terça-feira, 30 de abril de 2019



ONDE FICA O LARGO DA PORTAGEM? ©

Procura-se na memória intermitente
Que descansa  longe
Talvez num sofá ou cadeira de rodas.
Chega ali ainda a vaga frescura das tardes
Do Mondego que subia livre na enchente
E arrefecia impiedoso os pés do Mata-Frades!
Ah, nas grades de ferro à beira da água
Arremetia-se com estrondo a liberdade
E o esvoaçar mais largo das fitas era sinal
Que poderia ser outra largada de aves.
Pergunta-se ao neto que escreve no telemóvel
Mas não sabe já o que é o Banco de Portugal
E onde fica a página que se abria extensa
Que ia do Parque até à Rua da Sofia.
Busca-se o sítio do Largo da Portagem
Talvez no Google ou no facebook
Mas a verdade da vida, que escorre e tem aroma,
Não admite, no fim de contas, qualquer truque.
É virgem fugidia essa calçada que não se pisa
Flores, amores-(im) perfeitos regados com espuma de cerveja.
Pergunto pelo verso que já não se escreve
E a assinatura feita no colo da esplanada
Com o rio em frente, primeira testemunha.
No tempo sem assento entra-se e sai-se num instante
Mas ao chão do Largo da Portagem já não se vai.

Janeiro de 2019
Eduardo Aroso©

quarta-feira, 24 de abril de 2019



    45 ANOS A FAVOR E CONTRA A CORRENTE

 «Mansa colmeia a que ninguém colhe o mel» (Miguel Torga)


Quem quiser apreciar a obra que deveria ser de fundo do pós 25 de Abril, viaje pelo INTERIOR do país. Digo o pós, porque o 25 foi na verdade a devolução da liberdade e garantia de uma Constituição democrática. O que se tem feito pelo verdadeiro desenvolvimento em terras do chamado «Portugal profundo» durante cerca de quatro décadas, nada deve aos sucessivos governos centrais, mas ao empenho daqueles que (descontando-se o “caciquismo” que há em todo o lado e as verbas obrigatórias tipo «migalhas para pobres») ainda sentem o «locus», o sangue dos antepassados naquelas terras e, claro está, a sensação aguda de que ou se mexem a sério ou ficam a perder.

Um pouco no cansaço do tempo do homem de Santa Comba, pese embora a diferença qualitativa (felizmente), os discursos das cerimónias oficiais soam hoje cheios de cansaço, numa atmosfera europeia também cansada. Não porque a liberdade, democracia e pluralismo, não tenham todo o sentido. O problema é dos vícios arreigados – que o povo sente inconscientemente – que não deixam acreditar e que não têm permitido o progresso estruturado e estruturante. Esta, sim, a verdadeira revolução e não outra com mais ou menos golpes que puxam para trás e, como a História ensina, fazem depois dos “revolucionários” caricatos “pseudo-conservadores”.

 Na verdade, vivemos na «sociedade do cansaço» como diz Byung- Chul Han. O idealismo de vultos notáveis que se criou e que lutou durante a ditadura do Estado Novo, perdeu-se no momento em que a liberdade cívica e política foram devolvidas aos portugueses e logo começou uma certa “ditadura” que emanava da EU. Foi uma soberana oportunidade perdida. A quebra desse idealismo português já anteriormente se havia notado na passagem do 31 de Janeiro de 1891 para o 5 de Outubro, e no novo regime logo tristemente reduzido a querer mais Europa e mais verbas. O trabalho maior estava ainda por fazer, na bela manhã do dia 25 trazendo a POSSIBILIDADE de tal. O 25 de Abril (devido em boa hora aos militares e a mais ninguém, pois o resto é do tipo ”cereja no bolo”) foi uma possibilidade que democraticamente se foi cumprindo no que foi, e não o sonho no postal ilustrado que correu mundo. Podemos compará-lo a uma boa terra, que foi bem lavrada e prontinha a semear. O resto era com os sucessivos lavradores… Por isso, vigiar sempre quem vai amanhar  a terra!
Hábitos e mentalidades persistem por muitos anos e só com ideais fortes e lutadores preparados se avança. A distorção que Salazar (por falta de inteligência) tinha de Portugal foi substituída por quem se  desinteressou pelo país, coisa que já no seu tempo F. Pessoa dizia: «São portugueses porque, por desgraça nossa, nasceram adentro da nossa fronteira».

