quinta-feira, 8 de março de 2018


DA ESCRITA DE  RISOLETA C. PINTO PEDRO SOBRE ANTÓNIO TELMO

Há quem leia nas mãos, outros nos olhos, e há muito menos gente a ler o Portugal oculto, muito embora, em alguns contornos, seja visível em pormenores monumentais, na pintura, no pensamento português e na literatura. Risoleta C. Pinto Pedro deu à estampa a sua mais recente obra «António Telmo, Literatura Ɛ Iniciação», que nos chega como um ânimo atento e consciente da leitura de um dos maiores pensadores portugueses do século XX, árduo labor a que poucos se lançam, ou não fosse este um Getsmani perante o “literariamente correcto”! Aventura difícil que só a alma pode ter como regozijo compensador para quem percorre a verdadeira Tradição, quantas vezes labiríntica, mas que, apesar disso, é a única prova real de que há labirinto, enigma que não se pode anular, mas resolver-se (Pessoa diria «cumprir-se») pela única entrada e saída.
Não seria atrevimento, sobretudo pelos últimos escritos de Risoleta, dizer que esta também persiste em não quebrar o subtil fio de Ariadne, na esteira da via sibilina e serviçal que, por exemplo, uma Dalila Pereira da Costa também percorreu, por certo em tempos e contextos de vida diferentes, mas sempre no único e mor contexto que designa de Portugal, e para alguns de Porto Graal.
O facto da capa de «António Telmo, Literatura Ɛ Iniciação» constar de uma foto, onde vemos o olhar perscrutador de António Telmo, qual radiografia pensante sobre a pedra do Mosteiro dos Jerónimos, sendo um pormenor da obra em causa é contudo algo que não está alheio ao conteúdo do livro. Da sua leitura, ficamos com a serena convicção da autora desta obra nos poder esclarecer - melhor dizendo, aproximar - o leitor do legado de António Telmo. Como se apresentasse, face a face, o leitor ao filósofo e disso resultasse uma atmosfera mais propícia e apetecível para percorrer a sua obra, começando logo pela linguagem cristalina, muito própria de Risoleta. Esta não cai na tentação do que muitas vezes acontece: pretender dizer o que o autor estudado nunca diria, e nós vemos que os corredores académicos estão cheios disso. O que a autora, serenamente, vai operando em cada página, é trazer o que porventura escape ao leitor numa leitura que não capte com mais facilidade todo o manancial télmico. Uma coisa é certa: Risoleta C. Pinto Pedro move-se (e move-nos), não enjeitando a mesma atmosfera anímico-espiritual e na linha fulcral de pensamento do autor de «História Secreta de Portugal». A afeição a essa atmosfera é como um horizonte para além do qual se adivinha não uma mas várias Índias ou a caverna da palavra que ainda nos pode devolver o «pensamento que pensa», o mesmo é dizer para nós que acreditamos que há ainda uma casa ou pátria física e/ou anímica onde se repousa e ganha força para a batalha da vida.
Quanto a essa atmosfera onde Risoleta C. Pinto Pedro se move (e nos move), aí reside o essencial, mas convém dizer que estar no tom, como bem sabem os músicos, não é necessariamente repetir as mesmas frases musicais nota a nota, pois que por variante se pode entender continuar na mesma tonalidade. E se modulação houver, trata-se de dar continuidade ao que não tem deve ter cisão.

Eduardo Aroso
8-3-2018

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018


OS DIAS DA TORRE ©

Lavrada ao alto a desentorpecer o mundo,
Ornada de vogais sonoras
Arcadas d’el-rei
Sonhos límpidos de outrora.
O tempo e a colina
Suportam a raiz helénica
E entre o passar das horas
Busca-se a equação certa.
Virar a página a lição presente
Entre velho e novo testamento.
Um gesto apolíneo interroga o passado.
Não se faça a mão hirta
Sobre um cânone adiado.

Eduardo Aroso©
19-1-2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018


A MÁSCARA DA TERRA ©

Não se disfarça a terra
Legítima na vida exuberante
E receptiva para nos dissolver o corpo
Na hora do acto derradeiro e amoroso.
O sorriso da terra dos primeiros rebentos
Confunde-se com a sua resistência
Clamando pequenos rios pluviosos
Escorrendo pelo tronco das árvores.
Um coro de rãs desafia
O piar lúgubre de um mocho.
Antifonal como o dia e a noite.
É de cores e sons em desfile todo o ano
Mas tem a terra uma só máscara:
A do sublime recorte da vida.

