quinta-feira, 24 de outubro de 2019


OUTONO EM BAIXO-RELEVO ©

O vento passa rente ao chão,
célere
e gémeo
dos pés de Mercúrio,
Segue para os montes
soberanos nos cumes.
Tocou as folhas secas
depois húmus.
Junto à terra
a metamorfose.
é o chão que varre o chão.

Eduardo Aroso
Outono 2019

sábado, 19 de outubro de 2019


CENA DAS MENINAS ©

Três crianças passam.
Não se sabe se são irmãs
Ou inocentes de tal modo
Que a fraternidade as conduz
Leves e ágeis pelo passeio.
É mais risonha a manhã,
A brisa ganhou aroma.
O vento e a poeira são destino
No seu corpo vendo o sol
Pelos rasgos do vestido
E os labirintos da privação.
Todas são enigmas de recomeçar
Contra a surdez de vivos-mortos.
A orientação delas é centro do mundo.
Três crianças passam.
Não são as «meninas de Velázquez».

Eduardo Aroso ©
12-10-2019

domingo, 6 de outubro de 2019



O cardeal poeta e profícuo escritor D. José Tolentino Mendonça tem, a partir deste momento, o ensejo soberano (o único depois da época de Fernando Pessoa) de, com a sua vasta cultura  e talento, contrariar - ou mesmo negar – o que o poeta de «Mensagem» afirmou sobre a relação (natureza) de Portugal e da Igreja de Roma. Mas só o futuro o dirá. Acresce a particularidade ou paralelismo com os políticos portugueses que vão para instituições europeias, vistos pelo povo com as melhores expectativas quanto aos benefícios que possam daí advir para a nação mais ocidental da Europa. Essas expectativas têm sido goradas, pois a verdade é que também pelo facto de na cúria romana ter estado um papa no longínquo passado e das nossas relações com o papado, nada disso nos livrou, por exemplo, da Inquisição e, no caso político, da Troika e de sermos o país dos experimentalismos do FMI.
Mas ser português não é ser universal, como Agostinho da Silva e outros afirmaram? Não é sermos actores da História, contada de outro modo, que é a natureza do Homem português, patente em «Peregrinação» de F. Mendes Pinto? Claro que sim.
O que parece é que, seja agora no caso de um prelado (oxalá seja excepção) ou de vários políticos portugueses, a esperança sebástica - a que deveria cumprir-se aqui – parece inverter-se, e assim os “desejados” são apenas para os outros. A globalização é do mundo do dinheiro e do controlo pelos satélites. Contribuirá o novo cardeal para que no seio da Igreja portuguesa se fale, do Pe. António Vieira, da poesia de Frei Agostinho da Cruz, das teses de Orlando Vitorino e de Leonardo Coimbra sobre a relação teologia-filosofia e de muitos mais temas afins? Só o futuro o dirá.

Eduardo Aroso
5-10-2019


quarta-feira, 2 de outubro de 2019


APRENDIZES DE GAMAS, MAGALHÃES E CABRAIS©

Sem carteira profissional e com bússolas avariadas (embora com gps muito pessoais) correm numa agitação de quem anda a fazer estágio para comandante de embarcações. Bebem um copo ali e outro acolá, e dão dois dedos de conversa. O seu lugar deveria ser nos estaleiros da nação, porque também aí se despacha correspondência e se desempenham outras tarefas. Trabalho de fundo seria mesmo ver se o casco do navio não deixa entrar água. Mas a obsessão pelo estibordo e bombordo (direita e esquerda da embarcação) leva-os a estados maníacos, e cada qual dizendo que um dos lados do navio é o mais importante, querendo fazer dele proa! Isto não fica bem numa classe profissional, ainda por cima de estagiários, que praguejam ainda antes do navio zarpar! Cada qual quer ter a façanha de chegar à Índia, isto é, quer a Índia para si: dispensando a canela e o marfim, pretendem apenas o ouro e, claro, para os familiares, o lugar de contador-mor nas alfândegas. Esquecem-se que a Índia já não é a do mapa, mas a que se pode construir no chão de cá, onde, tantas vezes, se fazem estranhos consentimentos.
Este fim-de-semana vão desfilar na “passerelle”, e ainda bem, pois se não houvesse passerelle seria muito pior…  Não deixe ao menos de dizer quem é que é vai mais bem vestido e quem, em caso de naufrágio, pode impedir de entrar água no navio.

