quinta-feira, 30 de março de 2017

UMBILICAL

A expressão corrente e pouco agradável de ouvir «não sair do seu umbigo» ou estar apenas no seu umbigo» é, no plano qualitativo, diametralmente oposta ao sentido tradicional do que representa este ponto nevrálgico do nosso corpo e da nossa psique, aparentemente como toca do egoísmo. René Guénon diz ser o «omphalos», relacionado com o Centro do Mundo, sob o ponto de vista iniciático e espiritual. Também o umbigo humano é o assento físico do chacra esplénico, a que os antigos chamavam o “segundo sol”. Hoje mesmo, constitui um ponto de concentração em certas práticas de meditação. Nesta perspectiva, se a ideia de Eu Superior tem algum acento físico-energético, é no plexo solar na zona do umbigo, e que, aliás, fica sensivelmente no meio do corpo.

Umberto Eco chamou a Tomar «o umbigo do mundo», coisa que muito antes alguns já sabiam, ou seja, haver um “chacra” templário a meio de Portugal, nesse local que, ligado a mais dois pontos, se denominou «triângulo místico» português». O acto de cortar o cordão umbilical implica uma cisão. Ora, o sentido dessa cisão não impede de continuar a haver uma profunda relação (tal é o caso da mãe-filho) resultante desse centro ou útero de onde se nasce. Mas também pode dar origem a uma perda irremediável. Não o será se o que se separa mantiver, de certo modo, alguma continuidade nem que seja apenas por uma vaga memória.  Não haverá cisão se esse Centro do Mundo ou umbigo for como uma espécie de sol, que verdadeiramente oculto (o tal “segundo sol” mas como também o Papa oculto) irradiando em todas as direcções. Aí pode ser uma imponderável Rosa-dos-Ventos.

29-3-2017

Eduardo Aroso

sexta-feira, 10 de março de 2017


ESPELHO©

Impossível é a lua cheia
Entre
Os prédios mais altos.
O chão é livre
Mas não voa para a contemplação.

Eduardo Aroso©

10-3-2017

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


DAS REDES…

Hoje as redes sociais deslaçaram-se completamente no passeio da rua sem viva alma, ao ponto de já não chegarem às cadeiras vazias do café. Não se adicionou nem bloqueou ninguém; aquilo era o que havia. Como é domingo, há uma rede cercando a igreja, rede meia partida, mas mais forte à entrada do templo. Não falo nos vendilhões do mesmo, mas dos pedintes. Reparei, mais adiante, que pelos alpendres e varandas, sem as pessoas e flores que noutros tempos havia, é provável que por lá passassem e andassem umas redes invisíveis… claro está. Há mais: as redes dos quintais confundem-se com as silvas. Até as redes dos pescadores estão limitadas; adicionar este ou aquele peixe não é à sua vontade. O certo é que ninguém gosta de ser enredado. Estar na fila é outra coisa. Melhor é voar e deixar o caminho livre para os outros.

Eduardo Aroso

27-2-2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

APONTAMENTO ANÍMICO-BUCÓLICO©

Ao poeta António Salvado,
nos seus 81 anos

Os verdes prados insistem
Na rebentação dos dias,
À margem das insígnias da morte
Que alguns anónimos depõem em seres humanos.

Estalam as manhãs
No silêncio entranhado
Da humidade longínqua do Génesis.
A imunidade dos talos
E a seiva escorrendo
Como um grito de vitória
Pegajosa esperança ávida de respirar
Na boca agónica do mundo.

Se há ribombar do aço
Manchando a geografia,
Solta-se uma fonte,
Ave, ímpeto de sair do ninho.
Exaltam-se rouxinóis nos salgueirais
E as velhas alminhas brancas nos caminhos
Ganham aura de catedrais.

Eduardo Aroso©
(22-02-2017
 entre Rio de Vide e Coimbra)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SOBRE CANONIZAÇÃO
(escrito algures entre Miranda do Corvo e Coimbra)

Como a palavra indica, o que está ou se submete a um CÂNONE. Um cânone musical é uma composição que requer uma certa estrutura sob pena de não ser cânone e não poder ser cantado ou tocado como tal. Há muita gente por esse mundo fora que viveu (e ainda vive) num rigoroso cânone de pobreza, de dignidade, de carácter, com abnegado esforço, mantendo-se fora de favorecimentos políticos, religiosos ou sociais. Vida canónica de um modo discreto quando não anónimo.