Rio de Vide, 13-2-2018
Eduardo Aroso

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

DESAGRAVO A UM POETA 

Ao contrário do que se diz,
Luis Borges não cegou.
Quando pressentiu as estranhas
Sombras da tarde nos seus olhos,
A erupção intermitente
De buracos-negros
Fantasmas luminosos da sua noite,
O poeta aleitava-se das palavras
Sabendo-as da sua alma incorruptível.
Passava-as pelas mãos
A percorrer a pele
E metabolizava-as em íntimo saber.
O poeta nunca cegou
Porque tinha a pedra de esmeril
E algodão sempre à sua beira.

Eduardo Aroso ©
Novembro,2017


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


PORTUGAL – QUE SENTIDO?

José Marinho afirmou que «em Alcácer-Quibir Portugal salta para fora do tempo». Terá esta sentença alguma relação com o nosso presente ou um não-presente? Isto é, o tempo que vivemos é medular do nosso sentido de ser Portugal, ou há um interregno histórico inapreensível ao «que mais importa»? É claro que há presente, porque é inegável que, e pese tanto cienticismo actual, para além do enigma que ainda preside ao sentido mais profundo e transcendente dos destinos humanos, há sempre história, e a de Portugal, nos dias de hoje, é o presente qual «cadáver adiado que procria». Mas assim como nas cerimónias dos cemitérios há encontros (e desencontros) imprevistos de pessoas, também estes dias de Portugal nos levam a pensar que nos desencontros se pode aprender muito, o que, para os da "pistis sophia" os leva a acreditar no outro lado da questão – os encontros.

Não me parece absurdo dizer que ainda estamos no passado, de onde nunca saímos, vivendo porventura um actual tempo não-histórico (se quisermos, pouco histórico), não sei se lucidamente, conscientemente, à procura das «Indias que não vêm nos mapas». Entretanto, os que mundanamente dirigem a Europa têm feito de nós um vale de leprosos, (embora no suor do nosso rosto), a quem se atira uma esmola de longe. De outro modo, nem a Europa nos encontra nem nós a encontramos, porque os espaços são os mesmos, mas as almas têm sintonias diferentes. Não há empréstimos nem resgates que valham a corpos mumificados da civilização. Portugal e a Grécia são os fantasmas que aterrorizam os plutocratas do velho continente, porque é sabido que das cinzas renasce a antiga ave sempre mais ágil para voos de longo alcance. Mas…«cumprir Portugal» exige, por certo, um pragmatismo inteligente, «porque o «homem e a hora são um só», sob um Ideal que congregue, ainda que possa parecer absurdo. 

Eduardo Aroso
Janeiro de 2018

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


ADVENTO ©

Sobre a pedra fria
O musgo veste o calor da ânsia.
A lenta ascensão dos poços
Espera o solstício de Inverno.
Anunciavam a noite os corvos nos pinheiros
E as pombas brancas desfaziam medos.
Tudo será banquete de luz
Na toalha de linho
Alongada a qualquer distância.
O espaço é metafísico
Onde se prepara outra incisão.
Já o tempo se dispõe
Num colo de graça
E todos os bichos se acariciam.
A fome oculta derrama-se
Às portas do coração.

Rio de Vide,
Dezembro, 2017

Eduardo Aroso © 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

    RIOS ©

    A intermitência
    Entre a agonia
    E a líquida viagem
    Espraiada de alegria.
    Vão, caídos
    Sob o chicote do tempo
    Impiedoso acto.
    Via-sacra pagã
    Onde os gritos mais dolorosos
    Vão no fundo do leito.
    Mas ninguém os quer ouvir
    Ah, o futuro não é abstracto.

    Eduardo Aroso
    14-11-2017

    quarta-feira, 1 de novembro de 2017


    CALENDÁRIO ©

    Silenciosa
    A pedra
    Toca na terra.
    Na última dissolução
    Há fortes vestígios de amor.
    Sobre o manto fugidio do tempo
    Já o chão não é o que se vê
    E reverdece a memória
    Íntima flor.

