sábado, 27 de setembro de 2014


CORPO DE RAÍZES

As recordações são como um mercado pela manhã
Ou o trânsito numa hora de ponta:
Atravessam-me a alma
Vezes sem conta.
Não me posso alhear
Deste cerco do passar do tempo,
Ninho vazio onde se imagina o pássaro.
Uma chamada no escuro
Que dói nos ouvidos
E vai sendo invisível,
Este gritar dentro
E já sem diálogo possível.

 
Rio de Vide,  27-9-2014
Eduardo Aroso ©

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (24)

O ser humano é um poço de sentimentos. Quem tira a água do poço, sem desperdícios?

Eduardo Aroso
18-9-2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014


SILENCIOSA RESISTÊNCIA  ©

Sobre o pó do mundo
O sémen da esperança.
A Terra espera
Para o acto sério
Sem contrato prévio.

Tudo isto há-de chegar
Com a música das lágrimas
A dar melodias de mel,
Onde brinquem crianças
Como quem anda para baixo e para cima
Nas pedras da calçada.

O que há de belo quando abre
A primeira flor da madrugada!

 
Eduardo Aroso
8-9-2014 ©

 

 

sábado, 23 de agosto de 2014

INTERNATUREZA

Há o muito e o incrível no youtube,
Mas falta-lhe o mais que não tem
E de sobra o menos para se ver.
E é isso que nos ilude
Na sensação-ausência de não haver
O som contínuo da manhã,
A floração da tarde,
E apesar das noites plácidas
As flores sempre-vivas.

 
Eduardo Aroso
23-8-2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014


FRANCISCO MARTINS

 
Afastados são os dedos
Na penumbra luminosa
De haver viagem,
Largada cedo.

Mas à saída da barra
Fica sempre a boca da guitarra
- O som
Redondo e macio,
Plácida lua cheia.
Ou gaivota que vem e poisa
Preenchendo o areal vazio…

 
Eduardo Aroso
27-7-2014

terça-feira, 15 de julho de 2014


VER E (PRE)VER

No «I Ching» encontramos a essência de muitas das modalidades da psicanálise actual, porque as repostas que o antiquíssimo tratado chinês nos pode dar já estão todas dentro de nós. A questão é sempre o indutor, seja o livro no que transmite, ou o analista. O misterioso ser humano, embora a deseje, tem sempre relutância de ver a verdade nua e crua por si – neste caso dentro dele mesmo – pelo que a indução é como que um amortecedor. O mito de «Psique e Eros» é a expressão do amor entre uma mortal e um Deus. No caso da relação do ser humano com o «I Ching» é como se o mito fosse não o de «Eros e Psique», mas de «Psique e Psique», ou seja, o diálogo da alma com ela própria, apenas necessitando de uma indução.

Eduardo Aroso

13-7-2014

sábado, 5 de julho de 2014

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (23)

O atrito que o sol faz, descendo sobre o horizonte no mar, chama-se beleza.

Eduardo Aroso
1-7-2014