EPITÁFIO
O sol levanta-se a ocidente;
Move-o outra iluminação.
É um Cristo-Rei
Vestido de sem-abrigo.
Uma coluna pétrea
Desfaz-se em oração
De santo e plebeu.
E lê-se nas águas do Tejo:
Aqui jaz Portugal
Que ainda não morreu!
Eduardo Aroso
(Terra da Serpente, aos 7-4-2016)
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
domingo, 10 de abril de 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
EMOTIVA FORMA
MUSICAL
Só conheço uma
Fuga
Em que afino
inteiramente.
Com um qualquer
diapasão
Soa a música
incompleta
E o andamento
monótono
Com timbres de
solidão
Seja LÁ, no SOL,
Ou aqui no DÓ é
sempre dor…
Mas se fores tu a
dar o tom
É a melodia
predilecta
Fica a Fuga em Mi
(m) Maior!
Eduardo Aroso
2016
quarta-feira, 30 de março de 2016
AFORISMOS (39)
O paganismo é um modo não racional de entender o divino na natureza. Cada pulsão de seiva é sacramento; um salgueiro debruçado nas águas de um ribeiro é altar onde o vento, em jeito de homilia, explana uma doutrina; a paciência das pedras e das fragas é a paciência de Deus, quando se erguem fitando os seres humanos que passam por elas. Mas ninguém se atreve a perguntar-lhes sobre a sua forma de respirar a vida onde estão por amor.
Das aves podemos esperar as surpresas do Criador: de um lado para o outro, voando ao Deus-dará, delas nunca sabemos quando nos presenteiam em bandos circulares de movimentos, imprevistos passos de dança!
Eduardo Aroso
Entre a cidade e o campo, 30-3-2016
DO NOSSO TIMBRE
As vogais são a flor da
Língua. As consoantes são o apoio lançando o som puro (vogais) e sustentando-o,
do mesmo modo que o jogador de ténis-de-mesa impele a raquete que batendo na
bola a projecta no espaço. A perfeição vocálica, qual harmonia da música,
depende muito de um espaço de ressonância. Observamos que o palato humano tem
uma configuração idêntica a uma abóbada de um templo, e no seu microcósmico
funcionamento ensinam os professores de Canto que a utilização do palato é uma
técnica fulcral.
Considerando geograficamente o assunto da ressonância podemos
observar (escutar) o fenómeno, por exemplo, num desfiladeiro, ou entre terra
mar, quando o som das ondas encontra espaços vários e aí ressoa, combinando-se
também com outros sons da terra, sendo certo que espaços amplos tendem a
prolongar o som.
Este, pela natureza dos objectos com os quais se cruza (e é
claro também pela natureza do emissor) produz o timbre, um dos elementos
essenciais da música, e que depende essencialmente da natureza dos materiais e
do modo de obter o som. Ora, tal como as ondas ao longo da costa, em vários
contornos, também as vogais emitem-se, prolongam-se, fluem e refluem,
eventualmente mudando em subtis nuances o seu timbre. Assim tem sido ao longo
de séculos, à imagem das “ondulações” do canto gregoriano nos claustros e
abóbadas dos templos.
Agora uma pergunta: o
leitor já imaginou o que seria se todo o som produzido ao longo da nossa orla
costeira de repente deixasse de se ouvir? Certamente notaríamos uma estranha
sensação – fenómeno nunca sentido – da ausência do nosso som, do nosso timbre natural, realidade a que não damos
atenção consciente no dia-a-dia, do mesmo modo que não sentimos directamente no
equilíbrio do corpo os ininterruptos movimentos de rotação e de translação da
Terra na sua divina marcha.
Eduardo Aroso,
2013
quarta-feira, 23 de março de 2016
As sombras que criamos acabam
sempre, mais tarde ou mais cedo, por vir ter connosco, simplesmente para nos
mostrarem os seus autores. O feitiço contra o feiticeiro sempre foi e será. Há
ainda um outro tipo de sombras, mais diluídas, já nomeadas como vestindo
colarinho branco, que parecem não ser ainda o bastante para mostrar que aquilo
a que chamamos civilização gera muitos detritos, e que a sua quantidade começa
a ser preocupante. Há uma outra reciclagem, subtil, trabalhosa e urgente, que é
necessário fazer. Caso contrário, sufocaremos no poço estreito e lodoso da
nossa ignorância.
Eduardo Aroso, 23-3-2016
sábado, 19 de março de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Portugal passa pela Europa, mas não para aí. Quero dizer que não se estaca em Bruxelas ou não se detém em nenhuma Frankfurt a pedir esmola a um banco. A vocação é ir, voltar e recomeçar outra viagem. Guiar-se pela rosa-dos-ventos. Arribar ao porto de espera que há em cada povo e mostrar que Camões, como viu Agostinho da Silva, não queria tanto chegar a Calecut, mas à Ilha dos Amores, isto é, à vindoura idade fraterna.
Eduardo Aroso, 16-3-2016
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