    Eduardo Aroso ©

    1 de Novembro, 2017

    terça-feira, 17 de outubro de 2017


    ILAÇÃO SIMBÓLICA DA PERDA DO HISTÓRICO PINHAL DE LEIRIA

    Os sucessivos desgovernos da nação deixaram finalmente eclodir, pela combustão, o que resta da memória mais ou menos consciente no povo, mas, em absoluto, toda ela de timbre  universal que é a essência do arquétipo do  português de Quinhentos. Como alguém disse, o que restava da «lenta decomposição da pátria» surge finalmente em labaredas de aflição que são também a consciência – existindo, gritante, ainda nalguns – do que é ou não é Portugal.
     Seria estultícia pensar que o espaço mítico glosado em «Mensagem» aludindo ao «plantador de naus», esse «rumor dos pinhais», por um capricho do destino o tempo o dispensaria, por as naus já se terem cumprido. Parece, no entanto, que a extinção agora do pinhal não vai no sentido da reposição do peculiar marulhar de ramos ondulantes ao vento, na esperança todavia de outras futuríssimas plantações. Extinto o Pinhal do Rei, essa canção da orla que ainda nos percorria a epiderme mais funda  a resguardar um viver de alma, inevitável é a interrogação presente sobre o lugar das novas plantações para as naus do futuro. Formulação na Língua ou «fala dos pinhais, marulho, obscuro» que pela intromissão grosseira do recém acordo ortográfico, dificulta cada vez mais e limita a sonora interrogação que, por certo, não desconhece a solução de continuidade natural de «Ao princípio era o Verbo».
     Nesta hora difícil em qualquer dimensão, tudo se nos pede para que se cumpra também a sentença pessoana «quem não vê bem uma palavra, não vê bem uma alma». Se a reconversão profunda só é possível por actos necessariamente radicais, não no sentido deturpado actual do termo, mas numa abordagem da raiz do problema, somos levados a indagar essa possibilidade. Na recente edição (VII) da Obras Completas de António Telmo, há um escrito inédito «Homens sem Sono» onde  o filósofo coloca a delicada questão. Fiquemos então com a sua leitura como meditação. «O problema que se põe é o de saber se, entre nós, há homens despertos activos, homens-galos, não no sentido puramente estético do termo, mas naquele que Boitaca associou aos descobridores do Caminho pelo galo que anuncia o nascer do sol no alto da coluna e que talvez explique a etimologia do nome de Portugal».

    Eduardo Aroso
    17-10-2017

    segunda-feira, 16 de outubro de 2017

    DO FOGO (ANALOGIAS)

    «Eu vos baptizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu.(…)  Ele vos baptizará com o Espírito Santo e com fogo». Mateus 3,11

    Sendo um dos clássicos 4 Elementos, também segundo as mais credíveis correntes esotéricas de qualquer época, é no Fogo que reside o que se pode designar por princípio espiritual. Seguindo também o axioma hermético «o que está em cima é como o que está em baixo» (em opção pessoal pela escrita «o que está em cima tem correspondência com o que está em baixo», pois a substância de mundos diferentes só pode ter equivalência/correspondência, e não igualdade), resulta claro o raciocínio de que o panorama sufocante e de morticínio que se tem abatido sobre Portugal tem uma correspondência oculta com o elemento e princípio espiritual Fogo, o mesmo é dizer que na nossa tradição espiritual portuguesa nos remete para o Espírito Santo. 
    Lembrar o sinal dado pela trombeta do Quinto Anjo seria suficiente para crer que o fogo é um dos elementos da presente fase do Apocalipse, no sentido popular do termo como catástrofe e até caos, e no sentido vernáculo da palavra que, como é sabido, é o de Revelação. Seria assim como dizer que o fim de algo pressupõe o início de outra coisa. O princípio do Fogo que existe no que se designa por kundalini ou energia serpentina, é o «modus operandi» do Espírito Santo no corpo humano. Se despertado para fins egoístas ou quando se alinha com as forças do mal, pode ser perigoso para  a evolução do Homem. No plano espiritual, invocar o Paráclito (Consolador) para o que não seja verdadeiramente digno e edificante, é blasfémia. Prevaricar contra o Espírito Santo, segundo a Bíblia, acarreta o único pecado que não tem perdão, isto é, requer obrigatória expiação. Qual o significado de tudo isto no actual contexto da nação portuguesa, país territorialmente pequeno onde existem mais fogos do que em nenhum outro, terra onde há, ao que parece,  um exacerbado número de incendiários por Km2?
    Representa a calamidade do fogo físico um ocultamento do que é espiritual e não se expressa, ou seja, lembrando a meia-noite que se opõe ao luminoso meio-dia? Se as labaredas são em tudo diferentes do nevoeiro, ambas representam os lados (diversos) da mesma crucificação e expiação: o perigo de extinção pela combustão e a ocultação que o manto branco impede de enxergar como verdade. Nada nos pode causar anómalo espanto do que se passa em Portugal no domínio dos incêndios, na era do reino da quantidade. Por outro lado resta-nos a esperança de que tudo isto, sejam gigantescas labaredas de uma enorme Fénix que, como diz Pessoa, prepara o despertar para «A Nova Terra e os Novos Céus».


