terça-feira, 17 de outubro de 2017


ILAÇÃO SIMBÓLICA DA PERDA DO HISTÓRICO PINHAL DE LEIRIA

Os sucessivos desgovernos da nação deixaram finalmente eclodir, pela combustão, o que resta da memória mais ou menos consciente no povo, mas, em absoluto, toda ela de timbre  universal que é a essência do arquétipo do  português de Quinhentos. Como alguém disse, o que restava da «lenta decomposição da pátria» surge finalmente em labaredas de aflição que são também a consciência – existindo, gritante, ainda nalguns – do que é ou não é Portugal.
 Seria estultícia pensar que o espaço mítico glosado em «Mensagem» aludindo ao «plantador de naus», esse «rumor dos pinhais», por um capricho do destino o tempo o dispensaria, por as naus já se terem cumprido. Parece, no entanto, que a extinção agora do pinhal não vai no sentido da reposição do peculiar marulhar de ramos ondulantes ao vento, na esperança todavia de outras futuríssimas plantações. Extinto o Pinhal do Rei, essa canção da orla que ainda nos percorria a epiderme mais funda  a resguardar um viver de alma, inevitável é a interrogação presente sobre o lugar das novas plantações para as naus do futuro. Formulação na Língua ou «fala dos pinhais, marulho, obscuro» que pela intromissão grosseira do recém acordo ortográfico, dificulta cada vez mais e limita a sonora interrogação que, por certo, não desconhece a solução de continuidade natural de «Ao princípio era o Verbo».
 Nesta hora difícil em qualquer dimensão, tudo se nos pede para que se cumpra também a sentença pessoana «quem não vê bem uma palavra, não vê bem uma alma». Se a reconversão profunda só é possível por actos necessariamente radicais, não no sentido deturpado actual do termo, mas numa abordagem da raiz do problema, somos levados a indagar essa possibilidade. Na recente edição (VII) da Obras Completas de António Telmo, há um escrito inédito «Homens sem Sono» onde  o filósofo coloca a delicada questão. Fiquemos então com a sua leitura como meditação. «O problema que se põe é o de saber se, entre nós, há homens despertos activos, homens-galos, não no sentido puramente estético do termo, mas naquele que Boitaca associou aos descobridores do Caminho pelo galo que anuncia o nascer do sol no alto da coluna e que talvez explique a etimologia do nome de Portugal».

Eduardo Aroso
17-10-2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DO FOGO (ANALOGIAS)

«Eu vos baptizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu.(…)  Ele vos baptizará com o Espírito Santo e com fogo». Mateus 3,11

Sendo um dos clássicos 4 Elementos, também segundo as mais credíveis correntes esotéricas de qualquer época, é no Fogo que reside o que se pode designar por princípio espiritual. Seguindo também o axioma hermético «o que está em cima é como o que está em baixo» (em opção pessoal pela escrita «o que está em cima tem correspondência com o que está em baixo», pois a substância de mundos diferentes só pode ter equivalência/correspondência, e não igualdade), resulta claro o raciocínio de que o panorama sufocante e de morticínio que se tem abatido sobre Portugal tem uma correspondência oculta com o elemento e princípio espiritual Fogo, o mesmo é dizer que na nossa tradição espiritual portuguesa nos remete para o Espírito Santo. 
Lembrar o sinal dado pela trombeta do Quinto Anjo seria suficiente para crer que o fogo é um dos elementos da presente fase do Apocalipse, no sentido popular do termo como catástrofe e até caos, e no sentido vernáculo da palavra que, como é sabido, é o de Revelação. Seria assim como dizer que o fim de algo pressupõe o início de outra coisa. O princípio do Fogo que existe no que se designa por kundalini ou energia serpentina, é o «modus operandi» do Espírito Santo no corpo humano. Se despertado para fins egoístas ou quando se alinha com as forças do mal, pode ser perigoso para  a evolução do Homem. No plano espiritual, invocar o Paráclito (Consolador) para o que não seja verdadeiramente digno e edificante, é blasfémia. Prevaricar contra o Espírito Santo, segundo a Bíblia, acarreta o único pecado que não tem perdão, isto é, requer obrigatória expiação. Qual o significado de tudo isto no actual contexto da nação portuguesa, país territorialmente pequeno onde existem mais fogos do que em nenhum outro, terra onde há, ao que parece,  um exacerbado número de incendiários por Km2?
Representa a calamidade do fogo físico um ocultamento do que é espiritual e não se expressa, ou seja, lembrando a meia-noite que se opõe ao luminoso meio-dia? Se as labaredas são em tudo diferentes do nevoeiro, ambas representam os lados (diversos) da mesma crucificação e expiação: o perigo de extinção pela combustão e a ocultação que o manto branco impede de enxergar como verdade. Nada nos pode causar anómalo espanto do que se passa em Portugal no domínio dos incêndios, na era do reino da quantidade. Por outro lado resta-nos a esperança de que tudo isto, sejam gigantescas labaredas de uma enorme Fénix que, como diz Pessoa, prepara o despertar para «A Nova Terra e os Novos Céus».


