sexta-feira, 11 de novembro de 2016


URBANIDADES
E A MORTE DE INÊS©


Entre meridianos de saudade
Sopra uma aragem
De voltas e retornos.
Escrevem-se as sebentas
Nos átrios idos e presentes.
Orçamentos são equações e silogismos
Difíceis de ler com detalhes ausentes.

Um delírio-sonho
Com que a cidade se veste.
E se a verdade do Mondego
For hoje o rio Lethes?!

Resignadas laringes
No tempo abstracto cantando.
Ferido o coração de Inês,
É o mesmo punhal
No ventre da urbe,
Silêncios arfando,
Lâmina de rua,
Artéria fatal.


Eduardo Aroso ©
Coimbra, 11-11-2016





domingo, 30 de outubro de 2016

Avenida D. Manuel I
(Alcochete) ©

Paira ainda sobre o Tejo
O seu olhar fixo de estátua
Feita de matéria escura.
Venturoso foi o seu olhar primeiro.
Hoje mais que névoa ou nevoeiro
É a janela estreita
E a frouxidão do longe
A nossa desventura.

Eduardo Aroso ©

Alcochete, 30-10-2016


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

AFORISMOS (41)


Dar de caras com a poesia.
Sem prefácios nem apresentações de figurões. Dar de caras, pode assustar ou não pela beleza súbita. O imprevisto não requer uma espécie de legítima defesa, mas permite ver, por algo que nos atravessa, se tal poesia é um sol que abrasa e absorve, ou se apenas é um planeta caído no fragmento de um asteróide, que há muito deixou de ser habitado.

Eduardo Aroso
Outubro, 26-10-2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CRIANÇAS ©

No Lago do Gana
Muito se chora
Muito se engana

No Lago do Gana
Vive o silêncio
E ninguém chama

Estranha geografia
De que mundo afinal
Presente no mapa
Sem voz fraternal

Crianças passam
No lago maior
De muitas águas
E pouco amor.

No Lago do Gana
As águas são negras
E muito se engana.


16-10-2016
Eduardo Aroso ©


sábado, 8 de outubro de 2016


PARÁBOLA DE CIRCUNSTÂNCIA

Portugal, nos dias de hoje, é um resto de vindima. Alguns ainda voltam atrás, vão ali e acolá, andam à volta de alguma cepa, para ver se ficou algum cacho luzidio que outros não viram. Quanto à limpeza do lagar, há gente que tem o cuidado de deixar limpo o cesto das suas uvas; outros não se importam com isso, e, mais atafulhados, pegam em qualquer cesto ainda cheio de uvas, pois querem o (muito) vinho: depressa e bem. Da próxima colheita nada se sabe. Ma é de esperar que o Senhor da vinha, seja de que modo for, comece a pedir contas da vindima.

Eduardo Aroso

8-10-2016  

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

«NÃO VOS DISSE ESTAS COISAS DESDE O PRINCÍPIO, PORQUE ESTAVA CONVOSCO» JOÃO, 16:4

A Esperança existe, mas deve ser tomada de onde se requer. O fim de um ciclo histórico - seja universal, seja o que a nós portugueses respeita – não é terreno favorável a um pensamento que possa, antes do tempo, (re)erguer o que ainda declina. Pensamento que, por mais encorajador e profético, não pode fazer da manhã o que é entardecer. Apenas o que move o pensamento pode gerar o imprevisível, sendo então o pensamento “da mesma carne” que o abscôndito princípio que ditou o Logos. Morder a cauda provoca essa espécie de escuridão bíblica apocalíptica, em que num breve espaço de tempo tudo se escurece, para depois raiar de novo a aurora do Criador.
Um filósofo hindo-brasileiro de pendor místico disse há alguns anos que “este é o tempo dos atrasados». Uma afirmação tremenda de verdade, que, ao contrário do que parece evidente, explica o crescimento da banalidade, a ascensão da mediocridade como paradigma, tudo isto dando o crescimento do mal. Nenhum homem de sabedoria se escuta nos média, numa conversa de café ou de clube recreativo de bairro.


Eduardo Aroso, 28- 9-2016

domingo, 25 de setembro de 2016

ü     DA CONSTRUÇÃO DO TEMPLO (1)

A pedra mais sólida do templo é a que se coloca em amoroso silêncio, como o luar mais límpido se espelha num lago na quietude nocturna. É a própria luz, e não uma voz troante, que mostra o que se deve mostrar. O acto diário de ser, o gesto simpático que tantas vezes ilumina o outro como um voo de ave no céu, isso é também a construção do templo. Fazer o melhor que é possível aumenta sempre a auréola do templo. Porém, o que lhe dá a fortaleza contra tempestades súbitas do mundo e os efémeros gostos de cada época, é o sacrifício consentido de uns tantos, soldados e generais em simultâneo, talhando as directivas e logo fazendo, pois, como disse um poeta «o esforço é grande e o homem é pequeno».
 A construção do templo, seja o de cada um, vestimenta luminosa do corpo-alma, seja um outro mais amplo daqueles que voluntariamente não abandonam a seara do Senhor, Servidores Invisíveis do Arquitecto-Mor, segue sempre o seu percurso como a marcha do tempo, mesmo na apatia e desconforto de alguns dias, ou se a escuridão momentânea se abate sobre os braços vigilantes dos obreiros. Permanecer é um sentimento de certeza de que aquilo que se ergue nenhuma erosão desgasta e nenhum falso profeta ousará aproximar-se onde a luz da verdade e do amor queima a mentira.

Eduardo Aroso ©
Equinócio de Setembro, 2016