domingo, 3 de fevereiro de 2013



SAUDAÇÃO

Limpamos as manhãs quando dizemos bom-dia!
Então o azul aproxima-se de nós.


Eduardo Aroso, 2-2-2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013



AMAR PORTUGAL  (3)  ©
Ainda há aves ou avis de Aviz para amar e compreender a afirmação pessoana «o nosso destino é sermos tudo». Os simplesmente intelectuais pragmáticos têm reagido de várias maneiras, vendo na frase uma espécie de nevoeiro baço ou um delírio nacionalista, sobretudo na época em que a economia parece ser o céu (logo transformado em inferno!) de tudo e de todos. Quer tenhamos ou não um conceito providencialista da História, a negação ou mesmo desconfiança da afirmação «o nosso destino é sermos tudo», pura e simplesmente é a negação de Deus, já que O limita! Ou seja, para estes, ser tudo parece não estar ao alcance de Portugal, matriz do V Império, podendo a lusofonia ser já a Fénix!
É compreensível que a civilização tenha delimitado os contornos da materialidade, as suas fronteiras, questões populacionais, novas estruturações políticas, sociais e de produção, delimitação e definição que aliás a experiência histórica foi ditando. Todavia, na dimensão do espírito, coexistindo mais ou menos lucidamente com a vida como a vivemos, «o sermos tudo» não pode ter o limite que só um raciocínio cartesiano ainda prende. «Ser tudo de todas as maneiras» significa que, provavelmente pela primeira vez, é a totalidade que se move e não apenas uma parte, seja apenas, por exemplo, um período histórico. Há aqui como que um movimento sistémico na sua inteireza, o que nos remete para um mundo de possibilidades nunca imaginadas; como se os próprios marinheiros de quinhentos  suspeitassem já do g.p.s. ou de outras tecnologias, mas intuíssem que o verdadeiro barco só zarpa se todos o empurrarem, e na hora certa, haja ou não o g.p.s.! É claro que é a partir do espiritual, invisível, se quisermos, que primeiro se opera a mudança para o visível. Daí eu ter referido, no meu primeiro texto, que Portugal é um arquétipo.
Não deixa de ser curioso que Portugal, no que ao espaço concerne, se compara ao processo homeopático de cura. Na diluição máxima, pode operar-se a máxima energia (e sinergia). A progressiva diluição do império territorial, desde a Índia a Timor e Macau, só pode ter sido benéfica para que agora opere, de um modo nunca visto, o espírito português. Só aqui chegados é que entramos na intelecção de totalidade da afirmação que nos deixou o poeta de Mensagem. Só aqui chegados é que podemos ir à gnose bíblica de «O Filho do Homem não tem onde reclinar a sua cabeça» (Mateus). Porque ter cabeça é muito melhor do que simplesmente não ter onde a reclinar. Diluído até onde possa ser, diluído também o nosso paradoxo - sempre com a possibilidade de ser fonte de luz para alguns – diluído no mistério do seu arquétipo, e a nação moída e macerada económica e politicamente. Só aqui chegados é que podemos compreender a possibilidade da manifestação superior da alma portuguesa que Pessoa colocou perante o alemão inteligente, Conde de Keyserling, sem que se saiba o que terá ele compreendido da carta do poeta.

Amar Portugal é não pensar silenciosamente que «o rei vai nu», mas compreender que agora vão todos nus!
Amar Portugal é deixar cair as escamas dos atrevidos vestidos de heróis!
Amar Portugal é deixá-lo respirar nos mais fundo dos pulmões!

Terras da Lusitânia a desbravar, em geminação com o resto mundo, 31/1/2013

Eduardo Aroso

terça-feira, 29 de janeiro de 2013



POEMA EM (DES) ACORDO

Nem texto nem contexto
Servem para ficar.
Limpemos a ortografia
Que nada tem para dar.
Nasce a flor de uma raiz
E por ela nasce a Língua;
Cuidemos desta criação,
Já chega de tanta míngua.
No escuro passo da História
A cada erro, um por um,
Não consintamos sentido
Ao que não tem sentido nenhum.

