segunda-feira, 11 de novembro de 2013


AFORISMOS DE IMANÊNCIA (2)

 
Uma nação com quase nove séculos de História não pode ser um «haiku». Na verdade, a nossa epopeia não cabe em três versos! Camões demonstrou isso nos Lusíadas, antes mesmo de ser necessário fazê-lo. ©

 
11-11-2013
Eduardo Aroso

domingo, 10 de novembro de 2013

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (1)

Por que será que poucos reparam no fantástico tempo que vivemos que, de tão intenso, nos deixa negativamente perplexos?
16:25 h
10-11-2013 
Eduardo Aroso 

sábado, 9 de novembro de 2013


A DISTÂNCIA, O TEMPO E A «VERDADE DO AMOR» DE SOLOVIEV

 
Sobretudo nas últimas décadas, vencida relativamente a distância pelos meios que estão à vista, bem mais difícil se torna vencer o tempo, já que este, ao contrário da primeira, parece ser o efeito de uma metamorfose da matéria. O corpo humano desgasta-se mais no tempo do que uma rocha e do que o próprio sistema solar que permanecerá ainda milhões de anos!

Mas a busca para vencer o tempo continua, porque, em boa verdade, já há muito sabemos que existe um tempo objectivo (Cronos) e um tempo subjectivo (que pode ser atribuído a Urano). É bem conhecida a imagem clássica da sensação de tempo tão diferente que decorre quando dois namorados passeiam agradavelmente ou a de um condenado numa prisão. O domínio do tempo – inquestionavelmente uma ambição máxima do homem – parece estar relacionado com o mergulho num ponto central, de onde tudo emana, na imagem da circunferência com o ponto. O Tao diz-nos algo sobre isso bem como a filosofia rosacruz (dada por Max Heindel) que na sua Cosmogonia refere que (ao contrário de um “light new age”)  os mundos não são paralelos, mas concêntricos. Neles a sensação de tempo depende da vibração desses mundos: quanto mais denso (o caso do nosso mundo físico) mais sensação de tempo.

 Mas é nele que estamos. Nicolau Berdiaeff (1874-1948) em «Cinco Meditações sobre a Existência»  examinou habilmente – e de um modo nem sempre fácil para o leitor – a velha e nova questão do tempo. Mas já que falei num ponto central, há que falar também de V. Soloviev (1853-1900), quando trata o tema do amor. No fundo, é ele que tudo regenera, e diria que regenera todos os tempos nas clássicas formas passado presente e futuro, porque, assim, até este último se constrói melhor. E o que pode parecer mais estranho - mas não tanto! - é que o Amor é algo sempre existente, não dependendo da acção humana, para começar ou acabar; apenas nos momentos mais fatais pode ser interrompido ou modulado.

É claro que não se trata do sentimento da grosseira expressão “fazer amor”, que tomou conta de nós numa das maiores ilusões do relacionamento entre pessoas.  ©

 
Eduardo Aroso, 9-11-2013

 

sábado, 19 de outubro de 2013


VINICIUS ENTRE NÓS

Tropical,
Dizias
E cantavas.

O sol adormecias
E a lua acordavas.
No cristal do copo
Vinho sincopado.

No café com pausas
Via-se a mulher
Soneto aromático.

Dissonante tropical
O acorde-acordo
Modulando saudade
Brasil e Portugal.

Eduardo Aroso

19-10-2013
(Centenário do poeta-compositor)








sexta-feira, 4 de outubro de 2013

NA CAMA DE UM HOSPITAL ©

 
Um horizonte branco inclina-se sobre nós.
As nuvens existem mas não mancham
O delicado pano
Tecido para abrandar a dor.
Dia e noite as manhãs são muitas
Quando ouvimos um sussurro:
Vai ficar melhor!

