AFORISMOS (47) ©
Sou o rio que não olha para a margem direita nem para a esquerda. Elas são o que são na vida; fazem o que tem de fazer. Eu procuro o mar, onde há a explicação para todas as águas, quando olho o azul e o alto.
Eduardo Aroso
19-2-2019
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
sábado, 26 de janeiro de 2019
SÃO ALTAS ©
Estas árvores são altas!
Nelas correm todos os sentidos
Que há na seiva do tempo.
As metáforas desabam em cascatas
Viçosas algumas respiram juventude.
Parágrafos viscerais e palpitantes
Ébrias de olhos que as vejam
Geografias do espanto e distantes
Companheiras de Magalhães
Para darem ao volta ao mundo.
A imaginação é além de redonda
Geradora de todos os nascimentos
O verbo fecundo que foi dado às
mães.
São altas estas árvores antigas
Colunas de Hércules cujo vigor
Abala a primeira morte
Que é o esquecimento.
Elas permitem refazer do pó
O que foi duro mineral ou acto de
amor.
Abraçar estas árvores
Oh, estranhos cruzamentos de biologia
E quando tudo pulsa às vezes
acontece
Que a verdade da natureza fala
pela voz da poesia.
Eduardo Aroso©
25-1-2019
domingo, 20 de janeiro de 2019
A BEM DA NAÇÃO, O BEM DA NAÇÃO,
OU O MELHOR DA NAÇÃO?
Nos tempos em que o melhor (ou
grande parte) da nação era silenciado com a conhecida fórmula de encerramento
dos documentos oficias “A Bem da Nação”, na verdade isso sufocava o que não
podia existir autorizado e que era muito bem da nação. A frase lapidar ficou
como enganadora, porque o rótulo não correspondia ao conteúdo, na visão difusa
de Portugal do homem que, sendo monárquico nos ossos e na alma, todavia na sua
sede de poder não podia exercer essa condição por estarmos numa república.
Depois veio a esperança para o melhor da
nação. Seria até interessante que agora se contrapusesse com a fórmula “Para o
Bem da Nação” ou “Para o Melhor da Nação”,o que afirmaria a tal política
patriótica. Mas seja como for, ninguém de boa consciência, pode fugir à
pergunta se vivemos hoje o melhor da Nação. A questão dos nacionalismos
(confundidos com muitos ismos) tem sido assunto mal esclarecido, porque há que distinguir o trigo do joio. Até
o insuspeito Chomsky, que não se deixou
baralhar porque é um pensador, numa entrevista ao EL PAIS (Março de 2018),
perante a pergunta «teme o nacionalismo?», respondeu: «Depende, si significa
estar interessado en tu cultura local, es bueno. Pero si es un arma contra
otros, sabemos a donde puede conducir, lo hemos visto y experimentado».
Numa simples leitura se vê que a palavra interNACIONALISMO
(outro conceito ou ideia sujeita a baralhações), só tem sentido quando há NAÇÃO.
Havendo sempre pátria e mátria no que se herda dos antepassados, país na
geografia e nas leis que se fazem e desfazem, a nação, embora mudando em lenta
estratificação, perdura como rosto ou tatuagem anímica e psíquica de
estabilidade, nomeadamente pelo idioma e costumes, pelo que deve preservar a
sua autonomia. Por outras palavras, um país que não afirma a sua condição de
nação e espera subsídios para viver,
importa ideias desajustadas à sua condição, é pouco mais que uma colónia perante
quem subsidia. Talvez se entenda que não se avance com a fórmula final nos
documentos oficiais «Para o Melhor da Nação», pois, ainda que no actual sistema
democrático de alternância do poder (ainda bem), o que muitos desses gostariam
era a velha falsa despedida «A Bem da Nação».
Eduardo Aroso
20-1-2019
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
CONSUMMATUM EST
(25-12-1929/12-1-2019)
Um dia as mães regressam ao oriente
Ao rasgo de luz de todas as nascentes,
Etérea placenta dos reencontros.
Lá se confundem mimos com flores,
Choros de infância são cantos de pássaros.
Não falo do pão e do leite que se deixam
Assim é o nosso andar de caminhantes.
Digo dos frutos de amor incandescentes,
Regozijos de alma, os melhores timbres.
Um dia as mães regressam como se nascessem
Outra vez e de outro modo sem idade.
Por enquanto ficamos a embalar o tempo
Criança delicada que se chama saudade.
