quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018


OS DIAS DA TORRE ©

Lavrada ao alto a desentorpecer o mundo,
Ornada de vogais sonoras
Arcadas d’el-rei
Sonhos límpidos de outrora.
O tempo e a colina
Suportam a raiz helénica
E entre o passar das horas
Busca-se a equação certa.
Virar a página a lição presente
Entre velho e novo testamento.
Um gesto apolíneo interroga o passado.
Não se faça a mão hirta
Sobre um cânone adiado.

Eduardo Aroso©
19-1-2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018


A MÁSCARA DA TERRA ©

Não se disfarça a terra
Legítima na vida exuberante
E receptiva para nos dissolver o corpo
Na hora do acto derradeiro e amoroso.
O sorriso da terra dos primeiros rebentos
Confunde-se com a sua resistência
Clamando pequenos rios pluviosos
Escorrendo pelo tronco das árvores.
Um coro de rãs desafia
O piar lúgubre de um mocho.
Antifonal como o dia e a noite.
É de cores e sons em desfile todo o ano
Mas tem a terra uma só máscara:
A do sublime recorte da vida.

Rio de Vide, 13-2-2018
Eduardo Aroso

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

DESAGRAVO A UM POETA 

Ao contrário do que se diz,
Luis Borges não cegou.
Quando pressentiu as estranhas
Sombras da tarde nos seus olhos,
A erupção intermitente
De buracos-negros
Fantasmas luminosos da sua noite,
O poeta aleitava-se das palavras
Sabendo-as da sua alma incorruptível.
Passava-as pelas mãos
A percorrer a pele
E metabolizava-as em íntimo saber.
O poeta nunca cegou
Porque tinha a pedra de esmeril
E algodão sempre à sua beira.

Eduardo Aroso ©
Novembro,2017


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


PORTUGAL – QUE SENTIDO?

José Marinho afirmou que «em Alcácer-Quibir Portugal salta para fora do tempo». Terá esta sentença alguma relação com o nosso presente ou um não-presente? Isto é, o tempo que vivemos é medular do nosso sentido de ser Portugal, ou há um interregno histórico inapreensível ao «que mais importa»? É claro que há presente, porque é inegável que, e pese tanto cienticismo actual, para além do enigma que ainda preside ao sentido mais profundo e transcendente dos destinos humanos, há sempre história, e a de Portugal, nos dias de hoje, é o presente qual «cadáver adiado que procria». Mas assim como nas cerimónias dos cemitérios há encontros (e desencontros) imprevistos de pessoas, também estes dias de Portugal nos levam a pensar que nos desencontros se pode aprender muito, o que, para os da "pistis sophia" os leva a acreditar no outro lado da questão – os encontros.

Não me parece absurdo dizer que ainda estamos no passado, de onde nunca saímos, vivendo porventura um actual tempo não-histórico (se quisermos, pouco histórico), não sei se lucidamente, conscientemente, à procura das «Indias que não vêm nos mapas». Entretanto, os que mundanamente dirigem a Europa têm feito de nós um vale de leprosos, (embora no suor do nosso rosto), a quem se atira uma esmola de longe. De outro modo, nem a Europa nos encontra nem nós a encontramos, porque os espaços são os mesmos, mas as almas têm sintonias diferentes. Não há empréstimos nem resgates que valham a corpos mumificados da civilização. Portugal e a Grécia são os fantasmas que aterrorizam os plutocratas do velho continente, porque é sabido que das cinzas renasce a antiga ave sempre mais ágil para voos de longo alcance. Mas…«cumprir Portugal» exige, por certo, um pragmatismo inteligente, «porque o «homem e a hora são um só», sob um Ideal que congregue, ainda que possa parecer absurdo. 

Eduardo Aroso
Janeiro de 2018

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


ADVENTO ©

Sobre a pedra fria
O musgo veste o calor da ânsia.
A lenta ascensão dos poços
Espera o solstício de Inverno.
Anunciavam a noite os corvos nos pinheiros
E as pombas brancas desfaziam medos.
Tudo será banquete de luz
Na toalha de linho
Alongada a qualquer distância.
O espaço é metafísico
Onde se prepara outra incisão.
Já o tempo se dispõe
Num colo de graça
E todos os bichos se acariciam.
A fome oculta derrama-se
Às portas do coração.

Rio de Vide,
Dezembro, 2017

Eduardo Aroso © 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

    RIOS ©

    A intermitência
    Entre a agonia
    E a líquida viagem
    Espraiada de alegria.
    Vão, caídos
    Sob o chicote do tempo
    Impiedoso acto.
    Via-sacra pagã
    Onde os gritos mais dolorosos
    Vão no fundo do leito.
    Mas ninguém os quer ouvir
    Ah, o futuro não é abstracto.

    Eduardo Aroso
    14-11-2017

    quarta-feira, 1 de novembro de 2017


    CALENDÁRIO ©

    Silenciosa
    A pedra
    Toca na terra.
    Na última dissolução
    Há fortes vestígios de amor.
    Sobre o manto fugidio do tempo
    Já o chão não é o que se vê
    E reverdece a memória
    Íntima flor.

    Eduardo Aroso ©

    1 de Novembro, 2017