Eduardo Aroso, 16-10-2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

AFORISMOS (45)

O BOM, o VERDADEIRO, o BELO. Prefiro este triângulo ao das Bermudas. Mais perto é o Cabo de Sagres, promontório que, no cabo dos trabalhos, dá passagem para a gávea do sonho.

Eduardo Aroso, 11-10-2017

domingo, 27 de agosto de 2017

LUTE CONTRA A ATROFIA MUSCULAR

Não deixe que os músculos da sua face se atrofiem por falta de sorrir. Até na velhice sorrir é um sintoma de certa juventude, como haver sol por trás das nuvens. Não se deixe atrofiar. Porém, não faça como aqueles idiotas que querem rir à força  nos cursos que juntam grupos de pessoas para rirem todas ao mesmo tempo, porque, talvez achem que é disparate sorrirem sozinhas!
 Mas aqui é que tudo começa. Estar perante uma flor, sorrir para ela não fica nada mal, até porque o seu sorriso pode ser o de manter a sua beleza de um modo permanente e incondicional, ao passo que o sorriso humano esvai-se e quantas vezes é pouco natural. O mesmo exercício dos músculos da face podemos fazer junto do nosso gato. Henri Bergson escreveu um livro sobre o Riso, enquanto atributo exclusivo do Homem entre os seres vivos. Mas ficamos sempre na dúvida se o riso de outros seres seguem o nosso padrão, pois que a sua morfologia e anatomia são diferentes das nossas. Sabemos que Riso e Sorriso não são a mesma coisa. Porém, aqui vamos colocá-los como irmãos.
 Sorrir para o gato pode ser um ensinamento para ele, como já ensinamos a fazer contas simples com uma máquina de calcular a um chimpanzé. Sorrir para o gato pode ser tão eficaz como passar-lhe a mão no pêlo. Quem sabe se, por enquanto não sorrindo junto aos seus bigodes, o gato não sorri por dentro? Quem pode afirmar que sim ou não? E o meu caro amigo (a) nunca sorriu por dentro?

Eduardo Aroso

27-8-2017

quarta-feira, 23 de agosto de 2017


CANTAROLARES COM SABOR AZUL de Risoleta C. Pinto Pedro

Quem começa a ler este livro, não pode deixar de ser levado pela memória até ao clássico «Nursery Rhyme». Porque é de memória que se trata quando um adulto aborda a literatura infantil, ou seja, é por esse fio que a pura poesia se encontra, já que a vivência da infância, mesmo em casos de destinos difíceis, se há uma raiz límpida, é aí que ela se encontra.
Mundo esse onde é sempre autêntico o tom das próprias palavras, que só podem surgir por um dom, que é o de saber escrever para crianças. Escrever para a idade da infância não é escrever versos e histórias em prosa utilizando a criança como «tema» - os hipermercados estão cheios disso – mas escrever PARA ELAS. Isso acontece quando ao primeiro verso ou ao primeiro parágrafo de uma história, ouvida ou lida, elas ficam num estado de encantamento que, parecendo às vezes não ouvir, gravam profundamente na memória a voz de quem conta a história ou lê o poema e se mistura com a voz dos anjos e das fadas que também podem estar por ali… A criança não é mera ouvinte; é a própria história! 
A experiência tem mostrado que a genuína literatura para crianças, de um  mesmo modo gracioso também assim é recebida pelos adultos. E compreende-se bem, pois temos aí um raro momento de descondicionamento de conceitos e preconceitos e de outras pressões culturais. O adulto acorda então a criança adormecida que há em si, um eterno menino coroado para a era do Espírito Santo, tempo da abundância do espírito agora sufocado pela hedionda senha do «time is money» que em adulto terá que percorrer. 
A sonoridade da rima da poesia para a criança é tanto o que sempre foi  e será de encanto para ela mesma quanto é o veio que atravessa a tradição popular, apetecível de escutar, seja num aforismo ou rifão, seja numa quadra ou versos em jeito de narração, como é, por exemplo, a Nau Catrineta. Assim, a rima é tão natural como o respirar ou o andar a pé em cadência binária. Sabemos que caminhar, escutando o som dos passos, é outra coisa.
Este livrinho (o diminutivo não o reduz, mas, pelo contrário, torna-o uma pérola) agrada tanto a crianças como aos seus pais e avós. Bastaria lermos o primeiro poema do livro de Risoleta C. Pinto Pedro para nos deixarmos de imediato atravessar por uma saborosa sensação. Saborosa, porque, neste como em outros poemas do livro, a poesia, para além da cadência, é táctil, tem aroma. É um fruto e um rio. O leitor verá que todos os poemas, falando também de animais e flores, são frutos suculentos, quero dizer que, sem ser necessário levar muito longe a metáfora, as palavras têm suco; e levam-nos ao suco do mistério da infância que teima em permanecer em nós, mesmo quando o fio da memória interrompido nos anos, por certo esboça um último sorriso de alma, quer o vejamos  ou não.
«Vou ao pomar
apanhar
um poema
que não trema
como gelatina;
um poema rima
nascido de semente
e regado
de fio
a  pavio
por um
amado
encharcado
líquido
rio. »
(Risoleta C. Pinto Pedro)

