sábado, 3 de agosto de 2019



AFORISMOS (49)

Não é a emoção inconsciente de culpa e a visão economicista da ecologia actual que podem resgatar a relação do ser humano e da Natureza, que o Romantismo nos legou, antes da máquina tomar conta da vontade do Homem. Amar a Natureza é muito mais do que limpá-la.

Eduardo Aroso
3-8-2019

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

AFORISMOS (48)

Deixa-te tatuar com a água do mar. A pele é para os deuses.

Eduardo Aroso
 2-8-2019

quinta-feira, 11 de julho de 2019



HINO DA EUROPA OU A EUROPA SEM HINO?

Mais do que simplesmente representar a hegemonia alemã, aquilo que se designa por Hino da União Europeia representa, antes de mais, uma subordinação à inércia da não criação de um hino que expresse a ideia de uma Europa unida. Mas talvez não tenha sido por acaso que esta apatia existe, pois – trazendo um pouco a imagem -  assim como o azeite não se pode misturar com a água, seria, na melhor das hipóteses, difícil (mas não impossível) haver um verdadeiro hino que espelhasse as diversidades culturais do nosso continente. É indiscutível que, de um ponto de vista realista, perante o cenário mundial, é vantajoso uma Europa unida. Também indiscutível é a imortal Ode à Alegria de Beethoven. Sempre que escutada nos faz vibrar de esperança, mas é triste que se tenha transformado no símbolo do país onde se ancora o Banco Europeu e da economia que tem como almocreves Portugal, Espanha e Grécia. Aristóteles disse que «haverá sempre escravos» e nesta época calhou-nos a nós. Ainda que seja imaculada a Ode à Alegria, a uma nova realidade histórica deve corresponder um hino próprio que expresse mental e sentimentalmente as nações europeias sobretudo de quadrantes de sensibilidades distintas, como, por exemplo; ibéria, norte da Europa, centro e nações eslavas. Ou então a União Europeia não é realidade histórica, tão-só um contrato que dura umas décadas. E, obviamente, a solução não seria colar a Ode à Alegria a uns compassos da Marselhesa!  

Eduardo Aroso
10-7-2019



segunda-feira, 8 de julho de 2019

RECEITA PORTUGUESA (LINGUÍSTICA)
Não ceda às palavras dos dicionários digitais, de acordos ortográficos, ignore algum estilo jornalístico e as frases de rodapé que aparecem nas televisões. Não dê ouvidos à oralidade daqueles que começam sempre com «efectivamente…» quando nem sequer há efeitos nem efectivos! Na hipótese de não poder seleccionar, a preceito, lave tudo, deitando fora o que já nada se aproveita. Deixe a enxugar durante a noite. Se houver lua e aroma de algum pomar, tanto melhor. De manhã, verá que as palavras brilham, podendo soar com o mesmo rumor antes da banalização do acto sagrado da comunicação.
Eduardo Aroso
Julho 2019

quinta-feira, 4 de julho de 2019


HOJE E SEMPRE ©

A sublimação dos caules
É a celebração mais alta.
A seiva e os espinhos
Mostram-se nos passos
Na busca do bodo vegetal.

Move-se o povo  em silêncio
Pela palavra perdida
- nunca escrita -
Nas dobras ocultas dos livros.
Liberte-se a fome e a sede
Sobre os jardins de água.
As rosas ainda amanhecem
No plasma das nascentes.

