QUINTA-FEIRA ASCENSIONAL
Ergue-se a manhã névoa de anjos,
Sopro ondulante,
E a seara
Um salmo de espigas
Sonoras, harpas de natura.
Embutida é a esperança
Que há-de redimir a metáfora da fome.
Um fogo brando
Sem começo nem fim
Sustentando o mundo
Entre céu e terra
- E não se consome...
Eduardo Aroso
5-5-2016
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
sábado, 30 de abril de 2016
A PRESENÇA ©
As mães regressam
sempre
Se o tempo nos
vacila
E parece
desprender-se do coração.
Vêm como um regaço
(A manhã que ainda
dura)
Ou numa vertigem,
Doce repouso
Da lua brilhando
Na noite escura.
As mães regressam
sempre.
Criam-nos a
pulsação
E dirigem-na à
distância
Ou na fala
apetecida e umbilical.
E mesmo quando
tardam
Vemo-las na hora
Mas difícil da
nossa respiração.
Eduardo Aroso ©
2016
quarta-feira, 27 de abril de 2016
DO NOSSO TIMBRE
As vogais são a flor da
Língua. As consoantes são o apoio lançando o som puro (vogais) e sustentando-o,
do mesmo modo que o jogador de ténis-de-mesa impele a raquete que batendo na
bola a projecta no espaço. A perfeição vocálica, qual harmonia da música, depende
muito de um espaço de ressonância. Observamos que o palato humano tem uma
configuração idêntica a uma abóbada de um templo, e no seu microcósmico
funcionamento ensinam os professores de Canto que a utilização do palato é uma
técnica fulcral.
Considerando geograficamente o assunto da ressonância podemos
observar (escutar) o fenómeno, por exemplo, num desfiladeiro, ou entre terra
mar, quando o som das ondas encontra espaços vários e aí ressoa, combinando-se
também com outros sons da terra, sendo certo que espaços amplos tendem a
prolongar o som. Este, pela natureza dos objectos com os quais se cruza (e é
claro também pela natureza do emissor) produz o timbre, um dos elementos
essenciais da música, e que depende essencialmente da natureza dos materiais e
do modo de obter o som. Ora, tal como as ondas ao longo da costa, em vários
contornos, também as vogais emitem-se, prolongam-se, fluem e refluem,
eventualmente mudando em subtis nuances o seu timbre. Assim tem sido ao longo
de séculos, à imagem das “ondulações” do canto gregoriano nos claustros e
abóbadas dos templos.
Agora uma pergunta: o
leitor já imaginou o que seria se todo o som produzido ao longo da nossa orla
costeira de repente deixasse de se ouvir? Certamente notaríamos uma estranha
sensação – fenómeno nunca sentido – da ausência do nosso som, do nosso timbre natural, realidade a que não damos
atenção consciente no dia-a-dia, do mesmo modo que não sentimos directamente no
equilíbrio do corpo os ininterruptos movimentos de rotação e de translação da
Terra na sua divina marcha.
Eduardo Aroso
2013
domingo, 24 de abril de 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
PORTUGALIZANDO (3)
Quando os USA nasceram como nação
já sabiam que poderiam ser uma espécie de senhores do mundo, porque puderam ver
que, com Lutero e Calvino, não seria possível uma Europa una, como recentemente
se tem incutido, pois se pela religião se dividiu, pela moeda – bem mais perto
da cobiça – mais facilmente se desmoronava.
Considerando a ciclicidade da vida, a uniformização político-económica que
Bruxelas tem pretendido fazer na Europa é muito mais nefasta do que, com certas
imperfeições, a presença da unidade católica medieval na Europa.
Hoje, o Estado de direito, último
reduto para salvar um tipo de democracia desgastada, num jeito de justificação de
consciência, não tem impedido uma descarada ingerência na soberania das nações,
ao ponto de, em tão pouco tempo, lhes ter provocado os maiores danos. Ouçamos
Agostinho da Silva que escrevia no tempo em que se davam vivas à “Europa unida”: «Uma
economia que, solicitada pela necessidade de mobilizar grandes capitais para
organização do comércio e mais tarde da indústria em larga escala, põe
completamente de parte o princípio de lei mosaica mas principalmente de fé
cristã de não deixar que irmão empreste a irmãos com o pensamento no juro» (…)
«quebrando a unidade do cristianismo, impedindo que mais cedo tivesse o
catolicismo, como lhe compete, abraçado o mundo inteiro, e produzindo o
capitalismo, o comunismo na sua forma actual, a ciência sem moral e uma técnica
que, louca, se enamorou de si própria (...).
