domingo, 25 de junho de 2017

BILHETE PARA A POSTERIDADE©

Aqui viveram pessoas
Longe da maresia dos subsídios
Que atracam no Terreiro do Paço.
Comiam sempre
Do que a outros resta…
Morreram na esperança
Do tal ordenamento
Como justiça dos homens
E do acto divino,
Ressurreição final
Da floresta.

25-6-2017
Eduardo Aroso


terça-feira, 13 de junho de 2017

FERNANDO (ULTRA) PESSOA

Cada um puxa e repuxa
Conforme é capaz.
No jogo das cordas
Surge sempre
Um académico
Capataz
Que dá a ordem:
- Todos numa!
(Isso é sistémico…)

O poeta (se assiste)
Desfaz-se de mágoa,
Na tola justificação
Do vinho no balcão
E que persiste
De ter mais uva ou mais água.
Mas puxando
Assim ou assado,
Com força ou com calma,
Ninguém lhe desfaz o génio
Nem toca na alma.

Eduardo Aroso 
Junho 2017



sábado, 20 de maio de 2017

«NO PRINCÍPIO ERA A PALAVRA»

No princípio era o Arquétipo
E o Arquétipo era Deus muito acima
De perfeito ou imperfeito
De bem e de mal.
Era Deus Incriado
No paradoxo divino de criar
E recriar.
Por ele é que tudo começou
E por isso Tudo É.
Tudo começou a existir
Como uma estrela que brilha
Onde o céu era escuro,
Como os frutos infinitos
Que escorregam da árvore da vida
Dádivas de luz solar,
Ou os ventos que são a respiração de Deus,
Também os mundos moléculas de ensaios
Do Arquétipo
Que brilha sobre os tempos transitórios
Milénios que se apagam da memória sensível do Homem.
Nem a morte vence o Arquétipo Maior
Como um barco em naufrágio sempre com salvação
É que no fundo mergulho do amor
A morte grita e ao mesmo tempo tem a sua redenção.

Eduardo Aroso©
20-5-2017


segunda-feira, 1 de maio de 2017

  ESTATUTO DO ANIMAL, O AVANÇO CIVILIZACIONAL … E O NOVO DESAFIO

A partir de hoje, em Portugal, um animal, sob o ponto de vista jurídico, deixa de ser coisa, considerando-se um ser vivo e com sensibilidade.  Basta olharmos para trás, para vermos que ainda não há muito tempo os animais em geral (alguns em particular) eram submetidos a maus-tratos intencionais e, em grande escala, a esforços desmedidos ajudando o  homem, para se perceber que estamos perante um avanço civilizacional. Mais avançado será não os matarmos para comer, o que felizmente alguns já fazem. Mas numa sociedade em que tudo tende a ser COISIFICADO (onde cabe também dizer tudo a ser informatizado), a sociedade do reino das estatísticas sentadas no trono sobre o soalho raso da insensibilidade, tudo isto nos lança um novo desafio perante o estatuto do animal e perante os nossos semelhantes masi directos. Desafio não só quanto aos animais (ou os chamados «irmãos menores» no caminho evolutivo), mas nas relações fraternais com os seres humanos, há que dar uma espécie de salto qualitativo.

Ter número de identificação fiscal não pressupõe sensibilidade - ainda somos coisa. Tratar bem as árvores e plantas já é diferente, como diferente é a relação com os animais. Mas tudo isto nos leva inevitavelmente a pensar no SER HUMANO MAIS FRACO, quantas vezes FERIDO NA SUA SENSIBILIDADE e na SUA RAZÃO, e não tem quem o defenda: as custas judiciais são caras e nem todos podem nascer em “boas famílias”… e tratar da saúde, às vezes, fica caro.

A consciência do ecológico chegou quando se verificou a ameaça ao meio ambiente, tal como a consciência do que é o animal se afirma agora plenamente, pela constatação do que os animais têm sido sujeitos ao longo dos tempos. Muitas vezes se diz que há seres humanos piores do que animais, o que não é verdade, seja pela óptica do criacionismo seja pelo darwinismo, pois não podemos comparar, por exemplo, uma garrafa de vinho com um automóvel. A razão humana, não sendo comum ao animal (daí não se poder comparar) pertence à natureza do Homem que a pode utilizar para o bem ou para o mal, daí a responsabilidade do ser pensante. Vamos lá: dizer bom dia ao cão ou ao gato, fazer um mimo, é tão importante como pensar que se deve dizer bom dia ao vizinho. No que é verdadeiramente importante na vida, os actos que têm significado são insubstituíveis.

