AFORISMOS (45)
O BOM, o VERDADEIRO, o BELO. Prefiro este triângulo ao das Bermudas. Mais perto é o Cabo de Sagres, promontório que, no cabo dos trabalhos, dá passagem para a gávea do sonho.
Eduardo Aroso, 11-10-2017
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
domingo, 27 de agosto de 2017
LUTE CONTRA A ATROFIA MUSCULAR
Não deixe que os músculos da sua face se atrofiem por falta
de sorrir. Até na velhice sorrir é um sintoma de certa juventude, como haver
sol por trás das nuvens. Não se deixe atrofiar. Porém, não faça como aqueles
idiotas que querem rir à força nos
cursos que juntam grupos de pessoas para rirem todas ao mesmo tempo, porque,
talvez achem que é disparate sorrirem sozinhas!
Mas aqui é que tudo
começa. Estar perante uma flor, sorrir para ela não fica nada mal, até porque o
seu sorriso pode ser o de manter a sua beleza de um modo permanente e
incondicional, ao passo que o sorriso humano esvai-se e quantas vezes é pouco
natural. O mesmo exercício dos músculos da face podemos fazer junto do nosso
gato. Henri Bergson escreveu um livro sobre o Riso, enquanto atributo exclusivo
do Homem entre os seres vivos. Mas ficamos sempre na dúvida se o riso de outros
seres seguem o nosso padrão, pois que a sua morfologia e anatomia são
diferentes das nossas. Sabemos que Riso e Sorriso não são a mesma coisa. Porém,
aqui vamos colocá-los como irmãos.
Sorrir para o gato
pode ser um ensinamento para ele, como já ensinamos a fazer contas simples com
uma máquina de calcular a um chimpanzé. Sorrir para o gato pode ser tão eficaz
como passar-lhe a mão no pêlo. Quem sabe se, por enquanto não sorrindo junto
aos seus bigodes, o gato não sorri por dentro? Quem pode afirmar que sim ou
não? E o meu caro amigo (a) nunca sorriu por dentro?
Eduardo Aroso
27-8-2017
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
CANTAROLARES COM SABOR AZUL de Risoleta C.
Pinto Pedro
Quem começa a ler este livro, não pode deixar de ser levado pela memória até ao clássico «Nursery
Rhyme». Porque é de memória que se trata quando um adulto aborda a literatura
infantil, ou seja, é por esse fio que a pura poesia se encontra, já que a
vivência da infância, mesmo em casos de destinos difíceis, se há uma raiz
límpida, é aí que ela se encontra.
Mundo esse onde é sempre autêntico o tom das próprias palavras,
que só podem surgir por um dom, que é o de saber escrever para crianças.
Escrever para a idade da infância não é escrever versos e histórias em prosa
utilizando a criança como «tema» - os hipermercados estão cheios disso – mas
escrever PARA ELAS. Isso acontece quando ao primeiro verso ou ao primeiro
parágrafo de uma história, ouvida ou lida, elas ficam num estado de
encantamento que, parecendo às vezes não ouvir, gravam profundamente na memória
a voz de quem conta a história ou lê o poema e se mistura com a voz dos anjos e
das fadas que também podem estar por ali… A criança não é mera ouvinte; é a
própria história!
A experiência tem mostrado que a genuína literatura para
crianças, de um mesmo modo gracioso
também assim é recebida pelos adultos. E compreende-se bem, pois temos aí um
raro momento de descondicionamento de conceitos e preconceitos e de outras
pressões culturais. O adulto acorda então a criança adormecida que há em si, um
eterno menino coroado para a era do Espírito Santo, tempo da abundância do
espírito agora sufocado pela hedionda senha do «time is money» que em adulto
terá que percorrer.
A sonoridade da rima da poesia para a criança é tanto o que
sempre foi e será de encanto para ela
mesma quanto é o veio que atravessa a tradição popular, apetecível de escutar,
seja num aforismo ou rifão, seja numa quadra ou versos em jeito de narração,
como é, por exemplo, a Nau Catrineta. Assim, a rima é tão natural como o
respirar ou o andar a pé em cadência binária. Sabemos que caminhar, escutando o
som dos passos, é outra coisa.
Este livrinho (o diminutivo não o reduz, mas, pelo contrário,
torna-o uma pérola) agrada tanto a crianças como aos seus pais e avós. Bastaria
lermos o primeiro poema do livro de Risoleta C. Pinto Pedro para nos deixarmos
de imediato atravessar por uma saborosa sensação. Saborosa, porque, neste como
em outros poemas do livro, a poesia, para além da cadência, é táctil, tem
aroma. É um fruto e um rio. O leitor verá que todos os poemas, falando também
de animais e flores, são frutos suculentos, quero dizer que, sem ser necessário
levar muito longe a metáfora, as palavras têm suco; e levam-nos ao suco do
mistério da infância que teima em permanecer em nós, mesmo quando o fio da
memória interrompido nos anos, por certo esboça um último sorriso de alma, quer
o vejamos ou não.
«Vou ao pomar
apanhar
um poema
que não trema
como gelatina;
um poema rima
nascido de semente
e regado
de fio
a pavio
por um
amado
encharcado
líquido
rio. »
(Risoleta C. Pinto
Pedro)
Eduardo Aroso, Agosto de 2017
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
DO COMPLEXO FENÓMENO DO FANATISMO – DO ORIENTE AO OCIDENTE
Radicalismo, fundamentalismo e fanatismo, podendo tocar-se, inscrevem-se em realidades com géneses diferentes, mas não constitui propósito destas palavras esmiuçar a questão, mas sim uma outra. Quanto ao título, o que de imediato nos poderá saltar à mente é se o fanatismo é apenas uma realidade que se gera no seio de certas sociedades a oriente, amiúde sob um rótulo religioso, geralmente islâmico, ou se também no ocidente a mesma compulsão ou grau emocional imbuído de questões doutrinárias, políticas e de outra natureza, também existe, embora de outra maneira. Não pode haver esquecimento para o fanatismo ocidental hitleriano que pretendia exterminar os impuros de raça. O mesmo perigo ronda hoje um presidente que por certo, não em nome de Alá mas em nome de um egoísmo pessoal ou de interesses outros, pode disparar um míssil.
