domingo, 15 de maio de 2016


PENTECOSTES EM SANTA CLARA ©

(Ao José Gomes
que labora nesse lado do rio)

Uma rosa abre-se do Alto
Vinda de uma raiz sem espaço.
O tempo é uma boca aberta
Sentado no ínclito regaço.

Senhora, porque passais
Com água e fogo em vossas mãos
Na caridade da espera
Pela gnose da consumação?

Uma rosa abre-se do Alto
Dada em pétalas de fogo
E se há palavras que não soam
Elas cantam no coração do povo!

Eduardo Aroso ©
Coimbra (Sta. Clara, 13-5-2016)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

PORTUGALIZANDO (4)

Portugal é uma super-estrutura numa infraestrutura que nunca existiu! O paradoxo é que o alicerce parece estar em cima, por isso os materiais de construção vêm do sonho e do além-história. Basta-nos a baba dos deuses! 
O necessário animar, pelo sopro do Espírito Santo no espaço numa fraternidade criativa. Só aí percebemos a queda definitiva de todos os adamastores; as não limitações de Deus, que certos teólogos gostam de procurar. Se sempre fomos empurrados para o mar, é este ponto uma espécie de purgatório, nem o céu de outrora nem o inferno de agora onde morrem todos os sonhos e esperanças. Mar, terra e ar, serão o nosso passeio, como viram Gago Coutinho e Sacadura Cabral, na via deste último elemento.
Todavia, há um cimento necessário, mas não esqueçamos que esse betão se faz e desfaz pelo sopro do tempo. Chamemos-lhe então simplesmente cimento do tempo, um heterónimo que se cria e se desfaz. Mas nele, como disse o bispo brasileiro D. Helder da Câmara, «não se pode prègar religião a estômagos vazios». Nem religião nem nada. Até as formas atraentes do sonho nos podem parecer fantasmas se um ancião tem que dormir num quarto húmido e não tem sopa para se aquecer de noite. 

Eduardo Aroso
12-5-2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

QUINTA-FEIRA ASCENSIONAL

Ergue-se a manhã névoa de anjos,
Sopro ondulante,
E a seara
Um salmo de espigas
Sonoras, harpas de natura.
Embutida é a esperança
Que há-de redimir a metáfora da fome.
Um fogo brando
Sem começo nem fim
Sustentando o mundo
Entre céu e terra
- E não se consome...

Eduardo Aroso
5-5-2016

sábado, 30 de abril de 2016



A PRESENÇA ©


As mães regressam sempre
Se o tempo nos vacila
E parece desprender-se do coração.
Vêm como um regaço
(A manhã que ainda dura)
Ou numa vertigem,
Doce repouso
Da lua brilhando
Na noite escura.

As mães regressam sempre.
Criam-nos a pulsação
E dirigem-na à distância
Ou na fala apetecida e umbilical.
E mesmo quando tardam
Vemo-las na hora
Mas difícil da nossa respiração.

Eduardo Aroso ©
2016



quarta-feira, 27 de abril de 2016

DO NOSSO TIMBRE

 As vogais são a flor da Língua. As consoantes são o apoio lançando o som puro (vogais) e sustentando-o, do mesmo modo que o jogador de ténis-de-mesa impele a raquete que batendo na bola a projecta no espaço. A perfeição vocálica, qual harmonia da música, depende muito de um espaço de ressonância. Observamos que o palato humano tem uma configuração idêntica a uma abóbada de um templo, e no seu microcósmico funcionamento ensinam os professores de Canto que a utilização do palato é uma técnica fulcral.
Considerando geograficamente o assunto da ressonância podemos observar (escutar) o fenómeno, por exemplo, num desfiladeiro, ou entre terra mar, quando o som das ondas encontra espaços vários e aí ressoa, combinando-se também com outros sons da terra, sendo certo que espaços amplos tendem a prolongar o som. Este, pela natureza dos objectos com os quais se cruza (e é claro também pela natureza do emissor) produz o timbre, um dos elementos essenciais da música, e que depende essencialmente da natureza dos materiais e do modo de obter o som. Ora, tal como as ondas ao longo da costa, em vários contornos, também as vogais emitem-se, prolongam-se, fluem e refluem, eventualmente mudando em subtis nuances o seu timbre. Assim tem sido ao longo de séculos, à imagem das “ondulações” do canto gregoriano nos claustros e abóbadas dos templos.
 Agora uma pergunta: o leitor já imaginou o que seria se todo o som produzido ao longo da nossa orla costeira de repente deixasse de se ouvir? Certamente notaríamos uma estranha sensação – fenómeno nunca sentido – da ausência do nosso som, do nosso timbre natural, realidade a que não damos atenção consciente no dia-a-dia, do mesmo modo que não sentimos directamente no equilíbrio do corpo os ininterruptos movimentos de rotação e de translação da Terra na sua divina marcha.

Eduardo Aroso

2013

domingo, 24 de abril de 2016

ALERTA MÁXIMO

É este o nome da flor.
E não te iludas com sinónimos
Que borbulham
Ao nosso brando consentimento
Que pisa a terra ou o asfalto.
A cor vegetal
Dessa espécie rara
Que se chama Portugal
Sobe lenta
E às vezes em sobressalto
Pela parede do tempo.

Eduardo Aroso
Abril, 2016


quarta-feira, 20 de abril de 2016

PORTUGALIZANDO (3)

Quando os USA nasceram como nação já sabiam que poderiam ser uma espécie de senhores do mundo, porque puderam ver que, com Lutero e Calvino, não seria possível uma Europa una, como recentemente se tem incutido, pois se pela religião se dividiu, pela moeda – bem mais perto da cobiça – mais facilmente se  desmoronava. Considerando a ciclicidade da vida, a uniformização político-económica que Bruxelas tem pretendido fazer na Europa é muito mais nefasta do que, com certas imperfeições, a presença da unidade católica medieval na Europa.

Hoje, o Estado de direito, último reduto para salvar um tipo de democracia desgastada, num jeito de justificação de consciência, não tem impedido uma descarada ingerência na soberania das nações, ao ponto de, em tão pouco tempo, lhes ter provocado os maiores danos. Ouçamos Agostinho da Silva que escrevia no tempo em que se davam vivas à “Europa unida”: «Uma economia que, solicitada pela necessidade de mobilizar grandes capitais para organização do comércio e mais tarde da indústria em larga escala, põe completamente de parte o princípio de lei mosaica mas principalmente de fé cristã de não deixar que irmão empreste a irmãos com o pensamento no juro» (…) «quebrando a unidade do cristianismo, impedindo que mais cedo tivesse o catolicismo, como lhe compete, abraçado o mundo inteiro, e produzindo o capitalismo, o comunismo na sua forma actual, a ciência sem moral e uma técnica que, louca, se enamorou de si própria (...).

Afinal, irreversivelmente, pese embora os benefícios que o protestantismo trouxe pelo desenvolvimento científico e tecnológico, a verdade é que a Europa optou por Lutero e Calvino. A este respeito ainda Agostinho da Silva: «Calvino vai ligar num sólido feixe lógico uma ciência sem fraternidade, uma economia sem fraternidade, uma religião sem fraternidade. A religião que, depois de ter pregado a volta do Evangelho, queima Servet e manda esmagar em sangue a evangélica revolta dos camponeses alemães».

Hoje, como sempre, faz comichão a muitos a realidade histórica de a essência de o povo lusíada ser de cariz universal!

Eduardo Aroso,

20-4-2016