sábado, 28 de julho de 2018


 A TRANSDISCIPLINARIDADE E A FALTA DE VENTILAÇÃO ACADÉMICA


O pensamento sistémico, «tentativa de ordenamento da complexidade» (B. Nicolescu), também ele no seio da física quântica, só é possível por uma espécie de salto qualitativo do conhecimento (ou um outro conhecimento) também designado por Transdisciplinaridade, ignorado por uns tantos e combatido por outros, como convém ao “status quo” arreigado ainda nos muros da reforma pombalina que, diga-se, no seu tempo e ainda posteriormente, foi muito mais do que reformadora. Alguns recentes acontecimentos arrivistas sobre a História de Portugal, à volta do Museu dos Descobrimentos ou da figura do Pe António Vieira, fazem pensar no que pouco se tem notado: da nossa excepcional posição de nação de, mesmo perante pressões várias e o panorama mundial que nos entra diariamente olhos dentro, poder afirmar e mostrar a nossa Condição e Destino (José Marinho). Afirmar, porque mostrar deve pressupor afirmação convincente. Enquanto fundamento cultural estruturante, a possibilidade do pensamento sistémico português, encontra hoje mais condições para tal – ou não tivesse A. Toynbee dado um bom contributo ainda que sintético – tomando o conhecimento da História Universal. Comparar, medir, avaliar, sempre foi a atitude do ser humano na sua relatividade de fazer juízos e teses.
 O traço singular do nosso Povo (grafo com maiúscula para distinguir de votantes!), que alguns tentam rebaixar ou ver de um modo difuso, Francisco da Cunha Leão na sua obra chamou-lhe «O Enigma Português» e Álvaro Ribeiro o explicitou admiravelmente em «A Razão Animada». Ao contrário do que possa parecer, temos hoje um palco bem mais amplo para desfazer equívocos de “actores” que entram em cena, não sabendo qual o papel que estão a representar, mesmo que tragam o guião de cor! Esse caminho de desfazer equívocos já foi aberto há muito por figuras várias que hoje, que ao invés de uma devida atitude hermenêutica, como cabe ao saber de nível superior, são completamente ignorados; um atitude que se inscreve aliás num pérfido e mais alargado contexto, como se nota nos alinhamentos ditos informativos (!) e programas culturais, tidos como prioritários sem qualquer fundamento prioritário.
O 1º Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (desconheço se outro aconteceu) teve lugar em Novembro de 1994, em Portugal (Arrábida), presidido por figuras como Edgar Morin, Lima de Freitas e Basarab Nicolescu. Dele saiu o Manifesto da Transdisciplinaridade, o qual, ao contrário do alcance que teve por exemplo a afirmação heliocêntrica de Copérnico e Galileu, não tem movido consciências e docências entre nós. No entanto… ela (Transdisciplinaridade) move-se… creio que, mais ou menos solitariamente, pelo menos no CTEC da Universidade Fernando Pessoa. Falta povoar a nação de gente, como queria o tal rei português. Mas hoje também há falta de povoar certas ideias e ideais. A clássica tríade hegeliana (tese, antítese e síntese) se aplicada ao mundo actual, já não pode resolver-se pela síntese, se esta não for colocada no nível transdisciplinar, saindo do mesmo plano horizontal para se colocar (iniciar)  acima, dado que uma síntese pode ser começo de outra tese. Neste pouco oxigenado estado de coisas, por que razão é que nos corredores académicos e outros não há ventilação do pensamento sistémico e transdisciplinar, não o tomando por interdisciplinaridade e pluridisciplinaridade? Já não é possível fugir «ao dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade». Quando Almeida Garrett disse «das academias, livrai-nos Senhor!», por certo que não o fez ignorando o analfabetismo primário do seu tempo e que urgia dissipar, mas do que infelizmente ainda hoje existe no panorama do presente de costela jesuítica por um lado e marxista por outro.

Eduardo Aroso
27-7-2018       



terça-feira, 3 de julho de 2018


O OUTRO NOME DA ROSA©

Da raiz às pétalas
Correm todas as seivas possíveis
Sopradas do rio suave e maternal.
E da calçada em plano inclinado
Para muitos é difícil segurar
O equilíbrio das litanias
Entre o sentir e a razão.
Há quem diga que os corações
E os passos nos compassos
Fazem estremecer o tempo…
Ninguém apaga o fogo da memória
Mesmo sobre as águas do Mondego.

Eduardo Aroso
Coimbra, 2-7-2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018


POEMA DE INFÂNCIA ©

Nos meus olhos era o começo do mundo
O redondo e de ângulos irregulares da vida.
Eu via as mulheres cariátides tisnadas
Sob a pesada arquitectura do destino.
Não sabia o que isso era
Mas contava as horas
Num ábaco que a terra dá.
A cesta pesando sobre a cabeça
Coroação que os pássaros celebravam.
Só se pode fugir para a vida
Onde a esperança acaba e recomeça.

