quarta-feira, 26 de outubro de 2016

AFORISMOS (41)


Dar de caras com a poesia.
Sem prefácios nem apresentações de figurões. Dar de caras, pode assustar ou não pela beleza súbita. O imprevisto não requer uma espécie de legítima defesa, mas permite ver, por algo que nos atravessa, se tal poesia é um sol que abrasa e absorve, ou se apenas é um planeta caído no fragmento de um asteróide, que há muito deixou de ser habitado.

Eduardo Aroso
Outubro, 26-10-2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CRIANÇAS ©

No Lago do Gana
Muito se chora
Muito se engana

No Lago do Gana
Vive o silêncio
E ninguém chama

Estranha geografia
De que mundo afinal
Presente no mapa
Sem voz fraternal

Crianças passam
No lago maior
De muitas águas
E pouco amor.

No Lago do Gana
As águas são negras
E muito se engana.


16-10-2016
Eduardo Aroso ©


sábado, 8 de outubro de 2016


PARÁBOLA DE CIRCUNSTÂNCIA

Portugal, nos dias de hoje, é um resto de vindima. Alguns ainda voltam atrás, vão ali e acolá, andam à volta de alguma cepa, para ver se ficou algum cacho luzidio que outros não viram. Quanto à limpeza do lagar, há gente que tem o cuidado de deixar limpo o cesto das suas uvas; outros não se importam com isso, e, mais atafulhados, pegam em qualquer cesto ainda cheio de uvas, pois querem o (muito) vinho: depressa e bem. Da próxima colheita nada se sabe. Ma é de esperar que o Senhor da vinha, seja de que modo for, comece a pedir contas da vindima.

Eduardo Aroso

8-10-2016  

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

«NÃO VOS DISSE ESTAS COISAS DESDE O PRINCÍPIO, PORQUE ESTAVA CONVOSCO» JOÃO, 16:4

A Esperança existe, mas deve ser tomada de onde se requer. O fim de um ciclo histórico - seja universal, seja o que a nós portugueses respeita – não é terreno favorável a um pensamento que possa, antes do tempo, (re)erguer o que ainda declina. Pensamento que, por mais encorajador e profético, não pode fazer da manhã o que é entardecer. Apenas o que move o pensamento pode gerar o imprevisível, sendo então o pensamento “da mesma carne” que o abscôndito princípio que ditou o Logos. Morder a cauda provoca essa espécie de escuridão bíblica apocalíptica, em que num breve espaço de tempo tudo se escurece, para depois raiar de novo a aurora do Criador.
Um filósofo hindo-brasileiro de pendor místico disse há alguns anos que “este é o tempo dos atrasados». Uma afirmação tremenda de verdade, que, ao contrário do que parece evidente, explica o crescimento da banalidade, a ascensão da mediocridade como paradigma, tudo isto dando o crescimento do mal. Nenhum homem de sabedoria se escuta nos média, numa conversa de café ou de clube recreativo de bairro.


Eduardo Aroso, 28- 9-2016

domingo, 25 de setembro de 2016

ü     DA CONSTRUÇÃO DO TEMPLO (1)

A pedra mais sólida do templo é a que se coloca em amoroso silêncio, como o luar mais límpido se espelha num lago na quietude nocturna. É a própria luz, e não uma voz troante, que mostra o que se deve mostrar. O acto diário de ser, o gesto simpático que tantas vezes ilumina o outro como um voo de ave no céu, isso é também a construção do templo. Fazer o melhor que é possível aumenta sempre a auréola do templo. Porém, o que lhe dá a fortaleza contra tempestades súbitas do mundo e os efémeros gostos de cada época, é o sacrifício consentido de uns tantos, soldados e generais em simultâneo, talhando as directivas e logo fazendo, pois, como disse um poeta «o esforço é grande e o homem é pequeno».
 A construção do templo, seja o de cada um, vestimenta luminosa do corpo-alma, seja um outro mais amplo daqueles que voluntariamente não abandonam a seara do Senhor, Servidores Invisíveis do Arquitecto-Mor, segue sempre o seu percurso como a marcha do tempo, mesmo na apatia e desconforto de alguns dias, ou se a escuridão momentânea se abate sobre os braços vigilantes dos obreiros. Permanecer é um sentimento de certeza de que aquilo que se ergue nenhuma erosão desgasta e nenhum falso profeta ousará aproximar-se onde a luz da verdade e do amor queima a mentira.

