sábado, 17 de novembro de 2018



«FÁTIMA E A CULTURA PORTUGUESA» de Miguel Real

«Sente-se, logo existe (…) a Presença, porém, basta-se a si própria como explicação e justificação. E como fundamentação» (página 51)  


O título da obra não induz ninguém em erro, qualquer que seja o pensamento de cada um sobre tão problemático tema, pois o autor, ao contrário de muitos outros, ao escolher tal designação não vem, afanosamente, defender uma tese pessoal. Miguel Real, numa visão omniabarcante do pensamento ao longo da história (como ele superiormente sabe fazer e tem o mérito de expressar), empenha-se em situar o fenómeno das Aparições na cultura portuguesa desde o passado mais ou menos remoto até ao que se projecta na nossa contemporaneidade.
O autor debruça-se bastante sobre o período que vai do final da monarquia e ambiente da república (1910), percorrendo-a e sublinhando mormente a época fracturante do sidonismo, chegando ao salazarismo e ao actual regime democrático. Se o caudal de informação, onde notamos a vastíssima bibliografia lida por Miguel Real, apresentando passagens elucidativas, o que por vezes nos parece excessivo (como se o autor quisesse quase abordar outro tema), o certo é que no último capítulo da obra se percebe tal necessidade, para assim situar, como é jus, os acontecimentos da Cova da Iria na linha da história, da religião, da própria igreja católica (em face até de outras) de algum modo da sociologia, e sobretudo da nossa condição mítica e iniludível genética transcendental. Algumas sínteses deste livro poder-se-iam aqui apontar, mas, por conveniência de brevidade, dir-se-ia que, sendo óbvio que o fenómeno da Cova da Iria não se insere numa lógica racional, ou pelo menos racionalista, ele obedece necessariamente a outra lógica em que a sua justificação não assenta tanto na argumentação, mas essencialmente na peculiaridade de todo o processo português (se quisermos desde Ourique) providencialista e mítico, com toda uma sintomatologia do transcendente que há em nós. Se existe (ou veio a existir) uma relação alterada no triângulo Aparição/Visão/Manifestação (ou o que quer que tenha sido) Igreja e Estado, permanece o enigma na continuidade, que pese embora o palco mundanista hoje montado para o efeito, ele não apaga a realidade subterrânea de Fátima que todavia persiste. Do que disse também o Professor Moisés Espírito Santo, em «Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima», vê-se que essa realidade subterrânea teve provavelmente a sua génese nessa região, mesmo antes da própria fundação de Portugal, pelo que 1917 seria outra manifestação moderna, quem sabe se do Inominado.

Eduardo Aroso ©
16-11-2018


quinta-feira, 25 de outubro de 2018


ODE AO BRASIL
(EM ACENTO AGUDO)©


De que lado é oriente, despertar,
No país do sul e vigor ocidental,
Do nervo de sol desfazendo ganga,
E agora de que lado vai soprar
O novo grito de Ipiranga?
Mexe no chão, mexe Brasil,
No grande rio que não desiste
Guarda-mor de tantas gerações,
No ar há sonhos que circulam
Sem que ninguém os agarre
E olha que há no povo vulcões
De lava saindo no lado errado
Não caias nos momentos antes
De acabar a grande maratona
Onde esperam bater palmas
Resistentes e répteis mutantes.
Vai além do meio tom cantado
Não te fiques no gesto de ancas
E rosto de meias-tintas consentidas
Avança no dia seja ou não impossível
Na hora que é tempo exacto
Das soberanas coordenadas tropicais:
Niemeyer ainda traça o teu perfil
E Betânia e Caetano, um de cada lado.
Metade samba e metade fado.

©Eduardo Aroso
23-10-2018


sábado, 20 de outubro de 2018


BRASIL – É A HORA

O filósofo português José Marinho (1904-1975) disse de Portugal ser «o país do extremo erro e do extremo acerto». Medular afirmação que, neste momento crítico, parece ser comungada pelo Brasil: se sobre o «extremo erro» não restam dúvidas - como também por cá às vezes tem acontecido – a esperança e a possibilidade é do «extremo acerto». Mas não se veja nesta última expressão qualquer forma de radicalismo ideológico ou partidário, antes, porém, uma mobilização quiçá do inconsciente brasileiro, “in extremis”, para o extremo acerto (e quem o sabe?) ao que outro pensador português António Quadros (1923-1993) poderia chamar mitologismo ou providencialismo histórico. E, verdade seja dita, a maior nação da América do Sul tem não só a potência como apetência para tal, tiradas as máscaras da propaganda e da alienação pelos mídia. Se o acordar do pesadelo não traz mais realidade dos que se imbuíram nele, ou seja, os actores são os que são e não outros, resta a esperança de que deste estranho despertar um desses actores bata com a cabeça e, afinal, algumas ideias sofram mutação posterior. Seja como for, o problema universal permanece, terapia para o qual seria bom desligar as televisões por uma semana. Haja alguém que diga no país do Cruzeiro do Sul do «extremo erro e do extremo acerto» nessa Língua de todos nós, mas que lá se pronuncia «com açúcar», como escreveu Agostinho da Silva (1906-1994), fundador da Universidade de Brasília.