Eduardo Aroso ©
Julho, 2019 


sábado, 29 de junho de 2019

PORTUGAL E OS DISCÍPULOS DO FILÓSOFO SÓCRATES

Diz a tradição que os discípulos do filósofo Sócrates lhe chamavam «atopos», ou seja, o indefinido ou não localizado, o que se pode entender como alguém intocável na sua sabedoria. Não fosse ele humano, do sumo pensador poderiam dizer abscôndito, raro adjectivo apenas quando se trata da mais alta transcendência. Portugal tem sido entendido como Porto do Graal, terra Ophiussa, lugar de Ouroboros, ou, geometricamente e em estilização, nação com a forma de dois quadrados juntos. Onde sensivelmente eles se tocam, está a cidade de Tomar, foco principal da presença templária, irradiante no passado e ainda hoje magnético. À cidade do Nabão e do Convento de Cristo chamou Umberto Eco “umbigo do mundo”, o que equivale a dizer Plexo Solar ou Sol do Mundo, porque dizer umbigo ou sol tem exacta correspondência, quanto mais não seja pela equidistância daquela parte do corpo aos extremos deste.
 Diga-se que a este propósito convém ir um pouco mais fundo na ideia de centro. Para além do que em geometria representa, originando a circunferência - não esquecer que esta deriva do ponto (centro), enquanto este pode existir sem ela – René Guénon, num contexto simbólico, lembra que a ideia de centro «é passível de uma transposição similar, mediante o qual se despoja do seu carácter espacial, que só é evocado a título de símbolo». Ou seja, existindo, o centro pode ser quase ou mesmo «atopos». Seja como for, o centro é o princípio do qual se parte em qualquer direcção e no plano do pensamento para qualquer raciocínio especulativo.
O tão famigerado tesouro dos Templários que tantas peregrinações e rotas tem conhecido, árduos estudos, e longos debates, não parece ser contudo o ouro de melhor quilate – sendo bom para muitos, é pouco para alguns. Tratando-se do metal brilhante, mesmo que bem guardado, poder-se-ia dar o caso de alguém, até por descuido, entrar num subterrâneo qualquer e dar de caras com tanta riqueza, ainda por cima com a vantagem de se poder registar logo as coordenadas no g.p.s. (! ).  A aproximação dos discípulos a Sócrates, mesmo sendo ele «atopos», por certo era lenta como também o tempo requerido para os eleitos de Pitágoras que, antes de se manifestarem, teriam que observar silêncio durante alguns anos. Posto que o tesouro dos Templários não se encontra de um golpe, parece ser mais fácil a aproximação dos que o procuram, do jeito dos discípulos de Sócrates (estando, é intocável), pois o que seja esse tesouro só pode ser uma Gnose (de acesso merecido e por isso consentido), não se encontrando certamente descendo as escadas de um subterrâneo. Dir-se-ia mesmo que ao tesouro se chega metaforicamente subindo as escadas, que poderão ser as do fogo serpentino da coluna vertebral ou outras, como passar incólume nas que servem a Torre de Babel. Tudo isto nos leva, em convergência, à questão nuclear do que é Portugal: de que centro (atopos?) têm partido os raios infinitos dando lugar a circunferências concêntricas de mais de oito séculos. O paradoxo é que, considerando as últimas décadas de Portugal, no balanço final da sua Expansão e a entrada na sociedade por quotas chamada CEE, é natural haver, noutra ordem, quantas vezes insuspeitada, mais uma circunferência onde parecia não existir, até em pequenas coisas do dia-a-dia onde haja um português no mundo.
 O Portugal oculto tornou-se mais invisível? Tudo é possível até mesmo (considerando o último século) a morte de Portugal proferida por Junqueiro e por outros nos dias de hoje. Pelo simbolismo do ponto e da circunferência, é óbvio que actualmente o movimento desordenado se alheia cada vez mais do centro ou propósito, chame-se-lhe ainda razão maior de Portugal. No plano visível é sabido que o centro de decisão (despojado de símbolo)  parece estar mais em Bruxelas do que no Terreiro do Paço, no Banco Mundial ou outro parecido, não nas veras necessidades do município, não se podendo negar que haja, num centro simbólico algures entre nós, alguma “oposição” salutar e equilibradora. Assim sendo, é decerto «atopos», ao contrário dos que vemos diariamente nas televisões. O centro (que pode ser plural) tem os seus sinais em muitos locais do país. Todavia, além do locus, há o pulsar na História e na Língua. Por acaso, ou não, a palavra Centro e Verbo têm as mesmas vogais pela mesma ordem.  
Eduardo Aroso
Solstício de Verão, 2019

domingo, 26 de maio de 2019



REPETIÇÃO DA FÁBULA©

Os cônsules escolhidos regressam sempre
Vestidos de túnicas sobre seda digital.
Treinados no velho império romano
Vieram para engrossar as legiões
Que devem seguir por montes e vales
Ou talvez quietas a vigiar gente.
Têm dejua forte, pratos a toda a hora
E bem servidos…
Só assim há força
Para derrotar os inimigos.
(Césares sucessivos passeiam
Nos corredores
Sem que se mostrem, alheios ao sol).

No débil burburinho dos gorjeios
Muitas aves já não se ouvem
Retirada a amplificação sonora.
A criação é de cordeiros
(Os lobos maus têm o seu covil)
As legiões revezam-se.
Sentinelas da noite
Vigiam atentamente
Hora  a hora
Para que os galos do mundo
Não anunciem a aurora.

Eduardo Aroso©
Maio 2019