Eduardo Aroso, Agosto de 2017



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

DO COMPLEXO FENÓMENO DO FANATISMO – DO ORIENTE AO OCIDENTE

Radicalismo, fundamentalismo e fanatismo, podendo tocar-se, inscrevem-se em realidades com géneses diferentes, mas não constitui propósito destas palavras esmiuçar a questão, mas sim uma outra. Quanto ao título, o que de imediato nos poderá saltar à mente é se o fanatismo é apenas uma realidade que se gera no seio de certas sociedades a oriente, amiúde sob um rótulo religioso, geralmente islâmico, ou se também no ocidente a mesma compulsão ou grau emocional imbuído de questões doutrinárias, políticas e de outra natureza, também existe, embora de outra maneira. Não pode haver esquecimento para o fanatismo ocidental hitleriano que pretendia exterminar os impuros de raça. O mesmo perigo ronda hoje um presidente que por certo, não em nome de Alá mas em nome de um egoísmo pessoal ou de interesses outros, pode disparar um míssil.
Se existe esta má sementeira também a ocidente, ela é uma realidade que não pode ser iludida. É hábito dizermos que há pessoas boas e pessoas más em todo o lado. Os fanáticos podem existir em qualquer ponto do globo, certamente não sobrevivendo da mesmo maneira, porque como bem observou Edgar Morin (e cunhou o conceito) as sociedades ditas evoluídas tornaram-se «complexas», termo que, em meu entender, se deve também, ler «completas». Está claro que, se assim é, os modos como pode existir o fanatismo para os lados onde o sol se põe, é bem diferente do seu congénere a oriente, e as máscaras que toma no ocidente fazem-no logo menos perigoso, pois, quando muito, tido como ideologia ou princípios, agredindo de uma maneira mais amortecida e até adocicada…
É um facto que o chamado «Estado de Direito» e o próprio diálogo democrático, com todas as imperfeições que possa ter em alguns países, vai estabelecendo a grande diferença entre fanatismo e convicção. Do ser tribal à individuação, como Carl Jung a viu, vai uma grande distância. E é indiscutível que à Europa a partir do Renascimento se deve a consciência mais nítida do que é a individualidade, porque individualismo é sempre a baba que cai sempre de qualquer boca mais egoísta. 
O fanatismo tem-se conotado com o fenómeno religioso ainda que possa estar imbuído de alguma interferência sociopolítica, mas a mesma compulsão pode existir especificamente na política, com ou sem o nome de ideologia todavia em intransigente defesa partidária. Assim a militância, embora mais branda, é susceptível de assumir uma atitude fanática. Até na arte, que não obedecendo a normas rígidas (muito embora exista sempre um «espírito de época» e com a liberdade que acompanha o instinto criador) se pode encontrar algum fanatismo quando nega toda a estética anterior para criar uma outra de raiz. E não é menor fanatismo o que – e cada vez mais – é praticado por adeptos de futebol que não atirando nenhum carro para a multidão, podem, contudo atirar umas tochas a arder para a bancada dos adeptos da equipa adversária. Esquece-se bastante que muito embora tenha havido ao longo da História épocas de rupturas, o certo é que como dizia um velho agricultor da minha aldeia «o mundo é feito às camadas, como uma cebola».
Já foi dito há bastante tempo que muito mais difícil do que encontrar um ser verdadeiramente genial seria encontrar um ser equilibrado. E na diferença se pode ver a maior ou menor permeabilidade a essa incontrolada compulsão humana que tantos estragos faz. 
De actos mais antigos como os “zelosos” da pureza doutrinal” mas que queimavam imediatamente os que lhes pareciam fora desse estado de graça; dos que são adeptos das touradas com reprováveis agressões aos animais, aos que, ainda ao jeito mais severo da lei mosaica, quase chicoteariam, se pudessem, os que se manifestam a favor da arena, vai ainda um caminho de compreensão que obviamente tem que assentar numa pedagogia de ética da vida. Ou dos que reprovam a utilização das lãs para não molestar os animais, esquecendo-se que é um bem para o próprio animal a mansa tosquia. 
O que é estranho é que no Ocidente muitas situações de fanatismo são paradoxais, isto é, onde não era suposto haver tal desequilíbrio ele existe. Mas na génese do fanatismo parece estar a raiz de todos os males: o poder, isto é, a ânsia desesperada e errada de ter poder.

Eduardo Aroso 
18-08-2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

JOSÉ LEDESMA CRIADO (POETA)
In memoriam
Avistava-se e era certeza
- um caminhar seguro
Movido pelo exercício vespertino das gaivotas
Lá para os lados de Buarcos,
Ou pelo mistério das ondas
A espuma que ele amava como o sangue.
Via-se e era uma aura extensa
Cadência larga no andar
E um gesto como a mão grácil de criança.
Antes do encontro
O abraço já estava no coração
E num ritmo que era só dele
A respiração, toda palavra:
- Hombre, que tal?!
Eduardo Aroso
Verão 2017