quinta-feira, 26 de setembro de 2019


IN MEMORIAM DE TODOS©

Que olhos eram esses
Que olhavam o chão e as raízes?
Terra prometida
Era a que vinha de pais e avós,
Não havia outra tão segura.
Garantidos eram sete palmos para todos.
O ajuste dos braços, o ritmo
Levantar e entrar na terra
O único tesouro
A enxada, uma lanterna.
Respirar já fazia crescer talos e folhas.
O suor água-benta quando vinha
Setembro para acrescentar sangue ao sangue
Carne à carne.
Só depois repousavam as águas das fontes.
O que às vezes os olhos choravam
Não se desperdiçava nos frutos
O destino feito de melaço e ervas amargas.
Que olhos eram esses que olhavam a terra?

Eduardo Aroso©
12-09-2019


quarta-feira, 25 de setembro de 2019


A TRADIÇÃO PORTUGUESA TEM RAZÃO SOBRE O SENTIDO FUTURISTA DA CRIANÇA

«O homem e a hora são um só» Fernando Pessoa
«The childhood shows the man, as morning shows the day» John Milton

As últimas notícias sobre o equilíbrio climático colocam-nos em presença de uma situação mundial, tão emergente como invulgar, tendo como protagonista uma adolescente que não constitui uma mera história de bairro ou de notícia fugaz, mais ou menos predadora da fragilidade da criança, e que daqui a pouco tempo possa ser esquecida, mas daquilo que Fernando Pessoa caracteriza com uma certeza fulminante: «O Homem [leia-se, obviamente, o ser humano] e a hora são um só». E sejam quais forem as condicionantes e a panóplia de interesses que possam rodear Greta Thunberg, atingiu-se o «ponto sem-retorno». Tendo ou não controlo emocional na radicalização das suas palavras (diz-se que tem síndrome de Asperger e não só), o certo é que bastaria pensar na capacidade de mobilização dos jovens à escala mundial, algo que nenhum político ou cientista pode fazer.
William Wordsworth (1770 – 1850) disse: «The Child is father of the Man», parecendo até ser pai de mudanças políticas necessárias. Antes, John Milton (1608 – 1674) tinha escrito: «The childhood shows the man, as morning shows the day». António Quadros, em «Portugal Razão e Mistério», discorrendo sobre a cerimónia do Bodo e da Coroação nas Festas do Espírito Santo (no reinado de Dinis e Isabel), citando Manuel Breda Simões, diz que a tradição tomou a criança para a chamada Tripla Coroação (ritual que singularmente ainda hoje se realiza no Penedo-Sintra), pelo que a criança «assumiria o papel de mediador… presença do ciclo do perpétuo rejuvenescimento…o Menino-Imperador, expressão da infância presente, faz-se acompanhar da infância passada e da infância futura», o que uma quadra anónima não desmente: «Uma criança se ergue/com critérios de justiça./ Acordai, homens, acordai/ p’ra esta nova milícia».
Desde que o ser humano, pelo aperfeiçoamento tecnológico foi sendo capaz de aumentar a sua eficácia de ganhar dinheiro com mais rapidez, explorando a Natureza (e outros seres humanos), como se ela fosse um ser morto, caiu no atoleiro do materialismo onde agora se encontra. Portanto, a vontade política, mesmo que consensual no que toca a fazer leis na defesa do planeta, não basta, porque o cerne do problema é mais complicado e, diga-se, é mesmo de ordem filosófica e ética, na base da economicista. Problema que podendo atenuar-se um pouco, com decretos e alterações nas constituições, não resolve o que já está bastante enquistado e acumulado. Ouso afirmar que o sentido simbólico que existe em Greta Thunberg, - tenha ela cara de zangada ou não, seja ou não motivo de interesses - é a ultima esperança da humanidade, na questão ambiental. Se assim não for, o mundo está perdido, porque nos adultos já ninguém acredita.

Eduardo Aroso
24-9-2019


sexta-feira, 16 de agosto de 2019


«NO PLAINO ABANDONADO…» (1) ©

A conversa habitual é o baixo nível nacional. Este parece ficar cada vez mais longe da guinada a que a consciência do país deveria estar sujeita. Uma espécie de trambolhão sem partir a cabeça. No café, dos bancos de jardim até às televisões, um cansaço como quem regressa de uma viagem que não teve começo. Como dizia o saudoso José Santos Viegas, ninguém aguenta uma conversa interessante durante mais de um minuto. Cansa a falta de assunto que valha  a pena e mais atordoa certa linguagem dos que se acham no direito que os ouçam.
 Nunca como hoje as elites do espírito foram tão urgentes para evitar o “microplástico” que há no pior da nossa democracia, pois qualquer sistema gera desperdícios. Isto é, a proliferação descontrolada do banal como sensação de direito adquirido. Sem imposições, as elites do espírito (que não exactamente certas elites  académicas/culturais) são vigilantes e necessárias ao jeito do fermento para levedar a massa, seja qual for a farinha. Atravessam gerações, fazem escola geralmente fora dos corredores oficiais, afastadas por aquele princípio de normalização de que o sistema tanto gosta, e sufocadas pela exacerbação mórbida da última palavra que Camões escreveu em «Os Lusíadas». As verdadeiras elites – há que dizê-lo – estão num plano bem diferentes das oligarquias que usam e abusam de privilégios, e do execrável «snobismo» daqueles que, não os tendo, exibem conhecimento, valor e sabedoria.  
Todavia, é reconfortante saber que há ainda restos do Portugal profundo, dos cerca de mil abraços diários de pessoas há muito ausentes e que, no reencontro, choram de emoção. É isto que vai resistindo como a Torre de Pisa que, apesar do perigo, não cai.

Eduardo Aroso©
16-8-2019

sábado, 10 de agosto de 2019


 INVICTAS ÁGUAS©

O rio trazia-me silenciosos queixumes
das encostas de uvas e desejos
dos dias quentes para a doçura.
Mas aqui Agosto é sempre um paraíso
margens, esteios firmes
e beijos calmos da lonjura.

Lá ao fundo na foz 
acende-se a luz dourada
quando o dia se cumpre sem cansaço
no sereno altar do fim de tarde
sobre as águas mansas e invictas
onde só o mar as vence com um abraço.

Eduardo Aroso©
Foz do Douro, 9-8-2019

domingo, 4 de agosto de 2019


Aforismos (50)

O problema é que o Estado deixou de ser o «somos nós». Partido e repartido entre interesses partidários e dos amigos «que ficam ao portal…», somos nação, em desgaste, e pátria, para aqueles que a assumem.

Eduardo Aroso
4-8-2019

sábado, 3 de agosto de 2019



AFORISMOS (49)

Não é a emoção inconsciente de culpa e a visão economicista da ecologia actual que podem resgatar a relação do ser humano e da Natureza, que o Romantismo nos legou, antes da máquina tomar conta da vontade do Homem. Amar a Natureza é muito mais do que limpá-la.

Eduardo Aroso
3-8-2019

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

AFORISMOS (48)

Deixa-te tatuar com a água do mar. A pele é para os deuses.

Eduardo Aroso
 2-8-2019