Eduardo Aroso
Junho 2018

terça-feira, 1 de maio de 2018


MAIO

A terra verte.
De camadas e dobras
Largam flores como navios.
No afinco do rosto
E nos calos da mão
É que nascem rios de perfume.

Eduardo Aroso©
1-5-2018

quarta-feira, 21 de março de 2018



LADAINHA

Por todos os equinócios
Das erupções incógnitas.
Pelos mortos que ainda vivem
E pelos vivos que vão nascer um dia.
Oremos.

Por alguns poetas aprisionados
Sem culpa formada.
Pelo fluir apetecido de uma melodia
Como deslizamento brando de terras.
Oremos.

Pela pátria com doença prolongada
E os restos mortais de Camões
Guardados como primícias a nascer.
Oremos.

Pelas almas sem abrigo nem apólice
Órfãs de orações à porta dos bancos,
Que já se alienaram do próprio corpo.
E pela ressurreição de cada ave
Que caída no chão se levanta
Para olhar de cima
O chão incerto dos planeamentos.
Oremos.

Pela compreensão do sorriso das crianças
E a sabedoria dos anciãos nos seus lamentos.
Oremos.
Oremos.
Oremos.

Equinócio da Primavera, 2018
Eduardo Aroso©


terça-feira, 20 de março de 2018


LITANIA DE SEMPRE

A terra cuida de mim.
Invariavelmente.
Um grito lavra o primeiro dia
E há a brisa quase nada
Que se extingue na impossibilidade
Do prolongamento da tarde.
A terra cuida de mim.
Antes e no fim.

Eduardo Aroso
17-3-2018

quinta-feira, 8 de março de 2018


DA ESCRITA DE  RISOLETA C. PINTO PEDRO SOBRE ANTÓNIO TELMO

Há quem leia nas mãos, outros nos olhos, e há muito menos gente a ler o Portugal oculto, muito embora, em alguns contornos, seja visível em pormenores monumentais, na pintura, no pensamento português e na literatura. Risoleta C. Pinto Pedro deu à estampa a sua mais recente obra «António Telmo, Literatura Ɛ Iniciação», que nos chega como um ânimo atento e consciente da leitura de um dos maiores pensadores portugueses do século XX, árduo labor a que poucos se lançam, ou não fosse este um Getsmani perante o “literariamente correcto”! Aventura difícil que só a alma pode ter como regozijo compensador para quem percorre a verdadeira Tradição, quantas vezes labiríntica, mas que, apesar disso, é a única prova real de que há labirinto, enigma que não se pode anular, mas resolver-se (Pessoa diria «cumprir-se») pela única entrada e saída.
Não seria atrevimento, sobretudo pelos últimos escritos de Risoleta, dizer que esta também persiste em não quebrar o subtil fio de Ariadne, na esteira da via sibilina e serviçal que, por exemplo, uma Dalila Pereira da Costa também percorreu, por certo em tempos e contextos de vida diferentes, mas sempre no único e mor contexto que designa de Portugal, e para alguns de Porto Graal.
O facto da capa de «António Telmo, Literatura Ɛ Iniciação» constar de uma foto, onde vemos o olhar perscrutador de António Telmo, qual radiografia pensante sobre a pedra do Mosteiro dos Jerónimos, sendo um pormenor da obra em causa é contudo algo que não está alheio ao conteúdo do livro. Da sua leitura, ficamos com a serena convicção da autora desta obra nos poder esclarecer - melhor dizendo, aproximar - o leitor do legado de António Telmo. Como se apresentasse, face a face, o leitor ao filósofo e disso resultasse uma atmosfera mais propícia e apetecível para percorrer a sua obra, começando logo pela linguagem cristalina, muito própria de Risoleta. Esta não cai na tentação do que muitas vezes acontece: pretender dizer o que o autor estudado nunca diria, e nós vemos que os corredores académicos estão cheios disso. O que a autora, serenamente, vai operando em cada página, é trazer o que porventura escape ao leitor numa leitura que não capte com mais facilidade todo o manancial télmico. Uma coisa é certa: Risoleta C. Pinto Pedro move-se (e move-nos), não enjeitando a mesma atmosfera anímico-espiritual e na linha fulcral de pensamento do autor de «História Secreta de Portugal». A afeição a essa atmosfera é como um horizonte para além do qual se adivinha não uma mas várias Índias ou a caverna da palavra que ainda nos pode devolver o «pensamento que pensa», o mesmo é dizer para nós que acreditamos que há ainda uma casa ou pátria física e/ou anímica onde se repousa e ganha força para a batalha da vida.
Quanto a essa atmosfera onde Risoleta C. Pinto Pedro se move (e nos move), aí reside o essencial, mas convém dizer que estar no tom, como bem sabem os músicos, não é necessariamente repetir as mesmas frases musicais nota a nota, pois que por variante se pode entender continuar na mesma tonalidade. E se modulação houver, trata-se de dar continuidade ao que não tem deve ter cisão.

Eduardo Aroso
8-3-2018