Eduardo Aroso ©
Equinócio de Setembro, 2016


quinta-feira, 22 de setembro de 2016


A VISITA DO AMADO SENHOR ©

Esta é a tua casa, Senhor,
A que reconstróis a cada ano
Com a cal mais luminosa
Luz sobre o nosso viver insano.

Este é o teu gesto, Senhor,
Que basta para nos suportar.
O teu regaço seguro e manso
Que nos faz no espaço flutuar.

Quando regressas em Setembro
Para nós tardes mais calmas,
Despedidas de folhas melancólicas
Mas há primavera em nossas almas.

À janela bem aberta da ansiedade
Olhamos o céu de dentro e o de fora.
Entra Senhor, a casa é Tua
Desgastada por nós a toda a hora.

A porta, Senhor, nunca fechada,
Tu mesmo a abriste sob escolta
Da turba de algozes esquecidos do Pai,
No Teu amor-doloroso do Gólgota.

A porta aberta de par em par
No umbral uma humilde oração.
Nada mais temos para receber-Te
Do que singelas flores do coração.

Eduardo Aroso ©

9-9-2016

sábado, 17 de setembro de 2016

DA ESFÍNGICA INTERROGAÇÃO ATLÂNTICA

«Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado»
Mensagem, F. Pessoa

Por que é que o nosso olhar desafia a Esfinge? Se esta, nos confins do deserto do Saara, olha persistente e inamovível o oriente, Portugal fita o lugar onde o sol se põe, tão bem lembrado por Unamuno e por Pessoa.  Fitar o ocidente, que é como quem está perante o fruto maduro de mais um dia, ou de um grande ciclo histórico, o que, pela analogia,  adensa o mistério, pois em matéria de simbologia pode levar-nos a outras visões.
Se a Esfinge formula o enigma da vida e da morte, o que é consequência do Portugal das Descobertas, o lusismo ou lusofonia que «falta cumprir»,  interrogando o ocidente, pode muito bem desafiar a síntese de muito do que tem sido a História. Se Portugal não pode representar o que é de outras nações, fez-se por sua natureza liame para ainda celebrar o bodo da mesa fraternal, comunhão universal que clama por ser.
Nessa síntese, que é como diz encerramento de ciclo, abre – paradoxalmente no vazio – o espaço do novo, seja já «a madrugada irreal do Quinto Império», seja, noutro nome, «A Nova Terra e os Novos Céus». A esfinge que, na nossa imaginação, se senta no ponto mais ocidental, o cabo da Roca, olhando o Cruzeiro do Sul, se no arquétipo universal é a mesma do Egipto, no Plano da Manifestação pode ser a esfinge atlântica que, ao invés, de interrogar viajantes e marinheiros sobre o enigma da vida e da morte, o faça sobre o sopro que atravessa a Esperança. Se o oriente é já o sol nascente, imagem do acontecer, o lugar onde desce o astro-rei é o da Esperança do regresso, não de modo sebástico e incerto, mas já na certeza intocável do Amor criador diário. «Verei o Criador nas criaturas», como sentiu e escreveu Frei Agostinho da Cruz, parece ser o repto lançado a quem, por água ou pelo ar, cruza o oceano, numa atitude que ultrapassa o imediatismo de Deus ser brasileiro ou macaense (!). A esfinge atlântica talvez peça a senha da palavra poética como graça para a fraternidade das criaturas.

Eduardo Aroso,

Lua Cheia de Setembro, 2016