sexta-feira, 13 de setembro de 2013


NATÁLIA CORREIA
OU AS ÁGUAS DA MÁTRIA ©

Da ilha sem dimensão
É que vieste,
Solitária, nua e bordada
Da veste branca dos deuses.

Enluarada de um fado
Timbre atlântico,
Névoas distantes
Do oceano futuro
Ainda sonhado...

Quando esmorece
Das águas o rumor,
Ó Tágide sempre, destino nosso,
Vens tu fantasma benigno por amor!

13 de Setembro de 2013
Eduardo Aroso ©

quinta-feira, 5 de setembro de 2013




ENTRE DUAS CHAMAS

 
A chama de fora
Não é a de dentro:
A primeira destrói;
A segunda, alimento…

 
A chama de fora
É loucura do mal;
A luz de dentro
Alma de Portugal.

 
A natureza verde
Fizeram-na inferno.
Não perece o sonho
No céu eterno.

 
Entre vale e outeiro
Os trilhos da cruz.
Com chama ou sem ela
Só Deus conduz!

 
Eduardo Aroso ©
Setembro, 2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013


CEMITÉRIO DE TELEMÓVEIS ©
 
Aqui jazem!
Nenhum deles viveu
Para amar o próximo...


Eduardo Aroso ©
Agosto de 2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013


POEMA DAS SEMPRE BEM-AVENTURANÇAS ©

 

            A Roberto Costa

 

Bem-aventurados os livres que na sua condição

Içam dos pântanos escuros

Os que ainda labutam na opressão.

 

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça

E se esforçam por derrubar da mentira os muros,

E sangram nas veredas da pesquisa,

Às vezes feridos na luta

Dos processos em apuro.

 

Bem-aventurados os que persistem

E resistem na senda da verdade

Ainda que no fim tenham que dizer

«e no entanto ela move-se…»

 

E os mansos cuja mansidão

Escorre do suor de cada mão,

Do rosto e da pele quando lhes tocam

Os calafrios da fome e do abandono;

E os justos que corrigem um troco de dinheiro,

Por engano mal feito,

E nas coisas do Estado vão pelo caminho mais estreito…

 

Bem-aventurados esses sentindo que o fulgor de uma intuição

Atravessa as enciclopédias surdas à voz da profecia,

Gritando pela actualização necessária de cada dia.

 

Bem-aventurados os que reúnem passado e futuro

No ápice iluminado do presente,

Os que sabem hoje do destino inevitável

Do muito que nos serve

Ser tão-só matéria reciclável!

 

Bem-aventurados os que choram

Rios que passam nas cordilheiras do apuro,

Águas ansiosas do oceano da paz,

Lágrimas como raios de sol

De um novo dia que a madrugada traz.

Os que choram o sal desta e qualquer idade,

Os que choram como um poema

Escrito pela rosa oculta da saudade.

 

Bem-aventurados todos, filhos da luz,

Semeadores de sóis por haver,

Asas do porvir, esperança em propulsão,

Os do gesto inteiro,

Que sonham com a Criação.

Na ânsia mais alta:

A busca do verbo último e primeiro!

 

Escrito por Eduardo Aroso ©

Agosto de 2013

 

domingo, 21 de abril de 2013


NA MEIA JANELA DA LIBERDADE SÓ UM COMBOIO PASSA
Trinta e nove anos para abrir a meia janela da liberdade. Há migalhas no parapeito, junto às cortinas rasgadas, onde se dá de comer às aves do céu… E vêm muitas. Passam horas, dias, e a febre sobe, sobe, fazendo rebentar as flores (e talvez as veias) desta primavera. Os comboios não passam, a não ser o «comboio descendente» de Pessoa, onde «riem todos à gargalhada». É o comboio em queda livre. A liberdade é um quisto de que não se cuida. Nem do pão que a alimenta, do suor do rosto justo e responsável.
Já sabemos de que lado nasce a noite: do farol fundido, junto à torre maior da freguesia; e mais a norte no mapa do continente que engana quem não lhe conhece a cronologia. Já sabemos como a noite nos envolve no silêncio réptil da volta seguinte ser sempre mais apertada. Falta encontrar a chave para esconder de vez o papão lá ao fundo, no quarto das inutilidades.
«E depois do adeus…» longa é a espera. Valha-nos Deus!
Escrito por Eduardo Aroso em 21-4-2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013



POEMA DA FACA

(Em jeito de posfácio ao posfácio
de António Cândido Franco a Contramina de Ruy Ventura)

Em todo o caso ela divide a força
Corte dissonante chamando o ser,
Antítese além-sangue
Para mais ver.
Impossível é separar a alegria
Chispa do momento,
A circulação maior que ninguém corta
Nas artérias intocáveis do vento…

A faca ressurgiu, Fénix primeira,
Existindo para cortar a rima do mundo
Separando de abundância a poesia!
A verdade da voz que há na faca
É maior que o seu tamanho:
Antes do punho e da ponta
É o modo como corta ou fala.

Eduardo Aroso

(Coimbra, 16-4-2013
Apresentação de Contramina de Ruy Ventura na Casa da Escrita)

Publicado a 1ª vez em

domingo, 31 de março de 2013


MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS
No sepulcro fundo
Esquecido do tempo,
Sopra a memória
Suave do vento.

A Hora é sempre
Nossa e viva.
A viagem que lavra
Do Alto é vista.

A pedra resiste
Desperta,
Vigilância extática
Alerta.

Se o profano
Grita,
O arcano
Rectifica.

(36 anos depois da 1ª edição de «História Secreta de Portugal»,
de  António Telmo)

Março de 2013
Eduardo Aroso

Publicado a 1ª vez em
http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2013/03/22/homenagem-a-antonio-telmo-um-poema-inedito-de-eduardo-aroso/