segunda-feira, 14 de abril de 2014


 MARGINALIDADE – o que te fizeram!
Como quase tudo actualmente, seguiu ela também a tendência de a nivelarem pelo mais baixo. O que caracteriza a saudável marginalidade do ser humano são - ao contrário do rio que tem apenas a margem esquerda e a margem direita – múltiplas formas de criar em desejada originalidade e de se expandir, em face de um clima sócio-cultural oficial ou oficializado, que faz sempre os seus prosélitos, que, com o passar do tempo, vicia e degenera quantas vezes sem atingir a verdadeira ortodoxia ou incisão histórica.

Na sociedade portuguesa parece existir apenas um modelo legítimo, por isso aglutinador, dos que discordam do nítido mal-estar, do não pensar, do mau governar. Curiosamente, é esse modelo que em certos momentos, um pouco à semelhança de certa rotatividade democrática, colhe frutos ocasionais e aprecia muito recebê-los!...

No nosso panorama cultural, quer antes quer depois de Abril, os que tentaram arduamente fugir desse paradigma não têm sido aceites da mesma maneira que os referidos de certa rotatividade. O chamado grupo da «Filosofia Portuguesa», marginal desde sempre, está entre esses. Quem conhece a sua génese, o caminho percorrido, verá que, à parte uma ou duas figuras que a alguns “dá jeito pôr na lapela” nunca são tidos para nada, nem para reforçar outros marginais ao sistema - e muito menos os seus textos são estudados nas universidades.
Mas a condição humana de marginalidade não é a mesma do rio com as suas duas margens.

Eduardo Aroso, 14-4-2014

sexta-feira, 4 de abril de 2014

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (19)

Sabemos que, de um modo ou outro, o ser humano sente. Tem-se dito, redutoramente, que o poeta é o artífice das palavras. Mas há o «plus ultra» de tudo isto, para se dizer que o poeta é, pelas palavras, o artífice do pensamento, essa nave maior que festeja e transporta todos os sentimentos na mais bela viagem.

Eduardo Aroso,

 4-4-2014

domingo, 23 de março de 2014

 
PARADOXO GEOMÉTRICO ©

 
                         Para a Cynthia,
                         que sabe das cores do vento

 
Entre palavra e silêncio
Não há exacta simetria.
Nesse ponto
Nunca calculado
Brota a emanação redonda
E completa
De criar
Para ambos os lados…
Liberdade do vento
Nos pontos cardeais
De todos os fados…

 
Eduardo Aroso,
Primavera de 2014

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (18)

O maior problema subjectivo do solitário, contra a sua vontade, ou talvez já em depressão, é não admitir que muitos outros posam viver a mesma situação típica. Ou seja, o solitário pensa sempre que é o único. Mas por uma forma de entendimento ou um salutar modo de comunicação com outros, ele pode ter uma forma redentora de compreensão de si.

Eduardo Aroso, 22-3-2014

quinta-feira, 20 de março de 2014

EQUINÓCIO DE MARÇO
 
A primavera é a queda do trono de uma rainha ilegítima chamada morte. Nem sequer esta tem tempo de abdicar.No calendário cósmico, a cadeira-toda-poderosa-da-vida é ocupada pela mais bela princesa. Diz a lenda que ela não tem princípio nem fim, apenas se mostra em mágicas metamorfoses quando chega o tempo certo. É a amada de todos. O ser humano pode sofrer muito até encontrar o fio de Ariane para sair do labirinto. Todavia, a primavera é fatalmente esse fio que a Vida toma sempre numa espécie de perpetuação. Princesa já rainha celeste, mais bela que Nefertiti e mais sagrada que um profeta. 
Eduardo Aroso, 20-3-2014 

segunda-feira, 10 de março de 2014


 
AFORISMOS DE IMANÊNCIA (17)

 
O mito da eterna juventude é na verdade um grito do espírito que encontra obstáculo numa parede chamada carne. ©

Eduardo Aroso, 10-3-2014

quinta-feira, 6 de março de 2014


 
HOJE ©

Um sol de oiro
Abre-se sobre o rio.
As margens cintilam
De salmos primaveris
E uma voz antiga desfolha
Pétalas de amor.
Ouve-se de novo:
«São rosas, senhor!»

 
Coimbra, Santa Clara, 6-3-2014
Eduardo Aroso