    Eduardo Aroso, 16-10-2017

    quarta-feira, 11 de outubro de 2017

    AFORISMOS (45)

    O BOM, o VERDADEIRO, o BELO. Prefiro este triângulo ao das Bermudas. Mais perto é o Cabo de Sagres, promontório que, no cabo dos trabalhos, dá passagem para a gávea do sonho.

    Eduardo Aroso, 11-10-2017

    domingo, 27 de agosto de 2017

    LUTE CONTRA A ATROFIA MUSCULAR

    Não deixe que os músculos da sua face se atrofiem por falta de sorrir. Até na velhice sorrir é um sintoma de certa juventude, como haver sol por trás das nuvens. Não se deixe atrofiar. Porém, não faça como aqueles idiotas que querem rir à força  nos cursos que juntam grupos de pessoas para rirem todas ao mesmo tempo, porque, talvez achem que é disparate sorrirem sozinhas!
     Mas aqui é que tudo começa. Estar perante uma flor, sorrir para ela não fica nada mal, até porque o seu sorriso pode ser o de manter a sua beleza de um modo permanente e incondicional, ao passo que o sorriso humano esvai-se e quantas vezes é pouco natural. O mesmo exercício dos músculos da face podemos fazer junto do nosso gato. Henri Bergson escreveu um livro sobre o Riso, enquanto atributo exclusivo do Homem entre os seres vivos. Mas ficamos sempre na dúvida se o riso de outros seres seguem o nosso padrão, pois que a sua morfologia e anatomia são diferentes das nossas. Sabemos que Riso e Sorriso não são a mesma coisa. Porém, aqui vamos colocá-los como irmãos.
     Sorrir para o gato pode ser um ensinamento para ele, como já ensinamos a fazer contas simples com uma máquina de calcular a um chimpanzé. Sorrir para o gato pode ser tão eficaz como passar-lhe a mão no pêlo. Quem sabe se, por enquanto não sorrindo junto aos seus bigodes, o gato não sorri por dentro? Quem pode afirmar que sim ou não? E o meu caro amigo (a) nunca sorriu por dentro?

