sábado, 21 de dezembro de 2013


VISÃO DE NATAL ©

 
Não falo desse amor,
O pior do deserto
Que não vai além de pó.
Digo da palavra que alumia
E lavra na madrugada do coração
Do homem só que há-de ser dia.

Na pedra fria do mundo,
Só podemos esperar o braço do canteiro,
Movimento nosso, peregrinos sobre as areias.
Rompe a chispa na hora misteriosa do solstício
E toca-nos os olhos e a alma nas suas estranhas veias.
É por isso que da pedra vemos sair a flor de luz
A seiva invisível para o mundo inteiro.

 
Natal, 2013
Eduardo Aroso

domingo, 15 de dezembro de 2013

NADIR AFONSO
(In memoriam) ©

 
O ponto.
Sempre.
De início ao fim.
A linha também,
As sinapses
Do complexo absoluto.
O movimento dentro
Tem o mínimo de fora.
Ilude-se a forma
No pulsar da vida.
Agora
O ponto
(Final ou não)
Do reencontro.

 
Eduardo Aroso

12-12-2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (10)

 
Para entender o regresso dos deuses, o aceitar da luz do sol  terá que ser feito como uma oração, e não apenas enquanto informação metereológica que atrai mais turistas. ©

 
11-12-2013
Eduardo Aroso

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013


AFORISMOS DE IMANÊNCIA (9)

 

Com muita frequência, a dificuldade de relacionamento de duas pessoas resulta de que qualquer uma delas está sempre ansiosa por abrir uma porta no sítio errado, quando devia entrar por aquela que já estava aberta há muito tempo. ©
 
5-12-2013
Eduardo Aroso

 

domingo, 1 de dezembro de 2013


AFORISMOS DE IMANÊNCIA (8)

 
No amor, ou voamos como os pássaros ou ficamos em terra a falar de ninhos. ©

 
1-12-2013
 
Eduardo Aroso

quinta-feira, 28 de novembro de 2013


O SORRISO E O APOIO

 Os anciãos passam. Têm o único apoio na bengala que, de tão frágil, já nem pode ser instrumento de defesa! O chão foge-lhes e às vezes acontece escorregarem nas folhas oleosas dos descuidos urbanos, ou obrigatoriamente nas outras, as folhas deslizantes do calendário. Todavia, olham o mundo. Sorriem ainda. Chamam os pássaros para cima dos bancos do jardim, ou simplesmente à sua memória os da já longínqua infância, que se cruzam com as aves de agora, obrigadas a recrutamentos nos espaços da ecologia.
Os anciãos sorriem e estremecem quando vêem uma criança. Talvez como a tarde se comove com a manhã no que tem de igual e de diferente. Por não falarem já tanto,  sorriem, olhando através das árvores, onde tudo é nítido: o que passou e o que há-de vir. Nesta idade sorriem apenas com um único motivo: a vida justifica-os e dá-lhes inteira razão por vê-los corajosos, à frente, na grande maratona!©

 Eduardo Aroso

27-11-2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013


 
AFORISMOS DE IMANÊNCIA (7)
 
 
A energia de sobra que há nas ondas da costa portuguesa contrasta com a nossa actual escassez de força anímica. É a exaltação de Marte e Neptuno (a quem todos obedeceram, como cantou Camões) contra a imobilidade depressiva de Saturno. Até que o desespero de enfrentar de novo o Adamastor nos crie, outra vez, o ímpeto, como também cantou o vate em Os Lusíadas: «Olhai que ledos vão por várias vias»  ©
 
Eduardo Aroso
Novembro 2013