 
Coimbra, 4-10-2013
Eduardo Aroso

segunda-feira, 30 de setembro de 2013


O SER E O PODER - RESCALDO DE UMAS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS

(OU A ENTREGA DE TESTEMUNHO PERANTE AS CAMADAS DO TEMPO)  ©

 
… Mas só um sonho maior, de um arco de trezentos e sessenta graus, pode ser o móbil de convergência do povo português; apenas com a percepção, seguida de esforço, de um projecto verdadeiramente assente na nossa natureza potencial, seja o modo próprio de fazer e divulgar cultura, seja a eficácia de um aproveitamento global emergente daquilo que geneticamente somos e flui - quando não é obstruído - na força de trabalho. Diversidades as nossas, de sempre (uma forma mais estável de riqueza), começando pela geografia deste pequeno rectângulo («nesga de terra debruada de mar», como lhe chamou Torga) que em poucos quilómetros vai da lezíria à planície ou da plasticidade do litoral ao granítico interior; a diversidade feita do convívio multirracial e intercontinental, lusa identidade com a génese no tronco cristão, hebraico e islâmico (berbere). Pelo que, a diversidade deve, como inteligência, ser gerida como tal, na visão superior que deve estar presente naqueles que lideram.

Assim, de que modo este «nada que é tudo», como acentuou Pessoa, se poderá fazer um Portugal mais presente numa Europa tão ausente? Muito a propósito destas eleições, é acutilante o que escreveu Adriano Moreira no DN já em 17 de Setembro: «Grande parte das alienações que se vulgarizam tocam nas raízes das comunidades e, portanto, na sua identidade. Nas crises brutais por que Portugal passou nestes já longos séculos, foi a segurança da identidade da sociedade civil que permitiu reconstruir um novo futuro».

O sonho nunca foi inatingível, mas é certo que tem sido método seguro construir do perto para o longe, caminhar do conhecido para o desconhecido, e, por isso mesmo, a vera cultura política em Portugal deve começar por estudar a nossa longa e rica tradição municipalista (termo que se deve sobrepor a autarquia). E é da responsabilidade dos municípios, juntas de freguesia, escolas e outras instituições, essa tarefa tão bem colocada há já algumas décadas pelo filósofo Afonso Botelho na sua obra ímpar «Origem e Actualidade do Civismo».

 O que temos vindo a assistir nas últimas décadas, nas relações dos governantes com o povo, são posturas visceralmente antiportuguesas e contra a natureza (o mesmo é dizer contra todos os seres) de indivíduos de uma cultura híbrida mal enxertada (quando mesmo sem enxerto nenhum), de projectos que trazem carimbos de Bruxelas; de gente que gosta de tapar relva com alcatrão; posturas e modos de agir (salvo as excepções que felizmente não são tão poucas!) que têm laivos faraónicos, quando, a todo o custo, se quer deixar o nome, a data e mais não sei o quê, nas pirâmides de cimento de cada localidade (só ali não fica mausoléu por impossiblidade). Ou quando o espírito iletrado, degeneradamente burguês, confunde um vitral com os azulejos de uma casa de banho.

 A iniciativa individual, legítima de quem dirige e gere, é uma inteligência que ainda se confunde com o dever de gerir prioritariamente a inteligência do cidadão. Mas nisso sempre houve um obstáculo, esse que o vate Luís de Camões, sabendo dos ventos de todos os tempos, bem conhecia ao escrever a última palavra de «Os Lusíadas».

Seja qual for o poder, de uma pequena comunidade ou mais centralizado, seja o de um mandato local de uns poucos anos, ou o de períodos históricos dilatados, ou corrigimos os vícios (de casa pequena de quando o império era grande) e agimos em consonância entre a epiderme de fazer transpirar e o anímico do «tudo vale a pena», ou a alternância de poder é sempre a mesma fotocópia mais ou menos desbotada.

 
© Eduardo Aroso, 30-9-2013       

 

 

terça-feira, 24 de setembro de 2013



CIDADE  AQUI  ©

Há esta distância na cidade:
Entre quem vive e o vivido
Entoa o mesmo e diverso tempo
Um sussurro leve de saudade,
Mas não chega para o afinco
De sermos filhos da voz do vento.

O rio é que faz correr o elixir,
E dizemos que a urbe está no sangue
O de Inês
E de muitos outros que vai secando nas veias
Por não ter por onde fluir.

Há esta estranha página colada
Que faz a viragem errada.
A distância da cidade
É o aroma que se perde
Entre a rosa e o caule.

 
Coimbra, 24-9-2013
Eduardo Aroso