Eduardo Aroso
29-1-2013


domingo, 27 de janeiro de 2013



CAMÉLIAS

                       
Mais brancas que a neve
E frias como a distância.
Já não existem mãos leves
Que estremeçam a raiz.
Agora nem os pássaros
Nem a ânsia da terra
Que silenciosa nada diz.


Eduardo Aroso, 27-1-2013

terça-feira, 22 de janeiro de 2013



O meu primeiro livro, 1982.

LÁPIS DE COR

Professor!
Quero fazer um desenho,
Mas não tenho o lápis de que gosto.

Quero pintar dessa cor
Com que ficam os olhos dos meninos
Quando sabem a lição!

(poema de abertura)


Eduardo Aroso









« (...) Por isso me surpreendeu a excelente tentativa de Eduardo Aroso (?) onde o ritmo é saltitante, caprichoso, quase como o de quem anda ao pé-coxinho ou quer salta à corda» Adolfo Simões Muller, escritor e Director das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian (24-3-1981).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013




AINDA E SEMPRE   ©

«Ainda» - dizia ontem a canção!
Sim, tudo está por fazer
Com os pulsos na terra
E a esperança a arder.
Tudo se fará novo padrão
Do Portugal vagueando ao desnorte.
Até na madrugada mais fria
Arde a vontade de negar a morte!

Escrito por Eduardo Aroso
em 18-1-2013


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013



AMAR PORTUGAL  (2) ©

É difícil esquecer a República de Platão, a Política de Aristóteles, ou mesmo Da Monarquia de Dante. No Portugal de hoje nem o rei dança com o povo, nem a república é a res publica. Nem Terreiro do Paço nem praça pública. Daí termos que dançar de novo o corridinho do sonho, ou o fado maior de voltar a ter governação que nos sente outra vez no bodo do Espírito Santo, onde os necessitados sejam servidos antes de tudo e todos, como nos foi dado o exemplo em Alenquer pela Rainha das Rosas e do «plantador de naus a haver» Erguer, assim, padrões de carne viva e não outros que agora não educariam as almas desnorteadas.
À parte o imprevisto que dita por si, sem o apelo do curso dos dias, o que se deve ir fazendo é que a palavra revolução revolva muita pedra sobre heróis injustamente sepultados; revolva muito livro fechado que se deve reler; revolva muita energia parada mas ardentemente voluntariosa e sobretudo que as iniciativas, parecendo impossíveis, sejam vistas como uma espécie de santidade de olhar e de sentir. Parecendo impossíveis, se dirijam ao céu para que do próprio céu desça a nave ou a aluz que a todos proporcione a obra.
A nossa terra está santificada pelo simples facto de termos nascido nela; do mesmo modo ninguém ousa destruir voluntariamente o berço que o viu nascer. A canção brasileira fala do «país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza». A terra portuguesa deve ser diariamente sacralizada, como justa retribuição de nela habitarmos e, quer alguns queiram ou não, há um ritual quotidiano, ainda que os pés a pisem e as mãos de muitos se sujem moralmente por causa de partições e repartições deste altar natural que suporta o corpo de cada português.
O mar temo-lo como um incenso, na nossa alma vaporosa. Porém é no enigma da orla, no ponto de chegada e da partida que reside o mistério, quando princípio e fim se tocam e se fecha a circunferência, a revolução mais completa. D. Sebastião, temo-lo cá. Os desejados já estão entre nós, os jovens – e quem dera que mais houvesse. A eles, e por amor à pátria, não se mandem embora compulsivamente! Que não seja a partida dos escorraçados, se todavia a viagem é inevitável por apelos de outros destinos, os tais que podem ainda não constar nos mapas e nos roteiros. Não tornemos os nossos jovens indesejados perante a nação!
Amar Portugal é nunca deixar de acreditar na tradição popular que diz «Alma até Almeida».
Amar Portugal é nunca deixar de respirar na esperança de que nos ronde um rei oculto ou um presidente desejado.
Amar Portugal é corrigir o erro público, o desconhecimento do nosso melhor, porque não cabemos num ficheiro ou dossier de Bruxelas ou de qualquer outro escritório.
Portugal, Janeiro, 2013
Eduardo Aroso