 Quem olha hoje para a Assembleia da República, para os meios sindicais e partidários e até para os desejados movimentos de cidadãos (que quando surgem são logo captados) vê que os vícios do antigamente persistem, desde a burocracia, a compulsão para o imposto e a taxa, o gosto pela gorjeta, o ganhar “a meias” (ou o dividir por mais alguns), os estranhos meandros da justiça, o deixa-andar…Hoje estamos melhores (tortuosamente melhores, mas estamos melhores) que no tempo em que muitos foram esturricados no Tarrafal pela Pide e uma professora tinha que fazer um requerimento ao Estado para casar com um professor (!)

No entanto, as “abelhas” dos pinhais e das serras interiores, vivem hoje cheias de solidão, com televisões, internet e estradas de alcatrão, e com cada vez mais Lares de idosos, que são hoje os monumentos nacionais de vilas e aldeias. Cá fora sopra o vento da solidão nas casas sem ninguém. A «mansa colmeia» já não pode ser mais do que isso, até porque descende dos brandos costumes. As “abelhas novas” escasseiam e, pelo jeito, não se indignam mesmo quando a velha capital do império ainda não perdeu o hábito de carregar com os idos impostos da pimenta e o marfim…

Eduardo Aroso
Abril 2019

terça-feira, 19 de março de 2019


S.O.S. UNIVERSAL ©

O mundo afoga-se lentamente
Trágica repetição do Titanic
Em terra julgada firme.
Come-se o pão da desconfiança
No esquecimento da semente.
Não há bóias gratuitas
Nem Constituições salvíficas.
Presas não se sabe onde
Restam duas cordas
Uma para cada mão:
A fé e a razão.
Agarra-te!

Eduardo Aroso ©
19-3-2019

quinta-feira, 7 de março de 2019


DIFÍCIL GRAMÁTICA©
(In memoriam das mulheres
da minha aldeia)

O verbo era sempre amar.
Em cima da mesa
Artigos indefinidos.
A enxada nas mãos
Única certeza.
O verbo era sempre amar.
Quanto aos substantivos
Eram muitos,
Eram os filhos.
As mães trabalhavam
Em difíceis substantivos:
A terra e a água
Levadas à raiz
Como um seio à boca
O verbo era sempre amar.

Eduardo Aroso©
17-2-2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


 SUPERAÇÃO  DO COLÍRIO
 (Para Arthur Berberian, fraternalmente)

Nas mãos temos o fruto estranho do tempo.
Sem límpido movimento de olhar o céu.
Perde-se na metamorfose da cor,
Na mímica obscura, estatística fácil
Sob lúcifer intruso, rosto do vero sol
Ilusório véu ou catarata no espírito ágil
De visão livre de qualquer lamento.

Nas mãos temos o fruto de dois gumes
Que brota ainda de páginas vinciadas,
Labirintos que tecemos e outros mecanismos
Sem alma que prolongam a oclusão criada
Na noite maior que criou os dualismos.

Vela oculta e amorosa a Mãe universal
A panaceia espera a nossa madrugada.
Toca-nos o perfeito vislumbre da aurora
No anseio em delírio para eliminar o mal,
Busca-se o colírio sobre ávidos olhos
E os olhos choram porque não vêem.

18-2-2019
Eduardo Aroso ©



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

AFORISMOS (47) ©

Sou o rio que não olha para a margem direita nem para a esquerda. Elas são o que são na vida; fazem o que tem de fazer. Eu procuro o mar, onde há a explicação para todas as águas, quando olho o azul e o alto.

Eduardo Aroso
19-2-2019

sábado, 26 de janeiro de 2019


SÃO ALTAS ©

Estas árvores são altas!
Nelas correm todos os sentidos
Que há na seiva do tempo.
As metáforas desabam em cascatas
Viçosas algumas respiram juventude.
Parágrafos viscerais e palpitantes
Ébrias de olhos que as vejam
Geografias do espanto e distantes
Companheiras de Magalhães
Para darem ao volta ao mundo.
A imaginação é além de redonda
Geradora de todos os nascimentos
O verbo fecundo que foi dado às mães.

São altas estas árvores antigas
Colunas de Hércules cujo vigor
Abala a primeira morte
Que é o esquecimento.
Elas permitem refazer do pó
O que foi duro mineral ou acto de amor.
Abraçar estas árvores
Oh, estranhos cruzamentos de biologia
E quando tudo pulsa às vezes acontece
Que a verdade da natureza fala pela voz da poesia.

Eduardo Aroso©
25-1-2019