AFORISMOS (48)
Deixa-te tatuar com a água do mar. A pele é para os deuses.
Eduardo Aroso
2-8-2019
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
quinta-feira, 11 de julho de 2019
HINO
DA EUROPA OU A EUROPA SEM HINO?
Mais
do que simplesmente representar a hegemonia alemã, aquilo
que se designa por Hino da União Europeia representa,
antes de mais, uma
subordinação à inércia da não criação de um hino que expresse a ideia de uma
Europa unida. Mas talvez não tenha sido por acaso que esta apatia existe, pois –
trazendo um pouco a imagem - assim como
o azeite não se pode misturar com a água, seria, na melhor das hipóteses, difícil
(mas não impossível) haver um verdadeiro hino que espelhasse as
diversidades
culturais do nosso continente. É indiscutível que, de um ponto
de vista realista, perante o cenário mundial, é vantajoso uma Europa unida.
Também indiscutível é a imortal Ode à Alegria de Beethoven. Sempre que escutada
nos faz vibrar de esperança, mas é triste que se tenha transformado no símbolo
do país onde se ancora o Banco Europeu e da economia que tem como almocreves
Portugal, Espanha e Grécia. Aristóteles disse que «haverá sempre escravos» e
nesta época calhou-nos a nós. Ainda que seja imaculada a Ode à Alegria, a uma
nova realidade histórica deve corresponder um hino próprio que expresse mental
e sentimentalmente as nações europeias sobretudo de quadrantes de
sensibilidades distintas, como, por exemplo; ibéria, norte da Europa, centro e nações
eslavas. Ou então a União Europeia não é realidade histórica, tão-só um
contrato que dura umas décadas. E, obviamente, a solução não seria colar a Ode
à Alegria a uns compassos da Marselhesa!
Eduardo
Aroso
10-7-2019
segunda-feira, 8 de julho de 2019
RECEITA PORTUGUESA (LINGUÍSTICA)
Não ceda às palavras dos dicionários digitais, de acordos ortográficos, ignore algum estilo jornalístico e as frases de rodapé que aparecem nas televisões. Não dê ouvidos à oralidade daqueles que começam sempre com «efectivamente…» quando nem sequer há efeitos nem efectivos! Na hipótese de não poder seleccionar, a preceito, lave tudo, deitando fora o que já nada se aproveita. Deixe a enxugar durante a noite. Se houver lua e aroma de algum pomar, tanto melhor. De manhã, verá que as palavras brilham, podendo soar com o mesmo rumor antes da banalização do acto sagrado da comunicação.
Eduardo Aroso
Julho 2019
Julho 2019
quinta-feira, 4 de julho de 2019
HOJE E SEMPRE ©
A sublimação dos caules
É a celebração mais alta.
A seiva e os espinhos
Mostram-se nos passos
Na busca do bodo vegetal.
Move-se o povo em silêncio
Pela palavra perdida
- nunca escrita -
Nas dobras ocultas dos livros.
Liberte-se a fome e a sede
Sobre os jardins de água.
As rosas ainda amanhecem
No plasma das nascentes.
Eduardo Aroso ©
Julho, 2019
sábado, 29 de junho de 2019
PORTUGAL E OS DISCÍPULOS DO FILÓSOFO SÓCRATES
Diz
a tradição que os discípulos do filósofo Sócrates lhe chamavam «atopos», ou
seja, o indefinido ou não localizado, o que se pode entender como alguém
intocável na sua sabedoria. Não fosse ele humano, do sumo pensador poderiam dizer abscôndito, raro adjectivo apenas quando se trata da mais alta transcendência.
Portugal tem sido entendido como Porto do Graal, terra Ophiussa, lugar de
Ouroboros, ou, geometricamente e em estilização, nação com a forma de dois
quadrados juntos. Onde sensivelmente eles se tocam, está a cidade de Tomar,
foco principal da presença templária, irradiante no passado e ainda hoje
magnético. À cidade do Nabão e do Convento de Cristo chamou Umberto Eco “umbigo
do mundo”, o que equivale a dizer Plexo Solar ou Sol do Mundo, porque dizer
umbigo ou sol tem exacta correspondência, quanto mais não seja pela
equidistância daquela parte do corpo aos extremos deste.
Diga-se que a este propósito convém ir um
pouco mais fundo na ideia de centro. Para além do que em geometria representa,
originando a circunferência - não esquecer que esta deriva do ponto (centro),
enquanto este pode existir sem ela – René Guénon, num contexto simbólico,
lembra que a ideia de centro «é passível de uma transposição similar, mediante
o qual se despoja do seu carácter espacial, que só é evocado a título de
símbolo». Ou seja, existindo, o centro pode ser quase ou mesmo «atopos». Seja
como for, o centro é o princípio do qual se parte em qualquer direcção e no
plano do pensamento para qualquer raciocínio especulativo.
