quinta-feira, 11 de dezembro de 2014


                                       A PALAVRA (SEMPRE) UMBILICAL

 Substituir, no possível, a informática anarquizante e às vezes obscura, pela informática de proximidade, mesmo que possa bloquear pela respiração e transpiração das pessoas.

Mudar o barrete vermelho e branco – que se cola ou coca-cola - pela dignidade da palavra.

Converter a guloseima feita do acidificante açúcar industrial pela broa sem milho transgénico.

Provar (ainda) o silêncio da chama da lareira, ou apenas desse levíssimo rumor de memórias, na difícil pausa que interroga e depois responde.

Com ou sem fumo da chaminé, a voz como línguas de fogo, iniciando o calendário da esperança na primeira folha que se abre no escuro mais longo do solstício.

A reverberação da palavra no alpendre, à entrada de tudo, no pátio ou no café, ou no espaço maior de todos nós, filhos deste tempo, porque dele somos todos sem-abrigo.

Plasmar o verbo na noite contraída por tanta lembrança e, olhando o horizonte nocturno, no propósito de nunca pronunciar em vão o presente do indicativo do verbo Amar.

 

Eduardo Aroso ©

Natal, 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


TRÊS POEMAS DE NATAL 
 
À memória de José Ledesma Criado e em amizade com outros dois poetas: António Salvado e
Alfredo Pérez Alencart.
 

               1

Renovar a carne
Para que não seja sempre
A mesma limitação.
Quero-a ágil
E que me responda como o vento.
Todo o momento é frágil
Até que as pedras sejam todas luz.
Renovar a carne
É escutar pela noite dentro
A esperança das velhas profecias
E o vigor de semear hossanas,
Boa-nova das madrugadas,
Salmo dos dias.

            2

 
Há um berço universal
No frio carinhoso do solstício de Dezembro.
Astros e estrelas: pirilampos da Criação!
E nem as trombetas dissonantes
Que apupam este mundo imundo,
Os podem assustar.
A obstetrícia rodeia incessante
A gestação divina que ultrapassa
Além das nove luas
Aquele que nasce – sempre disposto a nascer –
Dissipando a morte, libertando mais
Que a abolição da escravatura.

             3

 
Deus não desce,
Pois nós é que temos de subir…
E o deserto existe
Para que a água sacramentada
Na areia seja salvação.
Sei que alguém gostaria
De ter estrelas na mão
E livrar-se
Do exercício benéfico do longínquo.
A sapiência enrola-se à maneira do caduceu
No bordão do peregrino.

 
Eduardo Aroso ©
Natal, 2014

 

 

 

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (26)

O caminhante pede água. Alguém lha dará, porque ele terá que continuar. O seu destino é avançar. Não teme a morte, porque já teve muitos desfalecimentos.
Eduardo Aroso

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

LINHA DA LOUSÃ ©

(À memória do poeta brasileiro Manuel Bandeira
 que escreveu «Trem de Ferro» e do compositor, do mesmo país,
 Heitor Villa-Lobos e da sua obra  «Trem Caipira»)

De ferro era o trem.
Não o que a gente tem.

Pouca-terra, pouca-terra,
E para transporte novo
Muito voto, muito voto,
Pouco-povo, pouco-povo!

Da Portagem e Calhabé
Passa o rio e passa Ceira,
Passa Trémoa e Miranda
Em Lousã até Serpins.
Acabou-se então o sonho
Aqui na serra desta banda....

Caros Heitor e Manuel,
Aqui temos pneu caipira
Para assim servir a linha
Alinhada neste carril
Democracia de cordel.

De ferro era o trem.
Não o que a gente tem.


Eduardo Aroso ©
14-11-2014




sexta-feira, 7 de novembro de 2014


PANORAMA
- DOS CLÉRIGOS AO DOURO

                A Paulo Ferreira da Cunha

 
Algures uma rotunda imita o disco solar
Garantindo o direito de haver dia,
O ímpeto benigno da manhã.
Antes do rio de onde chega sempre
A síntese das quatro estações,
Pessoas cruzadas
Xadrez de vibráteis direcções.
Tudo começa na saudação audível
A toda a largura da rua
Sob o olhar das pombas que sem receio
São elas que se apresentam.
A cidade respira melhor
Quando os alvéolos se movimentam.

 
Eduardo Aroso
Porto 19-10-2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

terça-feira, 21 de outubro de 2014


«Somente desembarcando na Ilha somos forçados a reconhecê-la como realidade»
(Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, de António Telmo)

 
Desembarca para saberes
Que a terra é terra
E entre ela
E para além
O céu é céu.

Chegar, seja em que tempo for
No oceano ou no ápice do ar,
Para saberes que existe Ilha
Ou o que seja ela toda,
A Terra florida e armilar.

Desembarca e chega
Para conheceres
O que é haver onde a alma for
Para tocares a árvore da vida:
Folhas, raízes do chão;
Raízes, frutos de amor.

Desembarca para corrigir
O reflexo da realidade,
Separando o chumbo do tempo
Que há entre esquecimento e saudade.

 
Eduardo Aroso
(Santa Clara-a-Velha, 21-10-2014)