quarta-feira, 17 de abril de 2013



POEMA DA FACA

(Em jeito de posfácio ao posfácio
de António Cândido Franco a Contramina de Ruy Ventura)

Em todo o caso ela divide a força
Corte dissonante chamando o ser,
Antítese além-sangue
Para mais ver.
Impossível é separar a alegria
Chispa do momento,
A circulação maior que ninguém corta
Nas artérias intocáveis do vento…

A faca ressurgiu, Fénix primeira,
Existindo para cortar a rima do mundo
Separando de abundância a poesia!
A verdade da voz que há na faca
É maior que o seu tamanho:
Antes do punho e da ponta
É o modo como corta ou fala.

Eduardo Aroso

(Coimbra, 16-4-2013
Apresentação de Contramina de Ruy Ventura na Casa da Escrita)

Publicado a 1ª vez em

domingo, 31 de março de 2013


MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS
No sepulcro fundo
Esquecido do tempo,
Sopra a memória
Suave do vento.

A Hora é sempre
Nossa e viva.
A viagem que lavra
Do Alto é vista.

A pedra resiste
Desperta,
Vigilância extática
Alerta.

Se o profano
Grita,
O arcano
Rectifica.

(36 anos depois da 1ª edição de «História Secreta de Portugal»,
de  António Telmo)

Março de 2013
Eduardo Aroso

Publicado a 1ª vez em
http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2013/03/22/homenagem-a-antonio-telmo-um-poema-inedito-de-eduardo-aroso/

sexta-feira, 1 de março de 2013


HABITANTE SENSÍVEL de Eduardo Aroso (Universitária Editora, Lisboa, 1997)

Com prefácio do poeta de Salamanca, José Ledesma  Criado, e um texto da Profª Carolina Michaëlis de Vasconcellos - Berlim, 15/03/1851-Porto, 16-11-1925 -, que Joaquim de Montezuma de Carvalho encontrou.



Naturalidade

Berço do primeiro dia,
Mel do cobertor.
Ao gemido solto
Respondeu-me o rio,
À hora matinal;
Amor comprometido,
Além do leite maternal.

Hoje cobre-me a névoa,
Impurezas do dia a dia.
Por que se esconde a tua face
Se quero cantar-te de alegria?
Há um rumor que eu sei
E a pura sementeira
De um sábio Lavrador.
Ó Coimbra ainda a desfolhar...
Creio em ti na euforia
Da luz clara de outra lua cheia!

(1º poema do livro)

Eduardo Aroso


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Bucólica de poetas
 
Todo o possível alimenta o sonho
Que se doira pela tarde no eirado.
A coroação das raízes
Faz-se ao sol quando a palavra aquece.
Todo o fruto amadurece
E a doçura faz dele uma varanda.
As nuvens içam-nos para o alto
A outra luminosa terra, verde prado,
Onde as próprias cabras
Pastam no telhado.
 
Eduardo Aroso

15-2-2013

Publicado em 15-2-2013, pela 1ª vez em

http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2013/02/15/um-poema-inedito-de-eduardo-aroso-6/

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


AMAR PORTUGAL (4) Da Compulsão Religiosa do Português   ©
Nietzsche disse lapidarmente que o jornal diário veio substituir a missa da manhã. Esvaziada hoje por obscuros e labirínticos corredores, quando não por nítida perversão do sentido informativo, esta espécie de “missa laica” desfolhada em páginas da imprensa em papel, parecer ter passado para o facebook e para o telemóvel, sem que esteja a salvo a sua permanência desta maneira.
Há assim uma deslocação para a busca diária de algo onde também somos convidados pelo constante e pendular movimento de rotação da Terra. Querer saber notícias (estabelecer pontes entre o mundo do outro e nós próprios), é também outra inquietação de religiosidade, seja religare a terra com o céu, ou o homem de fora com o seu céu interior, a que alguns chamam alma. Tudo isto independentemente da igreja a que pertença ou não pertença. Esta compulsão interior, amortecida de várias maneiras, instintivamente quer acompanhar um outro ritual que é o do alvorecer, da saudação ao sol como palavra (sinal) de esperança e de conforto, dados pelo mais visível rosto da Vida.
No caso português junta-se uma outra possibilidade da continuidade do ritual, seja no quintal, seja na praia, não apagando assim de todo peculiares e ancestrais vivências pagãs. Sempre que tem folga, o português elege a natureza como intermediária entre o fastidioso e cada vez mais complexo mundo do trabalho e a sua compulsiva divindade, que vê e sente nas ondas, nos ventos e até na indecisão das dunas onde inconscientemente pode confundir um D. Sebastião com um pescador ou uma sereia! Hoje, o português toma a natureza não como altar voluntariamente preparado, não por dentro ao modo de Frei Agostinho da Cruz ou de Pascoaes, mas pela dádiva da ondulação à vista, a conversa ao lado do farnel e as gaivotas sobre a areia e alguns biquínis. É assim neste templo natural e instintivo, que fica a meia distância de outros de arquitectura antiga ou contemporânea. E, se não quer estar parado, prefere ser caminheiro a uma romaria ou a um santuário, tendo o melhor exemplo o de Fátima. No português habita a sensação – preguiçosa e espreguiçada ao sol – de ser filho do céu, o que amolece e lhe completa mais o perfil dos «brandos costumes». Religiosidade, ora grácil ora amortecida, que tende a diluir-se na vibração. Colectivamente, o seu sentimento religioso nunca foi confrontado com a tese da mística castelhana de um Juan de la Cruz, a da noite escura da alma, quando Deus «oculta a Sua face». Nem nos sessenta anos de domínio filipino, nem paradoxalmente em face dos horrores elementais do Adamastor. Dir-se-ia que, para o português, a natureza o consola, ao mesmo tempo que lhe amortece a sua inquietude religiosa própria, forjando assim a sua brandura de costumes, ao invés de interpelar Deus com algum furor como o faz, por exemplo, o germânico, cujos resultados da indagação chegam por canais de outra ordem nem sempre benignos.
Amar Portugal é criar espaços portugueses dentro dos espaços indiferenciados.
Amar Portugal é não lhe desfigurar mais o rosto, denunciando a vil inestética que grassa tocada pelo vil metal.
Amar Portugal é tornar português tudo o que nasce aqui filho dos sem-pátria e sem sentimentos que não sejam os de rapina, isto é, do que se manda vir de fora para a nossa escravização, em vez da realização plena como foi prometida, há séculos, em Ourique.
Eduardo Aroso
13- 02-2013 (efeméride de nascimento de Agostinho da Silva)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


REENCONTRO

A terra veste-se de vários modos consoante a época do ano.
Mas não põe máscaras.
Hoje tomei-lhe a epiderme.
E na seiva da raiz dos limoeiros
Que me deu através das minhas mãos,
Senti que era a maneira mais autêntica de me beijar.

Rio de Vide, 12-2-2013
Eduardo Aroso

domingo, 10 de fevereiro de 2013



CELEBRAÇÃO

      À Maria Toscano,
      de poeta a poeta

Arde-nos o sol nas mãos
Quando a palavra se lavra,
Consentida.
Sabemos da relação natural
De giestas e neurónios;
Do suor oculto da humanidade
Na busca da perene ideologia.
Comungamos do sem cansaço de estar de pé,
Do primeiro vómito criador da terra
Na memória antiga dos silêncios contidos
Com um timbre de voz
Que se derrama por todos os sentidos.

No Café Montanha (Coimbra),  em 29-1-2013

Eduardo Aroso