segunda-feira, 13 de outubro de 2014


«SER OU NÃO SER [CEGO], EIS A QUESTÃO»

 Ao contrário do que se diz, não creio que a justiça e o amor tenham que ser cegos. A primeira, se alguma coisa tem de cega, não pode enxergar bem a razão toda, restando ainda saber até onde vai essa cegueira: se apenas física, ou se toca noutros “neurónios”.

Quanto à cegueira do amor, não contrario Pascal. No entanto, talvez não se tenha ele lembrado de outra palavra quando fala das «razões que a razão desconhece». Mas isso – no fundo, um engano verdadeiro! - valeu-lhe a celebridade da frase, pelo jogo linguístico.

Bom, mas nesta matéria deixo isso para os especialistas, isto é, para os oftalmologistas do coração, o que complica as coisas, porque diz-se que os olhos são o espelho da alma, a menos então que esta tenha uma ligação directa ao coração! Mas que menosprezo pelas estrias das mãos que são flores de carinho, quando estão junto de nós e são o centro do mundo, hastes de segurança; bandeiras de esperança, quando nos acenam de longe.

Eduardo Aroso

sexta-feira, 10 de outubro de 2014


OS PLANOS E OS DANOS

Condenai-me pelo ar que respiro,
Ó vós que tendes a gestão planeada
Dos planos de sustentabilidade
E daquilo que a crise rende.
Até quando a misericórdia do universo
Vos escuta e vos consente?!
Um vírus terrível entrou no conceito
De crescimento, ainda que a entropia
Nos dane a todos com o seu jeito.
Mas nem Deus vos condena
Nem Cristo a Maria Madalena.
É o vosso acto que um dia
Vos mostrará a lei de causa-efeito.

Eduardo Aroso
Outubro, 2014

sábado, 27 de setembro de 2014


CORPO DE RAÍZES

As recordações são como um mercado pela manhã
Ou o trânsito numa hora de ponta:
Atravessam-me a alma
Vezes sem conta.
Não me posso alhear
Deste cerco do passar do tempo,
Ninho vazio onde se imagina o pássaro.
Uma chamada no escuro
Que dói nos ouvidos
E vai sendo invisível,
Este gritar dentro
E já sem diálogo possível.

 
Rio de Vide,  27-9-2014
Eduardo Aroso ©

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (24)

O ser humano é um poço de sentimentos. Quem tira a água do poço, sem desperdícios?

Eduardo Aroso
18-9-2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014


SILENCIOSA RESISTÊNCIA  ©

Sobre o pó do mundo
O sémen da esperança.
A Terra espera
Para o acto sério
Sem contrato prévio.

Tudo isto há-de chegar
Com a música das lágrimas
A dar melodias de mel,
Onde brinquem crianças
Como quem anda para baixo e para cima
Nas pedras da calçada.

O que há de belo quando abre
A primeira flor da madrugada!

 
Eduardo Aroso
8-9-2014 ©

 

 

sábado, 23 de agosto de 2014

INTERNATUREZA

Há o muito e o incrível no youtube,
Mas falta-lhe o mais que não tem
E de sobra o menos para se ver.
E é isso que nos ilude
Na sensação-ausência de não haver
O som contínuo da manhã,
A floração da tarde,
E apesar das noites plácidas
As flores sempre-vivas.

 
Eduardo Aroso
23-8-2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014


FRANCISCO MARTINS

 
Afastados são os dedos
Na penumbra luminosa
De haver viagem,
Largada cedo.

Mas à saída da barra
Fica sempre a boca da guitarra
- O som
Redondo e macio,
Plácida lua cheia.
Ou gaivota que vem e poisa
Preenchendo o areal vazio…

 
Eduardo Aroso
27-7-2014