sábado, 23 de maio de 2015

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (35)


Os fragmentos de barro, que ficam depois da extenuação do dia, são a ânfora mais bela da noite.


24-5-2015

Eduardo Aroso 

domingo, 3 de maio de 2015

ANTÓNIO TELMO
OU A RECONSTITUIÇÃO DE UMA MELODIA ORIGINAL

88 são as teclas de um piano de concerto!
Mas entre bemóis e sustenidos
Fica tudo o mais o que os dedos não tocam
O que se adivinha a seguir
E os tempos idos
Na inteira sensação
Que quem escuta de modo diverso sabe distinguir.

Um aroma move-se entre sons e silêncios.
E são essas impressões
Que não se apagam da memória
Quando se reconstitui o fio cantante
Da vida que ali ou mais além
Tem as suas modulações.

- Então volta toda a música como o nascer de sol
Um som que pede outro acima dele,
Um ritmo que se funde noutro mais complexo
Um pensamento que explode de luz íntima…
E tudo continua e se junta não tanto como no Bolero de Ravel,
Mas na praia atlântica onde a dança pertence às ninfas do sonho
E o som das ondas, uma a uma, reconstitui a cadência lusíada;
Uma flauta criou a escala necessária para dar todas as cores à sua melodia
Que se agarra comovida ao plâncton profundo da pátria.

Eduardo Aroso, 15-04-2015

In





sábado, 2 de maio de 2015

MATERNAL

Nome que tocas todos os nomes,
Madrugada viva de orvalho
Que nenhum deserto faz esquecer.
Sei que tudo fenece ao fim do esvoaçar
Do longo dia
E que há uma ave que nunca morre.
Em ti quando o mistério
Se faz luz,
O fogo do afago.

Eduardo Aroso ©

2015
DATA

Escreveste nos meus olhos,
Por isso não consegues apagar-te.

Eduardo Aroso
18-4-2015


sábado, 25 de abril de 2015

25 DE ABRIL – NOS MEANDROS DO SÍMBOLO E DA ACÇÃO

«O esforço é grande e o homem é pequeno» (Fernando Pessoa)
«O 25 de Abril é uma abstracção» (Maria José Morgado)

Quando falamos em abstracção, sobretudo no assunto em epígrafe, pisamos sempre um chão escorregadio, mas por vezes inevitável. O 5 de Outubro, embora de maior cisão, não deixa de ser também uma abstracção, se olharmos o que têm sido as repúblicas, ou o 1º de Dezembro, mais distante no tempo e por isso mais diluído. Juntas estas 3 datas vemos que a abstracção ainda se mantém com alguma pertinência, e que elas constituem o que se poderia chamar essencialmente o paradigma não realizado de governação e soberania nacionais. Ou seja, estamos sempre a ser governados de fora, o que, lapidarmente é ser governados por estrangeiros e pelos seus acólitos, os “estrangeirados” que nascem cá e têm bilhete de identidade português.

O cravo vermelho, sem dúvida o belo vegetal para anular a violência e o derramamento de sangue, colocado na ponta da espingarda de um militar de Abril, é um intra-símbolo da nuclear diferença do cravo que deve ser cultivado para um propósito e o cravo emprestado na circunstância. É certo que a História também é feita de imprevisto e o próprio cravo tomou o lugar do português na frase de Ortega y Gasset «eu sou eu e a minha circunstância».

O cravo seria para venda (quem lançou depois a profecia negra para que Portugal fosse sendo vendido aos poucos?!), mas as voltas da História permitiram a oferta. Isto mostra bem como apenas  a beleza e a generosidade na política, e nas mudanças sociais, não ditam a voz de comando e podem até trazer equívocos de tradução do símbolo para o sensível. O cravo na lapela tem sentido se o conquistarmos, e nisto falamos já de liberdade. Vigiá-la como a um ladrão?! Pois claro. No sentido de quem deve estar desperto e vigilante, porque na calada da noite o ladrão pode surgir, uma ameaça de morte. Há cerca de 10, 20 anos ainda se falava no binómio liberdade/responsabilidade. Este é o lugar certo da própria liberdade que não foi alimentada de uma pedagogia da responsabilidade. Não basta levantar a viçosa bandeira da santa liberdade no telhado da casa, quando no quintal já se cultivam ervas daninhas…
 E quando falamos de responsabilidade, a frase de Maria José Morgado ganha sentido, ainda que a eminente magistrada talvez não tenha esclarecido que há duas espécies: a abstracção como simples tese (sem antíteses e sínteses) e a abstracção que resulta em conceito, resultado de um percurso. Ou seja, a afirmação de M. J. M. está no reino da utopia, o que não lhe retira importância. Se o «homem é pequeno» e só «o esforço é grande», vale sempre a pena comemorar a utopia (pois também «a alma não é pequena»), mas começando pelo esforço de compreensão dos valores inerentes da própria utopia.
 Já Thomas More, em «Utopia» (1516), havia colocado o português Rafael Hitlodeu na proa dessa viagem, sem a qual não há movimento do mundo. O mesmo escritor renascentista (esta semana também lembrado por Santana-Maia Leonardo) que escreveu «Se Deus não nos reservar mais do que Justiça, ninguém se salva».


Eduardo Aroso, 22-4-2015  ©

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O DIA DA VOZ,
A VOZ DOS DIAS
E A VOZ DOS OPRIMIDOS


Todos os dias têm voz. As muitas da natureza, sempre harmoniosas no seu conjunto, da mãe universal que não se deixa intimidar pelos “falsetes” humanos. Quanto às laringes, é bom pensar antes de falar. A emissão da voz é um assunto sério, desde a interpretação de uma ária de ópera a um «bom dia» enérgico e confiante, porque a palavra que desmoraliza, rebaixa e amesquinha nunca deveria vir ao mundo, isto é, nascer na goela…
A fala, o primeiro e o último meio de comunicação entre seres humanos, o que mais toca os intervenientes. Por isso, para mim é falsa a frase «vale mais uma imagem do que mil palavras».  Mesmo quando prègamos  seriamente no deserto, há sempre alguém que ouvirá a nossa voz, nem sempre no chamado tempo real. Se Sto António tivesse falado (escrito) sem sabedoria, não teriam escutado as suas palavras e ele não teria deixado para o futuro o seu sermão aos peixes, a voz que ficou para a posteridade, como a de um Pe António Vieira, a quem Pessoa chamou «imperador da Língua Portuguesa. Vieira há já 3 séculos falava pelos oprimidos. Não tendo voz os oprimidos de hoje, ou sendo a que ninguém ouve, quem fala hoje por eles, onde está a voz dos oprimidos?! Talvez já inscritas num futuro breve, para depois todos os glorificarmos nessas páginas que serão outro «muro das lamentações».


Eduardo Aroso, entre Miranda do Corvo e Coimbra, 16-4-2015

sábado, 11 de abril de 2015

EQUIDISTÂNCIA

Entre o céu e a terra
Os píncaros mais secretos
Não querem ser rastejantes.
Os extremos tocam-se.
Insuficientes são as frequências
Para saber do enigma do coração.
Sou um bicho de amor.
Sou um disco voador!

Eduardo Aroso ©
11-4-2015