Eduardo Aroso,
 19-10-2018

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

AFORISMO (46)

Milhões de pessoas estão rapidamente a perder a visão: quando olham para um arco-íris só vêem três cores: gosto, comentar e partilhar.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

NA CASA DE JEANNE D'ARC ©

«Estranha forma de vida»
Quando o coração
Sobe mais alto que o sonho!
Guerreira da libertação
Semeadora de Viriatos,
De padeiras de Aljubarrota;
Protectora de Marias da Fonte
Madrinha de todos os heróis sem nome.
Ruiva como o nascer do sol
Pronta a ser parto da nação.
Dentro tinha outra luz
Um coro de vozes
Movendo o metal da espada.
Estranha forma de força
Quando o destino a comandava.

Eduardo Aroso
7-10-2018
Domrémy-la-Pucelle, Loraine, França

sábado, 8 de setembro de 2018


RITO

Palpitava a quietude
Como se houvesse
A sagração do lugar,
A emanção do todo.
Por entre a silenciosa reunião das árvores
Para celebrar o panteísmo
Passou o vento e disse:
Nunca verão o meu corpo.



Eduardo Aroso ©
6-9-2018

sábado, 28 de julho de 2018


 A TRANSDISCIPLINARIDADE E A FALTA DE VENTILAÇÃO ACADÉMICA


O pensamento sistémico, «tentativa de ordenamento da complexidade» (B. Nicolescu), também ele no seio da física quântica, só é possível por uma espécie de salto qualitativo do conhecimento (ou um outro conhecimento) também designado por Transdisciplinaridade, ignorado por uns tantos e combatido por outros, como convém ao “status quo” arreigado ainda nos muros da reforma pombalina que, diga-se, no seu tempo e ainda posteriormente, foi muito mais do que reformadora. Alguns recentes acontecimentos arrivistas sobre a História de Portugal, à volta do Museu dos Descobrimentos ou da figura do Pe António Vieira, fazem pensar no que pouco se tem notado: da nossa excepcional posição de nação de, mesmo perante pressões várias e o panorama mundial que nos entra diariamente olhos dentro, poder afirmar e mostrar a nossa Condição e Destino (José Marinho). Afirmar, porque mostrar deve pressupor afirmação convincente. Enquanto fundamento cultural estruturante, a possibilidade do pensamento sistémico português, encontra hoje mais condições para tal – ou não tivesse A. Toynbee dado um bom contributo ainda que sintético – tomando o conhecimento da História Universal. Comparar, medir, avaliar, sempre foi a atitude do ser humano na sua relatividade de fazer juízos e teses.
 O traço singular do nosso Povo (grafo com maiúscula para distinguir de votantes!), que alguns tentam rebaixar ou ver de um modo difuso, Francisco da Cunha Leão na sua obra chamou-lhe «O Enigma Português» e Álvaro Ribeiro o explicitou admiravelmente em «A Razão Animada». Ao contrário do que possa parecer, temos hoje um palco bem mais amplo para desfazer equívocos de “actores” que entram em cena, não sabendo qual o papel que estão a representar, mesmo que tragam o guião de cor! Esse caminho de desfazer equívocos já foi aberto há muito por figuras várias que hoje, que ao invés de uma devida atitude hermenêutica, como cabe ao saber de nível superior, são completamente ignorados; um atitude que se inscreve aliás num pérfido e mais alargado contexto, como se nota nos alinhamentos ditos informativos (!) e programas culturais, tidos como prioritários sem qualquer fundamento prioritário.
O 1º Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (desconheço se outro aconteceu) teve lugar em Novembro de 1994, em Portugal (Arrábida), presidido por figuras como Edgar Morin, Lima de Freitas e Basarab Nicolescu. Dele saiu o Manifesto da Transdisciplinaridade, o qual, ao contrário do alcance que teve por exemplo a afirmação heliocêntrica de Copérnico e Galileu, não tem movido consciências e docências entre nós. No entanto… ela (Transdisciplinaridade) move-se… creio que, mais ou menos solitariamente, pelo menos no CTEC da Universidade Fernando Pessoa. Falta povoar a nação de gente, como queria o tal rei português. Mas hoje também há falta de povoar certas ideias e ideais. A clássica tríade hegeliana (tese, antítese e síntese) se aplicada ao mundo actual, já não pode resolver-se pela síntese, se esta não for colocada no nível transdisciplinar, saindo do mesmo plano horizontal para se colocar (iniciar)  acima, dado que uma síntese pode ser começo de outra tese. Neste pouco oxigenado estado de coisas, por que razão é que nos corredores académicos e outros não há ventilação do pensamento sistémico e transdisciplinar, não o tomando por interdisciplinaridade e pluridisciplinaridade? Já não é possível fugir «ao dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade». Quando Almeida Garrett disse «das academias, livrai-nos Senhor!», por certo que não o fez ignorando o analfabetismo primário do seu tempo e que urgia dissipar, mas do que infelizmente ainda hoje existe no panorama do presente de costela jesuítica por um lado e marxista por outro.

Eduardo Aroso
27-7-2018