O
tão famigerado tesouro dos Templários que tantas peregrinações e rotas tem
conhecido, árduos estudos, e longos debates, não parece ser contudo o ouro de
melhor quilate – sendo bom para muitos, é pouco para alguns. Tratando-se do
metal brilhante, mesmo que bem guardado, poder-se-ia dar o caso de alguém, até
por descuido, entrar num subterrâneo qualquer e dar de caras com tanta riqueza,
ainda por cima com a vantagem de se poder registar logo as coordenadas no
g.p.s. (! ). A aproximação dos
discípulos a Sócrates, mesmo sendo ele «atopos», por certo era lenta como também
o tempo requerido para os eleitos de Pitágoras que, antes de se manifestarem,
teriam que observar silêncio durante alguns anos. Posto que o tesouro dos Templários
não se encontra de um golpe, parece ser mais fácil a aproximação dos que o
procuram, do jeito dos discípulos de Sócrates (estando, é intocável), pois o
que seja esse tesouro só pode ser uma Gnose (de acesso merecido e por isso
consentido), não se encontrando certamente descendo as escadas de um
subterrâneo. Dir-se-ia mesmo que ao tesouro se chega metaforicamente subindo as
escadas, que poderão ser as do fogo serpentino da coluna vertebral ou outras,
como passar incólume nas que servem a Torre de Babel. Tudo isto nos leva, em
convergência, à questão nuclear do que é Portugal: de que centro (atopos?) têm
partido os raios infinitos dando lugar a circunferências concêntricas de mais
de oito séculos. O paradoxo é que, considerando as últimas décadas de Portugal,
no balanço final da sua Expansão e a entrada na sociedade por quotas chamada
CEE, é natural haver, noutra ordem, quantas vezes insuspeitada, mais uma
circunferência onde parecia não existir, até em pequenas coisas do dia-a-dia
onde haja um português no mundo.
O Portugal oculto tornou-se mais invisível?
Tudo é possível até mesmo (considerando o último século) a morte de Portugal
proferida por Junqueiro e por outros nos dias de hoje. Pelo simbolismo do ponto
e da circunferência, é óbvio que actualmente o movimento desordenado se alheia cada
vez mais do centro ou propósito, chame-se-lhe ainda razão maior de Portugal. No
plano visível é sabido que o centro de decisão (despojado de símbolo) parece estar mais em Bruxelas do que no
Terreiro do Paço, no Banco Mundial ou outro parecido, não nas veras necessidades
do município, não se podendo negar que haja, num centro simbólico algures entre
nós, alguma “oposição” salutar e equilibradora. Assim sendo, é decerto «atopos»,
ao contrário dos que vemos diariamente nas televisões. O centro (que pode ser plural)
tem os seus sinais em muitos locais do país. Todavia, além do locus, há o pulsar na História e na
Língua. Por acaso, ou não, a palavra Centro e Verbo têm as mesmas vogais pela
mesma ordem.
Eduardo Aroso
Solstício de Verão, 2019
domingo, 26 de maio de 2019
REPETIÇÃO DA FÁBULA©
Os
cônsules escolhidos
regressam sempre
Vestidos de túnicas sobre seda
digital.
Treinados
no velho império romano
Vieram
para engrossar as legiões
Que
devem seguir por montes e vales
Ou
talvez quietas a vigiar gente.
Têm
dejua forte, pratos a toda a hora
E
bem servidos…
Só
assim há força
Para
derrotar os inimigos.
(Césares
sucessivos passeiam
Nos
corredores
Sem
que se mostrem, alheios ao sol).
No
débil burburinho dos gorjeios
Muitas
aves já não se ouvem
Retirada
a amplificação sonora.
A criação é
de cordeiros
(Os
lobos maus têm o seu covil)
As
legiões revezam-se.
Sentinelas
da noite
Vigiam
atentamente
Hora a hora
Para
que os galos do mundo
Não
anunciem a aurora.
Eduardo
Aroso©
Maio 2019
quarta-feira, 15 de maio de 2019
DAS
MÁSCARAS, DOS (MAUS) ACTORES E AS PLATEIAS DE PACÓVIOS
Em
muitas e duvidosas representações de hoje, a inversão da máscara não significa
virá-la do avesso, como se faz a uma peça de roupa mal vestida. Posto que está
na moda as máscaras serem escolhidas como sendo de preocupadas e edificantes
personagens, os que as movem não são, via de regra, confiáveis no que pretendem
representar. Quando a máscara cai percebe-se então que são maus actores, ou
seja, o que representaram não estava de acordo com o perfil da máscara, o que
não deve confundir-se com os eméritos do nosso teatro português.
Na
antiga tragédia helena, onde havia a autenticidade do colectivo (a forma de
arte humanamente mais completa e complexa, com um envolvimento muito acima das
actuais performances), a diversidade da vida obrigava por vezes à representação
de figuras pouco simpáticas, ou mesmo opositoras da sociedade e temperadas do
cómico. Existia, como ainda hoje, o bobo, figura de papel singular, paradoxal,
criticando e corrigindo desmandos, numa linguagem que só a ele era permitido. O monarca e bem assim toda
corte ouviam dele o que a outra pessoa
não se autorizava, sob pena de severo castigo. A conhecia obra de Shakespeare
«Rei Lear» apresenta esse primor de bobo, como também, pese embora um cenário
bem diferente, «O Pobre Tolo» de Teixeira de Pascoaes.
Quanto
aos bobos, não são os actores do poder político e económico, pois, como já referido,
representam mal. Ainda que de um modo tímido, podemos ser nós os bobos, mas
falta-nos a ousadia de ir à corte e fazer de bobos sérios, isto é, cumprindo
bem o papel, e depois de tirarmos a máscara, todos ficariam a saber quem são os
(verdadeiros) actores, cujos rostos são ainda dos velhos lusitanos, defendo-se
dos impostos disfarces do restos do império romano, guerreiros cujas faces podem
servir bem a máscara sem truques, actores para o que der e vier…
Eduardo
Aroso
Maio
2019
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