Eduardo Aroso ©
(em dias de Interregno)
2-10-2019

sábado, 28 de setembro de 2019


SIEGFRIED E S. MIGUEL ARCANJO

Imortalizado na obra de Wagner, Siegfried é porventura o herói mais destemido dos mitos nórdicos, pois nem Wotan o chefe dos deuses, o impediu de ir rumo à verdade. É importante notar que os da mesma estirpe de Siegfried eram levados pelas Valquírias que conduziam os mortos que tombavam valorosamente no campo de batalha, o que nos deixa a pensar se nas presentes batalhas (embora a maioria delas não seja de espada de metal) as Valquírias ainda se disponham à sua nobre missão de conduzir à luz da verdade aqueles cuja coragem não os deixa ter medo. O que se deve sublinhar é que o intenso amor pela verdade é que expulsou o medo do coração de Siegfried.
Na tradição cristã ocidental S. Miguel Arcanjo (que se confunde com S. Jorge, venerado pelos britânicos) parece ser o “gémeo” de Siegfried, no seu atributo divino de coragem superlativa para matar o dragão, entidade que – seja qual for o simbolismo que dele se tome – o ser humano deve dominar para prosseguir na sua ascese espiritual. O dragão não é visto exactamente do mesmo modo nas várias culturas, sendo certo que constitui uma dificuldade extrema que deve ser ultrapassada se quisermos prosseguir na senda. Desde a ideia mais ou menos obscura que há no conceito de «Sombra», inerente a cada pessoa, perfilhado por certas correntes de psicologia; passando pela tremenda força-energia que existe na base da coluna vertebral (kundalini) que, despertada de modo incorrecto, pode ter um efeito nefasto; até à medonha e terrível entidade chamada «O Guardião do Umbral» que todo o verdadeiro Iniciado deve enfrentar e vencer.
Sendo inegável a beleza da narrativa de Siegfried, bem consagrada na poesia e na música, ainda assim prefiro São Miguel Arcanjo, pois, imbuído no pensamento ocidental, está mais próximo da nossa compreensão consciente, exaltado ser hagiográfico capaz de dominar o Dragão enquanto sinal de qualquer tipo de Mal.

Festa de S. Miguel Arcanjo, Setembro 2019
Eduardo Aroso

quinta-feira, 26 de setembro de 2019


IN MEMORIAM DE TODOS©

Que olhos eram esses
Que olhavam o chão e as raízes?
Terra prometida
Era a que vinha de pais e avós,
Não havia outra tão segura.
Garantidos eram sete palmos para todos.
O ajuste dos braços, o ritmo
Levantar e entrar na terra
O único tesouro
A enxada, uma lanterna.
Respirar já fazia crescer talos e folhas.
O suor água-benta quando vinha
Setembro para acrescentar sangue ao sangue
Carne à carne.
Só depois repousavam as águas das fontes.
O que às vezes os olhos choravam
Não se desperdiçava nos frutos
O destino feito de melaço e ervas amargas.
Que olhos eram esses que olhavam a terra?

Eduardo Aroso©
12-09-2019


quarta-feira, 25 de setembro de 2019


A TRADIÇÃO PORTUGUESA TEM RAZÃO SOBRE O SENTIDO FUTURISTA DA CRIANÇA

«O homem e a hora são um só» Fernando Pessoa
«The childhood shows the man, as morning shows the day» John Milton

As últimas notícias sobre o equilíbrio climático colocam-nos em presença de uma situação mundial, tão emergente como invulgar, tendo como protagonista uma adolescente que não constitui uma mera história de bairro ou de notícia fugaz, mais ou menos predadora da fragilidade da criança, e que daqui a pouco tempo possa ser esquecida, mas daquilo que Fernando Pessoa caracteriza com uma certeza fulminante: «O Homem [leia-se, obviamente, o ser humano] e a hora são um só». E sejam quais forem as condicionantes e a panóplia de interesses que possam rodear Greta Thunberg, atingiu-se o «ponto sem-retorno». Tendo ou não controlo emocional na radicalização das suas palavras (diz-se que tem síndrome de Asperger e não só), o certo é que bastaria pensar na capacidade de mobilização dos jovens à escala mundial, algo que nenhum político ou cientista pode fazer.
William Wordsworth (1770 – 1850) disse: «The Child is father of the Man», parecendo até ser pai de mudanças políticas necessárias. Antes, John Milton (1608 – 1674) tinha escrito: «The childhood shows the man, as morning shows the day». António Quadros, em «Portugal Razão e Mistério», discorrendo sobre a cerimónia do Bodo e da Coroação nas Festas do Espírito Santo (no reinado de Dinis e Isabel), citando Manuel Breda Simões, diz que a tradição tomou a criança para a chamada Tripla Coroação (ritual que singularmente ainda hoje se realiza no Penedo-Sintra), pelo que a criança «assumiria o papel de mediador… presença do ciclo do perpétuo rejuvenescimento…o Menino-Imperador, expressão da infância presente, faz-se acompanhar da infância passada e da infância futura», o que uma quadra anónima não desmente: «Uma criança se ergue/com critérios de justiça./ Acordai, homens, acordai/ p’ra esta nova milícia».
Desde que o ser humano, pelo aperfeiçoamento tecnológico foi sendo capaz de aumentar a sua eficácia de ganhar dinheiro com mais rapidez, explorando a Natureza (e outros seres humanos), como se ela fosse um ser morto, caiu no atoleiro do materialismo onde agora se encontra. Portanto, a vontade política, mesmo que consensual no que toca a fazer leis na defesa do planeta, não basta, porque o cerne do problema é mais complicado e, diga-se, é mesmo de ordem filosófica e ética, na base da economicista. Problema que podendo atenuar-se um pouco, com decretos e alterações nas constituições, não resolve o que já está bastante enquistado e acumulado. Ouso afirmar que o sentido simbólico que existe em Greta Thunberg, - tenha ela cara de zangada ou não, seja ou não motivo de interesses - é a ultima esperança da humanidade, na questão ambiental. Se assim não for, o mundo está perdido, porque nos adultos já ninguém acredita.

Eduardo Aroso
24-9-2019