sábado, 29 de agosto de 2015

DE UMA (RE) LEITURA DE «HISTÓRIA SECRETA DE PORTUGAL DE ANTÓNIO TELMO

Santa Maria, no portal sul do Mosteiro dos Jerónimos -  e cuja posição arquitectónica a António Telmo não passou despercebida na sua ímpar obra - lançando o seu olhar sobre o Atlântico, como que acompanhando a frota de Cabral, parece profetizar sobre a grande civilização do futuro a que se chama Brasil. De outro modo podemos vê-la, como indizível presença no altar dos céus que é o Cruzeiro do Sul, constelação que, segundo o emérito astrónomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em «A Astronomia em Camões» a refere como «uma das glórias dos navegantes portugueses, que a teriam registado pela primeira vez». Não é descabido, portanto, vê-la com mais ou menos metáfora no céu nocturno sobre a cruz das quatro estrelas que Camões em «Os Lusíadas», VIII, 71, refere do seguinte modo: «Descobrir pôde a parte que faz clara/ De Argos, da Hidra a Luz, da Lebre e da Ara».

Santa Maria a mesma Senhora resplandecente sobre uma azinheira no centro de Portugal, e que no trânsito mistérico se poderá esclarecer talvez um dia se este local, onde, bem perto, os Templários assentaram praça, tem repercussão com o famigerado centro do mundo conhecido por Agartha e outros nomes. É deveras interessante pensarmos que o culto à Senhora, o mesmo é dizer a um supremo princípio maternal e feminino, foi requerido pelos Templários, guerreiros do lado de fora e secretos do lado de dentro, mas onde se vê claramente que os dois círculos e até o princípio da dualidade (veja-se o cavalo com duas figuras, que alguns identificam como o signo astrológico de Gémeos, o do movimento e das viagens) numa ordem guerreira, portanto dinâmica e marciana, tenha tido no seu seio a vibração da candura feminina da Virgem Maria. Já que de planetas também se fala, não me consta que se tenha reparado num pormenor notável: é que tanto as aparições de Fátima, de Maio, como as de Outubro se dão nos meses dos signos Touro e Balança, ambos regidos pelo planeta Vénus, da harmonia e da paz, conhecido também como a estrela d’ alva ou estrela da manhã e estrela da tarde.
Assim, no olhar benevolente e cintilante como o mais amplo horizonte ao nascer do sol, a mesma Senhora vigilante no portal sul dos Jerónimos ou da azinheira do centro de Portugal, parece confirmar e aguardar serenamente aquela frase que tantas vezes o mestre António Telmo proferia: «reunir o que está disperso».

© Eduardo Aroso, 29-8-2015, dia de plenilúnio.


EVOCANDO ANTÓNIO TELMO (2-5-1927/21-8-2010) HERMENEUTA DE “DIÁLOGOS DE AMOR” DE LEÃO HEBREU E AUTOR DE “A VERDADE DO AMOR”
A luz intensa e súbita pode cegar. Não se tem dito o mesmo do amor verdadeiro, esse quando irrompe como lava de vulcão, mais em forma de luz do que de temperatura… sobre as emoções rotineiras, vulgarizadas também como afectos, ou desalmadamente sob a forma de “ter um caso”, ou na degradada e absurda expressão “fazer amor”.
Pode amedrontar e em simultâneo causar espanto se o amor surge como uma espécie de epifania. Receio que nos pode paralisar momentaneamente, pois também a isso não ficou imune, na visão, Paulo na estrada de Damasco, onde os seus olhos ficaram cobertos de escamas durante dias. A verdade é que somos, por enquanto, vasos frágeis para conter essa torrente misteriosa que faz estremecer o mundo da matéria, ao mesmo tempo que só ela o pode mover.
Quando esse amor amedronta e causa espanto é também o sinal de que chegou a hora de sermos guerreiros de luz afrontando um falso adamastor que se ergue para barrar a verdadeira aventura divina no campo de batalha mais desamparado e obscuro em que presentemente vivemos.
Se é verdade que houve céu antes da terra, é certo que <a terra antes do céu> tem o sentido da Grande Obra, pois que da terra ninguém se pode alhear seja qual for o nirvana! Quem ergue a espada de luz, afrontando o adamastor do receio e do espanto, tem já dentro de sim a certeza, como se fosse um terraço que dá para o mar imenso de todas as possibilidades que se abrem na linha do horizonte. Também nós, os do Portugal da esfera armilar, queremos o oceano antes do céu.
Cabo Mondego, 20-8-2015
EDUARDO AROSO ©

quinta-feira, 30 de julho de 2015

CREDO LUSÍADA ©


Creio nas líquidas madrugadas
Último perfume da lua
(Ressaibos de saudade da lonjura),
Para desafiar o sol
Até ao zénite da aventura.

Cais das Colunas,
Julho de 2015
Eduardo Aroso ©

sábado, 25 de julho de 2015

AFORISMOS DE IMANÊNCIA (37)


Portugal, nação de muitos paradoxos, morreu (metaforicamente, ou não) jovem, com D. Sebastião, em Alcácer-Quibir, e agora morre na senilidade recalcitrante da figura do actual Presidente da República. Há contudo um outro Portugal a que se pode chamar Alma, que não é tempo, isto é, que só quando se expressa se reflecte no tempo.

Eduardo Aroso

25-7-2015

quinta-feira, 23 de julho de 2015


TRIBUTO  ©

A Max Heindel,
150 anos depois

Tu que ouviste o som inaudível para o mundo
E foste além do véu, testemunho
Da una fraternidade entre dimensões.
Abriste o palco da nova sinfonia
Para erguer outra realidade
No fumo das presentes ilusões.
Tu que na senda do mestre
Deixaste a todos o convite
Do caminho maior,
Luz ou seiva
Rosa-de-amor.
Tudo isso nos deste,
Pleno, sem hesitação.
A verdade espera e brilha
Além do pórtico
Sob as colunas mais altas
Da razão e do coração.

Eduardo Aroso  ©
Coimbra, 23-7-2015


terça-feira, 21 de julho de 2015

VERÃO 

As tardes de Julho suportam intervalos longos e estranhos, onde a consciência às vezes oscila entre cá e lá, desafiando qualquer fronteira. A ilusão de Cronos, vertida em nós, esse deus que apenas dura neste mundo, na vestimenta dos mortais. Orgulha-se porém de ser o guardião do exacto movimento de rotação da Terra. E assim nos alimenta de luz e dinamismo para o tempo singular de cada um, para as nuances que afloram em cada sentimento humano.
Cada um sentado à sombra subjectiva do banco de jardim, onde cada qual é um relógio onde se conta o tempo de outro jeito. Que façanha maior (a de um dia), obra mais alta, será a de pulsarmos todos - nem que seja por momentos - no mesmo ritmo misterioso de existir, na mesma respiração para o grande acorde da Vida!

Eduardo Aroso
21-7-2015

domingo, 19 de julho de 2015


RAZÃO NATURAL ©

Porque se o vento passa
É para trazer e levar:
O que nunca ouvimos dos segredos
Sob as pedras desde que nasceram;
Dos nossos gritos que morrem na cama
De partos e sonhos provocados,
Mas sem assistência.

Eduardo Aroso ©
19-7-2015