Eduardo Aroso

1-5-2017

domingo, 23 de abril de 2017

A ESPECIFICAÇÃO DAS MARGENS
"O homem e a hora são um só» (Mensagem, Fernando Pessoa)

Entre os dois lados do tempo, no cimo de um muro que separava, cresceu um cravo, para ver se chegava ainda mais alto à liberdade. Mais acima - águia silenciosa - havia um homem que olhava. Podia chamar-se Destino, Ousadia, mas o nome civil era Salgueiro Maia. Hoje há o muro em paradoxo, de outro jeito. Uns atravessam-no, mas há quem o tema como de minério fosse, quando é a própria sombra. Hoje olhamos na vertical o cravo no gume do muro. Para que lado cresce?

Eduardo Aroso

23-4-2017

sexta-feira, 14 de abril de 2017

PÁSCOA E NATUREZA 

O êxodo nestes dias de Páscoa em busca de praias ou de itinerários serranos faz-nos pensar nas raízes portuguesas do nosso peculiar paganismo. Todavia, se por um lado é um acto natural, de outro modo este ímpeto actual repousa também numa crescente atitude turística dessacralizada. Não é de todo inviável a vivência pascal no abraçar a Natureza que nos desponta e brinda, isto é, fazer dela também um altar. Não parece ser todavia esta debandada de gente, assustada com o sagrado, a busca de um Paganismo superior como queria Fernando Pessoa. O impulso é mais um sintoma que contém algo de incrustado desespero de quem já fez uma cisão com a Natureza: pelo lado de dentro, com equivocado entendimento do lado de fora.
 O penúltimo capítulo da «História Secreta de Portugal» de António Telmo mostra o cenário que se nos oferece ver. Quem se senta numa esplanada à beira-mar parece não suportar já a sonoridade das ondas, as frases melódicas das gaivotas, em suma, a voz do mar entrelaçada com o vento, coisa agora de metereologia ou algo que pode trazer algum prejuízo aqui ou acolá numa plantação, se sopra mais forte. A música, de batida insistente e em subido volume, abafando mesmo as conversas, diz que o dono daquele espaço comercial, se assim não procedesse, a esplanada teria pouca ou nenhuma gente. O dito “stress” – ou uma estranha relação com a Natureza – não se desagarra das pessoas nesta via-sacra pagã. O espanto, face ao silêncio ou ao som da terra e do mar, deu lugar ao medo do silêncio.

Eduardo Aroso

(Páscoa de 2017)  

domingo, 9 de abril de 2017

Domingo de Ramos (in ilo tempore) ©

Dias antes já era uma azáfama, um louvar a Deus de preocupações e alegrias. O corte do loureiro e enfeitá-lo não era menos preocupação para os rapazes do que o lavar das casas para as mulheres. «A limpeza Deus a armou» diziam as mais velhas, e assim teria que ser para dali a dias receber o Senhor. Escova de aço nas mãos, sabão azul e os joelhos em penitência a lavar o sobrado. Os aspiradores eram naquele tempo ficção científica.
A maior altura do loureiro que os rapazes levavam era o record a alcançar. Mas quanto mais alto, mais peso, por isso os mais velhitos tinham vantagem. À porta da igreja tinham que os baixar para entrarem convenientemente; o entusiasmo era maior do que a altura! Estava ali a representação bíblica, à maneira da aldeia, de gente simples mas autêntica. Era a nossa entrada triunfal em Jerusalém. Lá dentro, alguns loureiros roçavam o tecto da igreja perante alguma preocupação do padre que começava a celebrar a missa, não fosse a pontareca de algum ramo  bater no azeite das lamparinas. Depois a água benta chegava a todo o lado no momento próprio. Quanto às mulheres, não tinham problemas, pois os raminhos que levavam quase cabiam debaixo das mantilhas.
À saída o entusiasmo não era menor do que aquele que tinha entrado uma hora antes. É que para o Domingo de Páscoa faltava uma semana e já se pensava no junco e no rosmaninho.

Eduardo Aroso ©

Domingo de Ramos, 2017