduardo Aroso ©

(Cabo Mondego, Agosto de 2016)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

HORA AO RUBRO

Nítida é a pátria
Sobre a nação ausente,
Pedindo a palavra-passe universal.

Descarnados ossos
Reluzentes ao sol
À espera de ressurreição.
Não se cruzam gaivotas com abutres...
Nem os sonhos se abraçam
A pontiagudas lanças.

Uma brisa chega
Leve melodia de canavial;
Sopra do ponto geográfico
Chamado esperança.

Eduardo Aroso
(Cabo Mondego, Julho de 2016)

quarta-feira, 27 de julho de 2016


Somos uns tantos milhões de Cristos em agonia à espera de sair da cruz; cada português é um meio D. Sebastião que, não tendo organizado a expedição a Alcácer-Quibir, quer regressar ao Portugal do mistério e do estranho cumprimento; somos uns tantos milhões onde cada um, emocionalmente, marca o golo da vitória e no dia seguinte não vê a baliza, rodeada de nevoeiro. Somos muitos Velhos do Restelo, desconhecendo que um grupo de excepcionais (que fizeram da idade uma equação ou talvez poema); à volta de uma mesa redonda, pegam nas cartas para o jogo dos quatro elementos.

Eduardo Aroso, 27-7-2016

sexta-feira, 1 de julho de 2016

AFORISMOS (40)

Entramos no labirinto pela porta fatal da ignorância ou do descuido. Para a saída são dadas todas as possibilidades. Antes, porém, é necessário percorrer todos os corredores várias vezes, um quase enlouquecer de desamparo com a promessa de assistência a quem a suplicar. Finalmente, a única saída faz-se em qualquer espaço... 

Eduardo Aroso 1-7-2016


segunda-feira, 20 de junho de 2016


DESÍGNIO

Se uma voz me fala e a não ouço,
Serena-me a paisagem
E a certeza de um rumor
Que é destino e viagem.

O rio corre para o oceano
Quem sabe ao fim do mundo;
De oriente a ocidente
Vai-se pelo segredo arcano.

O rio passa sobre a raiz do tempo
E é no fundo oculto das águas
Que se interroga o movimento.
Aquieta-se a torre lá no cimo
Como se a coragem e a fé
Cumprissem um desígnio.

Eduardo Aroso ©
Dornes - Ferreira do Zêzere, 20-6-2016

(Solstício de Verão)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O MENDIGO 


 Anda pelas ruas da comunidade,
Mas onde pára mais é em Bruxelas,
Agora o grande centro paroquial
Das europeias e finas favelas.

Com o tempo foi guardando no bolso
As mais belas obras - sonhos adiados.
No grande lar da terceira idade
Estão os ideais gregos acamados!

A economia prepara uma grande festa
Transmitida em directo pela televisão.
Na casa da Europa uma placa vai dizer:
Aqui viveram Aristóteles e Platão.

Agosto de 2010
Eduardo Aroso ©