quinta-feira, 7 de março de 2019


DIFÍCIL GRAMÁTICA©
(In memoriam das mulheres
da minha aldeia)

O verbo era sempre amar.
Em cima da mesa
Artigos indefinidos.
A enxada nas mãos
Única certeza.
O verbo era sempre amar.
Quanto aos substantivos
Eram muitos,
Eram os filhos.
As mães trabalhavam
Em difíceis substantivos:
A terra e a água
Levadas à raiz
Como um seio à boca
O verbo era sempre amar.

Eduardo Aroso©
17-2-2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


 SUPERAÇÃO  DO COLÍRIO
 (Para Arthur Berberian, fraternalmente)

Nas mãos temos o fruto estranho do tempo.
Sem límpido movimento de olhar o céu.
Perde-se na metamorfose da cor,
Na mímica obscura, estatística fácil
Sob lúcifer intruso, rosto do vero sol
Ilusório véu ou catarata no espírito ágil
De visão livre de qualquer lamento.

Nas mãos temos o fruto de dois gumes
Que brota ainda de páginas vinciadas,
Labirintos que tecemos e outros mecanismos
Sem alma que prolongam a oclusão criada
Na noite maior que criou os dualismos.

Vela oculta e amorosa a Mãe universal
A panaceia espera a nossa madrugada.
Toca-nos o perfeito vislumbre da aurora
No anseio em delírio para eliminar o mal,
Busca-se o colírio sobre ávidos olhos
E os olhos choram porque não vêem.

18-2-2019
Eduardo Aroso ©



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

AFORISMOS (47) ©

Sou o rio que não olha para a margem direita nem para a esquerda. Elas são o que são na vida; fazem o que tem de fazer. Eu procuro o mar, onde há a explicação para todas as águas, quando olho o azul e o alto.

Eduardo Aroso
19-2-2019

sábado, 26 de janeiro de 2019


SÃO ALTAS ©

Estas árvores são altas!
Nelas correm todos os sentidos
Que há na seiva do tempo.
As metáforas desabam em cascatas
Viçosas algumas respiram juventude.
Parágrafos viscerais e palpitantes
Ébrias de olhos que as vejam
Geografias do espanto e distantes
Companheiras de Magalhães
Para darem ao volta ao mundo.
A imaginação é além de redonda
Geradora de todos os nascimentos
O verbo fecundo que foi dado às mães.

São altas estas árvores antigas
Colunas de Hércules cujo vigor
Abala a primeira morte
Que é o esquecimento.
Elas permitem refazer do pó
O que foi duro mineral ou acto de amor.
Abraçar estas árvores
Oh, estranhos cruzamentos de biologia
E quando tudo pulsa às vezes acontece
Que a verdade da natureza fala pela voz da poesia.

Eduardo Aroso©
25-1-2019

domingo, 20 de janeiro de 2019


A BEM DA NAÇÃO, O BEM DA NAÇÃO, OU O MELHOR DA NAÇÃO?