    Eduardo Aroso

    27-8-2017

    quarta-feira, 23 de agosto de 2017


    CANTAROLARES COM SABOR AZUL de Risoleta C. Pinto Pedro

    Quem começa a ler este livro, não pode deixar de ser levado pela memória até ao clássico «Nursery Rhyme». Porque é de memória que se trata quando um adulto aborda a literatura infantil, ou seja, é por esse fio que a pura poesia se encontra, já que a vivência da infância, mesmo em casos de destinos difíceis, se há uma raiz límpida, é aí que ela se encontra.
    Mundo esse onde é sempre autêntico o tom das próprias palavras, que só podem surgir por um dom, que é o de saber escrever para crianças. Escrever para a idade da infância não é escrever versos e histórias em prosa utilizando a criança como «tema» - os hipermercados estão cheios disso – mas escrever PARA ELAS. Isso acontece quando ao primeiro verso ou ao primeiro parágrafo de uma história, ouvida ou lida, elas ficam num estado de encantamento que, parecendo às vezes não ouvir, gravam profundamente na memória a voz de quem conta a história ou lê o poema e se mistura com a voz dos anjos e das fadas que também podem estar por ali… A criança não é mera ouvinte; é a própria história! 
    A experiência tem mostrado que a genuína literatura para crianças, de um  mesmo modo gracioso também assim é recebida pelos adultos. E compreende-se bem, pois temos aí um raro momento de descondicionamento de conceitos e preconceitos e de outras pressões culturais. O adulto acorda então a criança adormecida que há em si, um eterno menino coroado para a era do Espírito Santo, tempo da abundância do espírito agora sufocado pela hedionda senha do «time is money» que em adulto terá que percorrer. 
    A sonoridade da rima da poesia para a criança é tanto o que sempre foi  e será de encanto para ela mesma quanto é o veio que atravessa a tradição popular, apetecível de escutar, seja num aforismo ou rifão, seja numa quadra ou versos em jeito de narração, como é, por exemplo, a Nau Catrineta. Assim, a rima é tão natural como o respirar ou o andar a pé em cadência binária. Sabemos que caminhar, escutando o som dos passos, é outra coisa.
    Este livrinho (o diminutivo não o reduz, mas, pelo contrário, torna-o uma pérola) agrada tanto a crianças como aos seus pais e avós. Bastaria lermos o primeiro poema do livro de Risoleta C. Pinto Pedro para nos deixarmos de imediato atravessar por uma saborosa sensação. Saborosa, porque, neste como em outros poemas do livro, a poesia, para além da cadência, é táctil, tem aroma. É um fruto e um rio. O leitor verá que todos os poemas, falando também de animais e flores, são frutos suculentos, quero dizer que, sem ser necessário levar muito longe a metáfora, as palavras têm suco; e levam-nos ao suco do mistério da infância que teima em permanecer em nós, mesmo quando o fio da memória interrompido nos anos, por certo esboça um último sorriso de alma, quer o vejamos  ou não.
    «Vou ao pomar
    apanhar
    um poema
    que não trema
    como gelatina;
    um poema rima
    nascido de semente
    e regado
    de fio
    a  pavio
    por um
    amado
    encharcado
    líquido
    rio. »
    (Risoleta C. Pinto Pedro)