Afinal, irreversivelmente,
pese embora os benefícios que o protestantismo trouxe pelo desenvolvimento
científico e tecnológico, a verdade é que a Europa optou por Lutero e Calvino.
A este respeito ainda Agostinho da Silva: «Calvino vai ligar num sólido feixe
lógico uma ciência sem fraternidade, uma economia sem fraternidade, uma
religião sem fraternidade. A religião que, depois de ter pregado a volta do
Evangelho, queima Servet e manda esmagar em sangue a evangélica revolta dos
camponeses alemães».
Hoje, como sempre, faz comichão a muitos a realidade histórica de a
essência de o povo lusíada ser de cariz universal!
Eduardo Aroso,
20-4-2016
domingo, 17 de abril de 2016
PORTUGALIZANDO (2)
O verbo significa, antes de mais, aceitar Portugal. Quanto ao sentido de aceitá-lo, seria ideal aquele que alguns psicólogos de índole espiritual entendem como tal, isto é, não uma aceitação passiva e fatal, mas numa atitude de não fuga ao que se deve enfrentar, seja de que modo for; tomar o assunto como ele é, inevitável ponto de partida. A dificuldade porém está em saber aquilo que se é, e se Portugal é, será por uma razão maior, a que já se tem chamado missão, mistério ou enigma. Porque o desdobramento (mais ou menos inconsciente), tem sido um caminho onde muitos se têm empenhado, podendo não saber para onde vão.
Tem havido uma espécie de renegação de Portugal, atitude interiorizada como trauma por aqueles factos e episódios dissonantes da nossa história, como a expulsão dos judeus e a inquisição. Este estratificado renegar não é outra coisa do que Leonardo Coimbra expressou num frase lapidar: «Faça cada português as suas pazes com Camões».
Eduardo Aroso,
15-4-2016
sábado, 16 de abril de 2016
PORTUGALIZANDO (1)
Sob penas de cairmos em tantos desvarios, de cujos exemplos o mundo ocidental abunda - quando o retrocesso desafia - não deve o ser humano em trânsito afastar-se muito daquele ideal que Álvaro Ribeiro propõe e que é título de uma das suas obras mais fecundas: A Razão Animada. O caminho apenas por um dos lados constitui perigo iminente, sobretudo para aqueles que querem «tomar o céu de assalto». Perigo ante a «cisão extrema» de que fala José Marinho numa das suas obras mais representativas do seu pensamento, o que levou António Telmo a dizer (quando se deu à estampa) não ainda ter chegado o tempo para a hermenêutica como convém. Sobre a razão e a alma afirmou Agostinho da Silva que «o perfeito amor exige vigorosa inteligência».
Ora nesta visão ou (re)união de (aparentes) opostos, e antevendo o cartesianismo, surgiu no século XIV, na Europa, uma figura misteriosa que utilizou o nome simbólico de Christian Rosenkreuz (Cristão Rosacruz) que certamente através dos Templários e talvez de outros impulsionou a ligação Ocidente-Oriente, onde as Descobertas portuguesas pontuaram de um modo incontornável, que só os inimigos de Portugal (fora e dentro) se esforçam por não ver. Alguém já disse que uma razão animada é como no ser humano fazer ponte entre o hemisfério direito e o esquerdo do cérebro. Se é forçado contrapor a essa dimensão geográfica Ocidente-Oriente - que inaugurou a era moderna - a razão e a alma, ou, talvez, melhor, razão/coração, não é incongruente dizer-se que o ser humano dá-se bem com o holos, e o seu fascínio pela unidade é, antes de mais, uma característica dos espíritos livres e pioneiros.
Eduardo Aroso, 15-4-2016
Subscrever:
Mensagens (Atom)