Nos tempos em que o melhor (ou grande parte) da nação era silenciado com a conhecida fórmula de encerramento dos documentos oficias “A Bem da Nação”, na verdade isso sufocava o que não podia existir autorizado e que era muito bem da nação. A frase lapidar ficou como enganadora, porque o rótulo não correspondia ao conteúdo, na visão difusa de Portugal do homem que, sendo monárquico nos ossos e na alma, todavia na sua sede de poder não podia exercer essa condição por estarmos numa república.
 Depois veio a esperança para o melhor da nação. Seria até interessante que agora se contrapusesse com a fórmula “Para o Bem da Nação” ou “Para o Melhor da Nação”,o que afirmaria a tal política patriótica. Mas seja como for, ninguém de boa consciência, pode fugir à pergunta se vivemos hoje o melhor da Nação. A questão dos nacionalismos (confundidos com muitos ismos) tem sido assunto mal esclarecido,  porque há que distinguir o trigo do joio. Até o insuspeito  Chomsky, que não se deixou baralhar porque é um pensador, numa entrevista ao EL PAIS (Março de 2018), perante a pergunta «teme o nacionalismo?», respondeu: «Depende, si significa estar interessado en tu cultura local, es bueno. Pero si es un arma contra otros, sabemos a donde puede conducir, lo hemos visto y experimentado».
 Numa simples leitura se vê que a palavra interNACIONALISMO (outro conceito ou ideia sujeita a baralhações), só tem sentido quando há NAÇÃO. Havendo sempre pátria e mátria no que se herda dos antepassados, país na geografia e nas leis que se fazem e desfazem, a nação, embora mudando em lenta estratificação, perdura como rosto ou tatuagem anímica e psíquica de estabilidade, nomeadamente pelo idioma e costumes, pelo que deve preservar a sua autonomia. Por outras palavras, um país que não afirma a sua condição de nação e  espera subsídios para viver, importa ideias desajustadas à sua condição, é pouco mais que uma colónia perante quem subsidia. Talvez se entenda que não se avance com a fórmula final nos documentos oficiais «Para o Melhor da Nação», pois, ainda que no actual sistema democrático de alternância do poder (ainda bem), o que muitos desses gostariam era a velha falsa despedida «A Bem da Nação».

Eduardo Aroso
 20-1-2019
  

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


CONSUMMATUM EST
(25-12-1929/12-1-2019)

Um dia as mães regressam ao oriente
Ao rasgo de luz de todas as nascentes,
Etérea placenta dos reencontros.
Lá se confundem mimos com flores,
Choros de infância são cantos de pássaros.
Não falo do pão e do leite que se deixam
Assim é o nosso andar de caminhantes.
Digo dos frutos de amor incandescentes,
Regozijos de alma, os melhores timbres.
Um dia as mães regressam como se nascessem
Outra vez e de outro modo sem idade.
Por enquanto ficamos a embalar o tempo
Criança delicada que se chama saudade.

Eduardo Aroso
12-1-2019




sábado, 15 de dezembro de 2018


O PRESÉPIO DIVINO, PLANETÁRIO E ECOLÓGICO

Armar o presépio – tal a expressão tradicional – sem armas, mas cuja armação tem o amor e a estética que cada um possa dar. Toda a humanidade faz parte de um presépio gigante, bem mais complexo do que o modelo que chegou até nós pelo gesto amoroso de Francisco de Assis. Não seria de admirar que o santo, nos dias de hoje, pudesse também imaginar um presépio à escala planetária, onde não faltem árvores sãs e águas limpas. É certo que alguns não vêem nesse presépio planetário o Menino Jesus, embora ele esteja presente para quem o pode vislumbrar. Muitos entendem a vaca apenas como produtora de leite e dadora da carne, ou o burrinho como epíteto dos mais pobres de inteligência, ou, pior do que isso, um conceito difuso de direitos de animais e pessoas. Quanto ao resto dos figurantes, é certo que alguns não podem estar junto de outros (coisa natural), porque os incómodos são cada vez maiores. Por sua vez é isto que dá sentido ao mundo, na sua complexidade e diversidade. Mas… os rios poderão deixar de estar limpos, os poços vazios e as fontes secas, falando eu também daquelas fontes onde a alma se sacia mitigando aquela outra fome que corrói por dentro, a que muitos também chamam solidão. Quando à falta de fé no transcendente, se a isto se juntar definitivamente a frouxa e desesperançada fé no actual sistema político e nos seus “apóstolos”, ver-se-á que, pior do que ser educado num colégio de freiras ou num seminário é vaguear pelo mundo sem emprego e sem família, cujo único horizonte é um “cigarro doce” ou uma seringa na mão. Eis a morte do velho IDEAL helénico ou mesmo renascentista do Ocidente, trocada pelo comando tecnológico (uma espécie de “feitiço contra o feiticeiro” e não o contrário, como é desejável); do materialismo como monarca supremo do mundo; ou o consumo do sexo em saldo e a inquisição dos mercados. Mas tudo isto, em tempos de agonia, nos conduz à ideia de que ainda vale a pena ter um presépio ideal. E a palavra-chave é renascer, seja como for.

Eduardo Aroso©
Natal, 2018