    Eduardo Aroso, Agosto de 2017



    sexta-feira, 18 de agosto de 2017

    DO COMPLEXO FENÓMENO DO FANATISMO – DO ORIENTE AO OCIDENTE

    Radicalismo, fundamentalismo e fanatismo, podendo tocar-se, inscrevem-se em realidades com géneses diferentes, mas não constitui propósito destas palavras esmiuçar a questão, mas sim uma outra. Quanto ao título, o que de imediato nos poderá saltar à mente é se o fanatismo é apenas uma realidade que se gera no seio de certas sociedades a oriente, amiúde sob um rótulo religioso, geralmente islâmico, ou se também no ocidente a mesma compulsão ou grau emocional imbuído de questões doutrinárias, políticas e de outra natureza, também existe, embora de outra maneira. Não pode haver esquecimento para o fanatismo ocidental hitleriano que pretendia exterminar os impuros de raça. O mesmo perigo ronda hoje um presidente que por certo, não em nome de Alá mas em nome de um egoísmo pessoal ou de interesses outros, pode disparar um míssil.
    Se existe esta má sementeira também a ocidente, ela é uma realidade que não pode ser iludida. É hábito dizermos que há pessoas boas e pessoas más em todo o lado. Os fanáticos podem existir em qualquer ponto do globo, certamente não sobrevivendo da mesmo maneira, porque como bem observou Edgar Morin (e cunhou o conceito) as sociedades ditas evoluídas tornaram-se «complexas», termo que, em meu entender, se deve também, ler «completas». Está claro que, se assim é, os modos como pode existir o fanatismo para os lados onde o sol se põe, é bem diferente do seu congénere a oriente, e as máscaras que toma no ocidente fazem-no logo menos perigoso, pois, quando muito, tido como ideologia ou princípios, agredindo de uma maneira mais amortecida e até adocicada…
    É um facto que o chamado «Estado de Direito» e o próprio diálogo democrático, com todas as imperfeições que possa ter em alguns países, vai estabelecendo a grande diferença entre fanatismo e convicção. Do ser tribal à individuação, como Carl Jung a viu, vai uma grande distância. E é indiscutível que à Europa a partir do Renascimento se deve a consciência mais nítida do que é a individualidade, porque individualismo é sempre a baba que cai sempre de qualquer boca mais egoísta. 
    O fanatismo tem-se conotado com o fenómeno religioso ainda que possa estar imbuído de alguma interferência sociopolítica, mas a mesma compulsão pode existir especificamente na política, com ou sem o nome de ideologia todavia em intransigente defesa partidária. Assim a militância, embora mais branda, é susceptível de assumir uma atitude fanática. Até na arte, que não obedecendo a normas rígidas (muito embora exista sempre um «espírito de época» e com a liberdade que acompanha o instinto criador) se pode encontrar algum fanatismo quando nega toda a estética anterior para criar uma outra de raiz. E não é menor fanatismo o que – e cada vez mais – é praticado por adeptos de futebol que não atirando nenhum carro para a multidão, podem, contudo atirar umas tochas a arder para a bancada dos adeptos da equipa adversária. Esquece-se bastante que muito embora tenha havido ao longo da História épocas de rupturas, o certo é que como dizia um velho agricultor da minha aldeia «o mundo é feito às camadas, como uma cebola».
    Já foi dito há bastante tempo que muito mais difícil do que encontrar um ser verdadeiramente genial seria encontrar um ser equilibrado. E na diferença se pode ver a maior ou menor permeabilidade a essa incontrolada compulsão humana que tantos estragos faz. 
    De actos mais antigos como os “zelosos” da pureza doutrinal” mas que queimavam imediatamente os que lhes pareciam fora desse estado de graça; dos que são adeptos das touradas com reprováveis agressões aos animais, aos que, ainda ao jeito mais severo da lei mosaica, quase chicoteariam, se pudessem, os que se manifestam a favor da arena, vai ainda um caminho de compreensão que obviamente tem que assentar numa pedagogia de ética da vida. Ou dos que reprovam a utilização das lãs para não molestar os animais, esquecendo-se que é um bem para o próprio animal a mansa tosquia. 
    O que é estranho é que no Ocidente muitas situações de fanatismo são paradoxais, isto é, onde não era suposto haver tal desequilíbrio ele existe. Mas na génese do fanatismo parece estar a raiz de todos os males: o poder, isto é, a ânsia desesperada e errada de ter poder.

    Eduardo Aroso 
    18-08-2017

    terça-feira, 15 de agosto de 2017

    JOSÉ LEDESMA CRIADO (POETA)
    In memoriam
    Avistava-se e era certeza
    - um caminhar seguro
    Movido pelo exercício vespertino das gaivotas
    Lá para os lados de Buarcos,
    Ou pelo mistério das ondas
    A espuma que ele amava como o sangue.
    Via-se e era uma aura extensa
    Cadência larga no andar
    E um gesto como a mão grácil de criança.
    Antes do encontro
    O abraço já estava no coração
    E num ritmo que era só dele
    A respiração, toda palavra:
    - Hombre, que tal?!
    Eduardo Aroso
    Verão 2017

    sábado, 29 de julho de 2017

    MULHERES DE RIO DE VIDE ©


    Elas tinham o dom de espremer a vida
    Que a muitas só chegava gota a gota.
    O sol era alto e forte
    A broa um milagre diário
    Do resto a fartura pouca.
    Só nas manhãs de Maio
    Havia perfume nos seus cabelos
    Quando vinha a aragem sobre eles
    Junta com o cantar do gaio.
    As horas, fundas
    Tal era a enxada na terra.
    Dava-se conta delas
    Pelo sino
    Ou pela ovelha que dava sinal.
    Levavam os filhos
    Que ficavam sobre o avental
    A alegria por cima
    E a tristeza por baixo.

    Essas mulheres são hoje invisíveis,
    Sombras quietas de memória.
    Ninguém as apaga.
    Ninguém as derruba.
    Mais firmes que as colunas de Hércules!

