sábado, 11 de abril de 2015

EQUIDISTÂNCIA

Entre o céu e a terra
Os píncaros mais secretos
Não querem ser rastejantes.
Os extremos tocam-se.
Insuficientes são as frequências
Para saber do enigma do coração.
Sou um bicho de amor.
Sou um disco voador!

Eduardo Aroso ©
11-4-2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

UM FIO DE ALEGRIA …

Sem ter em conta o terramoto de 1755, por certo de lágrimas tumultuosas e gritos dilacerantes, ou a afronta das invasões francesas saqueando tudo e todos, ou ainda a dolorosa espera nas filas do pão, de tempos menos distantes, nunca se viu tamanho acabrunhamento ambulante pelas nossas cidades, vilas e aldeias.
Nem a primavera afasta os olhares hirtos, as expressões cinzentas, a fome de alma, que passa diariamente por nós, sendo o mais subtil a desconfiança escondida como uma trave que vive dentro da carne e passa, onde, quantas vezes, o natural seria deter-se e dizer umas palavras, nem que fosse a saudação de bom-dia ou boa-tarde! E, paradoxalmente, quando há risos - porque os sorrisos são quase escassos – eis o riso provocado, às vezes apatetado (quando não grosseiro), e hoje com muitas receitas por todo o lado. 

Tudo isto não passa de um cortejo de actos e gestos desesperados para alcançar a alegria que não temos. Aqui poderíamos colocar a questão: é possível (já) não possuirmos algo e disso não ter consciência? No movimento lento das sociedades, talvez isso passe despercebido a muitos, pois que também o mundo é feito de mudanças. Fernando Pessoa, nas poucas entrevistas de imprensa que deu, tocou de algum modo no cerne da questão, ao responder sinteticamente que «a civilização é trocar uma coisa por outra».
Nesta objectiva e tão pragmática resposta esconde-se, todavia, o que tem atormentado muitos estudiosos: se a evolução se processa em espiral, como incorporar a quintessência da ganga que se deve atirar fora? Como encarar esse fio da alegria virginal, intocável que também Eugénio de Andrade exalta na sua poesia, alegria por dentro do robotizado mundo da tecnologia que, lenta mas seguramente, vai transferindo valores?
Substituir uma coisa por outra? Ou, neste caso, juntá-las?

Eduardo Aroso
7-4-2015


quinta-feira, 2 de abril de 2015

AS TRÊS NEGAÇÕES DE PEDRO

«E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro lembrou-se das palavras que Jesus lhe tinha dito: "Antes que o galo cante duas vezes, tu negar-me-ás três vezes". E pôs-se a chorar».  Marcos 14:72

As grandes negações da História (e por certo também afirmações) surgem na iminência das grandes mudanças, no auge de um período ou ciclo que finda, para que, naturalmente, outro comece. Quando o Bem abre clareiras, logo se lhe opõe o Mal e, ainda que este seja relativo, é uma força que está no teatro do mundo. Lei da Natureza: a uma acção corresponde sempre uma reacção. O leitor pode verificar que a um determinado pioneirismo espiritual e cultural (um movimento literário, por exemplo) segue-se um período de apatia, não só pela reacção de forças adversas como pela dificuldade em si dos discípulos continuarem com a mesma elevação o trabalho dos iniciadores. E até a nossa querida Fraternidade Rosacruz não esteve imune a isso!

A negação, considerada no percurso espiritual do estudante/probacionista /discípulo, segue o mesmo paralelismo, isto é, em alguma etapa negamos o Mestre e/ou a filosofia que abraçamos. Pode não ser uma negação explícita e não o será à medida que se avança, mas não nos esqueçamos do Padre António Vieira quando há três séculos já falava nos «pecados de comissão» e nos «pecados de omissão», assunto este que Max Heindel retoma numa das suas lições. O que deixamos de fazer pode, em certas circunstâncias, ser pecado no sentido de ofensa.
A negação pode pôr a descoberto as nossas fraquezas, que nos podem também assustar repentinamente, e isto não estará longe do que a moderna psicologia chama «a sombra» de cada um. Quantas vezes negámos as nossas convicções, não claramente, mas em actos que ferem a essência dos princípios? Alguns exegetas bíblicos têm visto na negação de Pedro a negação da própria essência do Cristianismo  (pois o apóstolo viria a ser a pedra-angular da chamada Igreja Romana), devido a acontecimentos como a Inquisição e mais recentemente no deboche de certa cúria do Vaticano. Mas este sentido da negação, pela sua extensão, é aqui obviamente ultrapassado.

Quanto ao galo, na Tradição, é um símbolo solar, o despertar, a vigilância,  o que se anuncia entre a noite e o dia. Pitágoras refere-se desta maneira «alimentai o galo e não o imoleis, pois ele é consagrado ao sol e à lua».
Em resumo, o episódio do Apóstolo Pedro deve ser motivo de reflexão, ainda que a natureza tenha sempre um galo pronto a um cantar de alerta, felizmente, pela misericórdia de Deus.

Páscoa de 2015
Eduardo Aroso ©



TRÂNSITO SOLAR

O rosmaninho incita caminhos
Para um cortejo de oferendas
E a Páscoa é o que escorre
Do sonho concreto
Respondendo ao equinócio absoluto,
Porque a seiva e o sémen
São gémeos no amor equivalente.

Ruminância da terra
O chão inadiável e resoluto
Tudo é propulsão
Para escalas de cima abaixo,
Voos de pombas e aromas
Recuperam graciosamente
Linhas perdidas e espaçosas do paraíso
Que ficaram ilegíveis num papiro
Que hoje ninguém tem…

O rosmaninho abriu-se risonho
Numa confissão pública
Que transgride a crosta da terra.
Cresce para negar a morte
Que o duro Inverno
Parecia anunciar.

Eduardo Aroso

Páscoa, 2015

in http://www.triplov.com/espirito/aroso/2015/pascoa.htm

terça-feira, 31 de março de 2015

Hoje
A História de Portugal
É escrita em papel de jornal.
A importação que fica mais cara
É de caixotes de lixo para a pátria.


Eduardo Aroso © 

segunda-feira, 9 de março de 2015

DO CIVISMO (1)

O civismo - vulgarmente conhecido com alguma insuficiência por cidadania - deveria implementar-se a curto prazo com o mesmo rigor de controlo da classe política eleita, como o fisco o faz presentemente em relação ao contribuinte.
A proporção é desejável e urgente. As formas de alienação a que o «mainstream» nos submete, deverão transformar-se no mesmo rigor e verdade de não lesar a confiança política do eleitor, como o de não ser admissível a falta de pagamento na hora certa do que é devido ao Estado.

Eduardo Aroso

sexta-feira, 6 de março de 2015

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (33)


Os pássaros sabem, por alguns sinais, pressentindo dias agitados. Não é conveniente ignorar o seu piar. Eles já interpretaram o nosso absurdo silêncio, por um lado, e, de outro modo, o nosso ruidoso escapismo da vida. Seria bom sabermos a linguagem dos pássaros.
Eduardo Aroso, 6-3-2015