Eduardo Aroso
12-1-2019
sábado, 15 de dezembro de 2018
O
PRESÉPIO DIVINO, PLANETÁRIO E ECOLÓGICO
Armar
o presépio – tal a expressão tradicional – sem armas, mas cuja armação tem o
amor e a estética que cada um possa dar. Toda a humanidade faz parte de um
presépio gigante, bem mais complexo do que o modelo que chegou até nós pelo
gesto amoroso de Francisco de Assis. Não seria de admirar que o santo, nos dias
de hoje, pudesse também imaginar um presépio à escala planetária, onde não
faltem árvores sãs e águas limpas. É certo que alguns não vêem nesse presépio
planetário o Menino Jesus, embora ele esteja presente para quem o pode
vislumbrar. Muitos entendem a vaca apenas como produtora de leite e dadora da
carne, ou o burrinho como epíteto dos mais pobres de inteligência, ou, pior do
que isso, um conceito difuso de direitos de animais e pessoas. Quanto ao resto
dos figurantes, é certo que alguns não podem estar junto de outros (coisa
natural), porque os incómodos são cada vez maiores. Por sua vez é isto que dá
sentido ao mundo, na sua complexidade e diversidade. Mas… os rios poderão
deixar de estar limpos, os poços vazios e as fontes secas, falando eu também
daquelas fontes onde a alma se sacia mitigando aquela outra fome que corrói por
dentro, a que muitos também chamam solidão. Quando à falta de fé no transcendente,
se a isto se juntar definitivamente a frouxa e desesperançada fé no actual sistema
político e nos seus “apóstolos”, ver-se-á que, pior do que ser educado num
colégio de freiras ou num seminário é vaguear pelo mundo sem emprego e sem
família, cujo único horizonte é um “cigarro doce” ou uma seringa na mão. Eis a
morte do velho IDEAL helénico ou mesmo renascentista do Ocidente, trocada pelo
comando tecnológico (uma espécie de “feitiço contra o feiticeiro” e não o
contrário, como é desejável); do materialismo como monarca supremo do mundo; ou
o consumo do sexo em saldo e a inquisição dos mercados. Mas tudo isto, em
tempos de agonia, nos conduz à ideia de que ainda vale a pena ter um presépio
ideal. E a palavra-chave é renascer, seja como for.
Eduardo
Aroso©
Natal,
2018
terça-feira, 27 de novembro de 2018
ANTÓNIO
TELMO E O SENTIDO DO ESOTERISMO OCIDENTAL
«O movimento
da filosofia deverá consistir, pois, não em fugir para um mundo suprassensível,
mas em tomar consciência da imensa força na qual vivemos e somos, - em
encontrar o dissolvente universal.
(Arte Poética)
O declínio
da Palavra no ocidente tem sido a causa maior da ilusória busca do orientalismo
espiritual não só como rápida panaceia para os males da sociedade do apogeu do
consumo material, como também para uma via espiritual por excelência dos
pensadores que esgotaram a sua exegese mais profunda no seio das igrejas. Seja
por uma rápida atitude, como quem já não vai a Fátima, para querer peregrinar
por outras bandas, seja na busca de razões para entender o chamado renascimento
ou reincarnação ou mesmo esse ignoto sentido do silêncio como alicerce de toda
a Criação.
No primeiro caso, vemos a profusão de incensos em cada esquina, ou
posturas corporais (quantas vezes chamando yoga ao que não é yoga), mas que
prometem um quase imediato adiantamento da alma. Tem sido este o refúgio de um
mundo que, tirando vantajosamente o pó que vinha acumulando, condicionou-se entre
as hostes marxistas e os corredores jesuítas.
A proliferação de inúmeros livros
de auto-ajuda parecem ter esquecido a máxima helénica «conhece-te a ti mesmo»,
porque também ao declínio da Palavra corresponde um preocupante afrouxamento da
vontade.
A
desesperada busca do silêncio (desesperado acto também da (re)ligação à
Natureza perdida), se é verdade que lhe confere a essência sagrada habitante no
caos como possibilidade de tudo poder-vir-a-ser, de outro modo não pode ser o
refúgio ilusório ocidental onde se tentam ludibriar os traumas que a
adulteração da Palavra (quando não profanação) tem trazido. Uma abordagem mais
exigente entre nós, na busca de insondáveis gnoses que ultrapassem academismos
e ortodoxias enxertadas, parece ter esquecido a tradição templária e o sinal da
Rosa que foi colocado no Convento de Cristo de Tomar, ainda antes dos primeiros
Manifestos Rosacruzes surgidos na Alemanha. A rápida divulgação do budismo no
ocidente e de um modo específico em Portugal, curiosamente apetecido por
algumas classes cultas e de jovens, pese embora a sua inquestionável condição
benigna de remeter o ser humano para a sua essência, sendo por isso o ideal
para muitos ocidentais, não vem esclarecer mais o silêncio que os frades
medievais, para os quais o céu era mais que o nirvana onde as almas se dissolvem
num incognoscível Absoluto.