    20-7-2017
    Eduardo Aroso


    terça-feira, 11 de julho de 2017


    ÉPICA ÚLTIMA©

    Agora os anciãos longe dos sinais de trânsito
    Já não pedem à beira das estradas
    Nem vão para as tabernas recolhidas nos museus.
    Jogar às cartas é uma fase intermédia
    E dar de comer às pombas no jardim.
    O tempo de pedir esmolas
    Passaram-no aos mais novos
    Os que há e, quem sabe, os que virão…
    O ímpeto para a sobrevivência
    Está em aceitar o que lhes dão.
    Vivem alheios e sem subsídios
    Para a guerra que se trava dentro deles
    A das sinapses no instinto de defesa
    Sem palavras de carinho que as liguem.
    Por fora a liça é visível
    Sem cremes de remedeio:
    Ficaram rugosos todos os mapas-do-mundo
    A vida some-se para ficar incrustada noutro lado.
    Oh, milagre derradeiro! Raramente cai no chão
    Ali aos pés uma estrela vinda do espaço longínquo
    Lá onde talvez se entenda melhor o que é a vida.
    Quando isso acontece os anciãos iluminam-se
    Como a frágil esperança dos tratados de paz.
    E até na rugosidade da pele se percebe
    Uma serena e iluminada explosão
    De uma espécie de Big-Bang que logo se desfaz.

    Eduardo Aroso©
    11-7-2017


    segunda-feira, 3 de julho de 2017


    O FACEBOOK COMO CONFESSIONÁRIO

    Nietzsche observou, no seu tempo, que o jornal diário tinha vindo substituir o hábito para muitos da missa matinal. Ainda que o papel impresso para notícias do quotidiano continue a existir, mais de um século depois, as gerações novas rapidamente o têm substituído pelo tablet ou pelo telemóvel numa mão enquanto a outra se ocupa de uma bica e de uma nata. Num lapso de tempo, o mural de muitos utilizadores tornou-se numa espécie de confessionário. Um estranho lugar onde, entre outras coisas do expediente, se lançam mágoas mais ou menos dissimuladas. Mas também atitudes tipicamente neomedievais de trazer pessoas ao pelourinho para lhes aplicar a malhação, como aliás acontece por outras vias. Falamos de um espaço livre, onde cada um coloca (à excepção de alguns interesses de publicidade comercial) assuntos do seu gosto, e que por isso revela a natureza do seu utilizador. Como disse um sábio «se queres conhecer uma pessoa, observa o que ela faz depois de cumpridas as suas obrigações a que não pode fugir». 
    Descontada a alínea barata da fofoquice, é no espaço de hodierno confessionário que o fb apresenta uma das suas características mais interessantes, digna da atenção da psicanálise ou outra área de estudo de observação. No confessionário digital, é certo que o assunto passa a ser público, mais ou menos dissimulado, mas onde se descortina a necessidade de confessar as tensões e problemas pessoais, quantas vezes por causa de cicrano ou beltrano. Nesse novo espaço onde se julga aliviar a alma (podendo mesmo aliviar), a moral é simples: todos os pecados são perdoados desde que se fale verdade, ou pelo menos se faça por isso. Não propagar a mentira já é muito bom. Viva o facebook!


    Eduardo Aroso

    domingo, 25 de junho de 2017

    BILHETE PARA A POSTERIDADE©

    Aqui viveram pessoas
    Longe da maresia dos subsídios
    Que atracam no Terreiro do Paço.
    Comiam sempre
    Do que a outros resta…
    Morreram na esperança
    Do tal ordenamento
    Como justiça dos homens
    E do acto divino,
    Ressurreição final
    Da floresta.

    25-6-2017
    Eduardo Aroso


    terça-feira, 13 de junho de 2017

    FERNANDO (ULTRA) PESSOA

    Cada um puxa e repuxa
    Conforme é capaz.
    No jogo das cordas
    Surge sempre
    Um académico
    Capataz
    Que dá a ordem:
    - Todos numa!
    (Isso é sistémico…)

    O poeta (se assiste)
    Desfaz-se de mágoa,
    Na tola justificação
    Do vinho no balcão
    E que persiste
    De ter mais uva ou mais água.
    Mas puxando
    Assim ou assado,
    Com força ou com calma,
    Ninguém lhe desfaz o génio
    Nem toca na alma.

    Eduardo Aroso 
    Junho 2017