A minha avó, mulher da terra arável, que tinha como despertador o canto dos primeiros pássaros da manhã, que cuidava do pasto e da rega como outros cuidam das acções em bolsa, viveu no cânone do suor do rosto. Foi portanto uma mulher canonizada sem processos de milhares de páginas a justificar, e se justificação houvesse de outra ordem, ela teria um coro de árvores e de animais que deporiam a favor; a voz da terra que, na época própria, ela encarava como se fosse um altar onde também na Primavera e no Outono havia autênticos milagres. Quando era mais jovem eu já me tinha apercebido de que a minha avó era santa, porque viveu escrupulosamente o cânone do seu destino.

Eduardo Aroso
(9-2-2017)


domingo, 5 de fevereiro de 2017

AFORISMOS (44)

Aquilo que se foi introduzindo na mente do ser humano da actualidade como lógica irredutível para praticar a eutanásia, corresponde, na ciência, à manipulação do transgénico enquanto início de um processo de grande alcance, ainda indeterminado, das possibilidades da genética; e também não anda longe daquele pensamento que ainda tem o homem como “rei da criação”, isto é, o ser criado, não admitindo seres de dimensões diferentes da sua, entende que (desafiando o Criador) sabe tudo sobre a vida, para dela dispor não no sentido de legitimamente a conduzir no possível livre-arbítrio, mas de a criar de raiz, como se também fosse capaz de criar os mares, as serras, o movimento dos astros no mais belo quadro que é a recepção diária do sol, o fogo primaveril que brota anualmente sem a mão do homem.

 Eduardo Aroso

 5-2-2017   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

EXORTAÇÃO SOBRE UMA CORDA DESAFINADA ENTRE ESPAÇO E TEMPO

(À tríade Alexandra Pinto Rebelo, Cynthia Taveira e Bruno Santos)

Portugueses em todo o mundo, uni-vos e estabelecei um novo padrão para espaço nenhum, podendo ser visível de outro modo. Uni-vos descendentes da «raça dos marinheiros», vós que sois formados na arte de não deixar erguer muros, peritos na engenharia de pontes de afecto duradouro que juntavam a margem branca com a outra escura, e que criastes o primeiro tratado de diplomacia do mundo chamado «Carta de Pêro Vaz de Caminha», vós que ainda alimentais estaleiros com a renda do sonho (o suor escorre para o telhado, pois quer olhar as estrelas…).  Desenrolai a corda que espera ansiosa e espiralada nos Painéis de Nuno Gonçalves, a corda sagrada, sinal de reconhecimento, e que é ave flamígera à espera de voar sobre os mares do tempo onde se desfazem os calendários civis como grades de prisão.
 Esperam-nos as naves do tempo, não sujeitas ao carburante dos mercados financeiros. Do tempo concreto, amoroso, como quem visita um familiar que se afastou há muito de nós ou o futuro, como quem idealiza a moradia bafejada pela natureza, onde o vigor solar e a ternura da lua entrem e saiam sem impostos obrigatórios. Portugueses de agora, sois de todos os tempos, deixai a fome da terra, e não mais vos alimenteis de sapos (engolir na altura de eleições é doloroso). É sábio não dar tanto valor à impermanência do registo civil. Largar, largar do porto chamado Agora, o ponto onde vos encontrardes, quer se apanhe bem ou não no Google, em qualquer ponto cardeal, onde haja ou não emigração.
 Os outros que têm carta de condução falsa para conduzir o mundo, são os timoratos do tempo, afogados no consumo. Larguemos então a viajar no tempo, sejamos de novo pioneiros, estabeleçamos protocolos duradouros e vantajosos com os extraterrestres, almas do outro mundo, como são aquelas da nossa devoção que ainda lembramos quando passamos nas aldeias pelas alminhas caiadas de branco, naves da nossa fé. Protocolos - sem o fastio mentiroso das assinaturas legais - com esses seres multiformes, verdes ou não, mas que são agora o que outrora foram outros irmãos de carne e osso, povoando outros continentes e outras ilhas. São eles que hoje nos podem instruir nas novas cartas de navegação, que dobram o tempo, que o fazem curvilíneo, como quem dobra, realiazado, uma curva depois de visitar o esplendor do Cabo de Sagres! 
Entrar e sair no tempo como quem entra e sai numa embarcação consoante o fluxo conveniente da maré. Dobremos a página dos «novos mundos ao mundo» por novos tempos ao tempo roto (com ou sem buracos-negros) do mundo, gasto, cheio de dívidas e juros, o tempo que não tem tempo de pagar a conta!
 Sejamos carne e alma, mas carne-viva, inflamada, que deite chama no pó frio que os mornos (vomitados, segundo o Apocalipse) foram amontoando. Para que assim os abutres sem pena (s) de ninguém possam ser afugentados pela Fénix que surge no horizonte como o sol largo e promissor num dia de Verão.

N.N.D.S.N.T.D.G. Eduardo Aroso, 18-1-2017