Por
tudo isto, o filósofo António Telmo, também ele leitor atento de Bergson, não
poderia deixar de alertar para o movimento da filosofia que preconiza a
exaltação da Palavra indispensável à expressão do pensamento. «A gnose
hebraico-portuguesa distingue-se da gnose oriental valorizando a palavra sobre
o silêncio, procurando no silêncio, não o pensamento que se torna inefável, mas
o pensamento que se transforma em palavras que iluminem as trevas em que
vivemos» (A. Telmo, conferência, 1996).
Na
verdade o Génesis consagra o Verbo como supremo agente do mundo, justificando-o
nesse mistério. Milhares de anos depois, João, o apóstolo amado, abre o seu
imortal evangelho com a chave do Verbo, pormenor que não escapou ao autor dos
chamados Painéis das Janelas Verdes, no que é tido como o painel do Santo, com o
livro aberto no intróito desse evangelho, porventura o ponto focal de toda a
obra, pese embora o panorama holístico que nela colhemos. Ferir ou romper o
silêncio é o acto mais sagrado que só a Palavra pode fazer. No mundo ocidental
(porventura todo ele agora que está sob o olhar atento da Besta) o poder
temporal, no declínio da Palavra, promete a salvação, a curto prazo, para
quatro ou cinco, no contraponto ao poder espiritual que no fim desta vida
promete a salvação, quiçá a vida eterna.
Se o silêncio é prioritariamente condição
de chegada, então a Criação do mundo não tem servido para nada, como se o ser
humano voltasse ao caos, uma espécie de “posição fetal”, porque o sentido da Manifestação
foi acentuado pelo Verbo com os seus múltiplos efeitos. O pensamento abstracto
só faz sentido quando se sabe o que é o pensamento concreto.
Santa
Clara (Coimbra) 27-11-2018
Eduardo
Aroso©
sábado, 17 de novembro de 2018
«FÁTIMA
E A CULTURA PORTUGUESA» de Miguel Real
«Sente-se, logo existe (…) a
Presença, porém, basta-se a si própria como explicação e justificação. E como
fundamentação» (página 51)
O
título da obra não induz ninguém em erro, qualquer que seja o pensamento de
cada um sobre tão problemático tema, pois o autor, ao contrário de muitos
outros, ao escolher tal designação não vem, afanosamente, defender uma tese pessoal. Miguel
Real, numa visão omniabarcante do pensamento ao longo da história (como ele
superiormente sabe fazer e tem o mérito de expressar), empenha-se em situar o
fenómeno das Aparições na cultura portuguesa desde o passado mais ou menos
remoto até ao que se projecta na nossa contemporaneidade.
O
autor debruça-se bastante sobre o período que vai do final da monarquia e ambiente
da república (1910), percorrendo-a e sublinhando mormente a época fracturante
do sidonismo, chegando ao salazarismo e ao actual regime democrático. Se o
caudal de informação, onde notamos a vastíssima bibliografia lida por Miguel
Real, apresentando passagens elucidativas, o que por vezes nos parece excessivo
(como se o autor quisesse quase abordar outro tema), o certo é que no último
capítulo da obra se percebe tal necessidade, para assim situar, como é jus, os
acontecimentos da Cova da Iria na linha da história, da religião, da própria
igreja católica (em face até de outras) de algum modo da sociologia, e
sobretudo da nossa condição mítica e iniludível genética transcendental.
Algumas sínteses deste livro poder-se-iam aqui apontar, mas, por conveniência
de brevidade, dir-se-ia que, sendo óbvio que o fenómeno da Cova da Iria não se
insere numa lógica racional, ou pelo menos racionalista, ele obedece necessariamente
a outra lógica em que a sua justificação não assenta tanto na argumentação, mas
essencialmente na peculiaridade de todo o processo português (se quisermos
desde Ourique) providencialista e mítico, com toda uma sintomatologia do
transcendente que há em nós. Se existe (ou veio a existir) uma relação alterada
no triângulo Aparição/Visão/Manifestação (ou o que quer que tenha sido) Igreja
e Estado, permanece o enigma na continuidade, que pese embora o palco mundanista
hoje montado para o efeito, ele não apaga a realidade subterrânea de Fátima que
todavia persiste. Do que disse também o Professor Moisés Espírito Santo, em «Os Mouros
Fatimidas e as Aparições de Fátima», vê-se que essa realidade subterrânea teve
provavelmente a sua génese nessa região, mesmo antes da própria fundação de
Portugal, pelo que 1917 seria outra manifestação moderna, quem sabe se do
Inominado.
Eduardo
Aroso ©
16-11-2018
Subscrever:
Mensagens (Atom)