Se existe esta má sementeira também a ocidente, ela é uma realidade que não pode ser iludida. É hábito dizermos que há pessoas boas e pessoas más em todo o lado. Os fanáticos podem existir em qualquer ponto do globo, certamente não sobrevivendo da mesmo maneira, porque como bem observou Edgar Morin (e cunhou o conceito) as sociedades ditas evoluídas tornaram-se «complexas», termo que, em meu entender, se deve também, ler «completas». Está claro que, se assim é, os modos como pode existir o fanatismo para os lados onde o sol se põe, é bem diferente do seu congénere a oriente, e as máscaras que toma no ocidente fazem-no logo menos perigoso, pois, quando muito, tido como ideologia ou princípios, agredindo de uma maneira mais amortecida e até adocicada…
É um facto que o chamado «Estado de Direito» e o próprio diálogo democrático, com todas as imperfeições que possa ter em alguns países, vai estabelecendo a grande diferença entre fanatismo e convicção. Do ser tribal à individuação, como Carl Jung a viu, vai uma grande distância. E é indiscutível que à Europa a partir do Renascimento se deve a consciência mais nítida do que é a individualidade, porque individualismo é sempre a baba que cai sempre de qualquer boca mais egoísta.
O fanatismo tem-se conotado com o fenómeno religioso ainda que possa estar imbuído de alguma interferência sociopolítica, mas a mesma compulsão pode existir especificamente na política, com ou sem o nome de ideologia todavia em intransigente defesa partidária. Assim a militância, embora mais branda, é susceptível de assumir uma atitude fanática. Até na arte, que não obedecendo a normas rígidas (muito embora exista sempre um «espírito de época» e com a liberdade que acompanha o instinto criador) se pode encontrar algum fanatismo quando nega toda a estética anterior para criar uma outra de raiz. E não é menor fanatismo o que – e cada vez mais – é praticado por adeptos de futebol que não atirando nenhum carro para a multidão, podem, contudo atirar umas tochas a arder para a bancada dos adeptos da equipa adversária. Esquece-se bastante que muito embora tenha havido ao longo da História épocas de rupturas, o certo é que como dizia um velho agricultor da minha aldeia «o mundo é feito às camadas, como uma cebola».
Já foi dito há bastante tempo que muito mais difícil do que encontrar um ser verdadeiramente genial seria encontrar um ser equilibrado. E na diferença se pode ver a maior ou menor permeabilidade a essa incontrolada compulsão humana que tantos estragos faz.
De actos mais antigos como os “zelosos” da pureza doutrinal” mas que queimavam imediatamente os que lhes pareciam fora desse estado de graça; dos que são adeptos das touradas com reprováveis agressões aos animais, aos que, ainda ao jeito mais severo da lei mosaica, quase chicoteariam, se pudessem, os que se manifestam a favor da arena, vai ainda um caminho de compreensão que obviamente tem que assentar numa pedagogia de ética da vida. Ou dos que reprovam a utilização das lãs para não molestar os animais, esquecendo-se que é um bem para o próprio animal a mansa tosquia.
O que é estranho é que no Ocidente muitas situações de fanatismo são paradoxais, isto é, onde não era suposto haver tal desequilíbrio ele existe. Mas na génese do fanatismo parece estar a raiz de todos os males: o poder, isto é, a ânsia desesperada e errada de ter poder.
Eduardo Aroso
18-08-2017
terça-feira, 15 de agosto de 2017
JOSÉ LEDESMA CRIADO (POETA)
In memoriam
In memoriam
Avistava-se e era certeza
- um caminhar seguro
Movido pelo exercício vespertino das gaivotas
Lá para os lados de Buarcos,
Ou pelo mistério das ondas
A espuma que ele amava como o sangue.
Via-se e era uma aura extensa
Cadência larga no andar
E um gesto como a mão grácil de criança.
Antes do encontro
O abraço já estava no coração
E num ritmo que era só dele
A respiração, toda palavra:
- Hombre, que tal?!
- um caminhar seguro
Movido pelo exercício vespertino das gaivotas
Lá para os lados de Buarcos,
Ou pelo mistério das ondas
A espuma que ele amava como o sangue.
Via-se e era uma aura extensa
Cadência larga no andar
E um gesto como a mão grácil de criança.
Antes do encontro
O abraço já estava no coração
E num ritmo que era só dele
A respiração, toda palavra:
- Hombre, que tal?!
Eduardo Aroso
Verão 2017
Verão 2017
sábado, 29 de julho de 2017
MULHERES DE RIO DE VIDE ©
Elas tinham o dom de espremer a vida
Que a muitas só chegava gota a gota.
O sol era alto e forte
A broa um milagre diário
Do resto a fartura pouca.
Só nas manhãs de Maio
Havia perfume nos seus cabelos
Quando vinha a aragem sobre eles
Junta com o cantar do gaio.
As horas, fundas
Tal era a enxada na terra.
Dava-se conta delas
Pelo sino
Ou pela ovelha que dava sinal.
Levavam os filhos
Que ficavam sobre o avental
A alegria por cima
E a tristeza por baixo.
Essas mulheres são hoje invisíveis,
Sombras quietas de memória.
Ninguém as apaga.
Ninguém as derruba.
Mais firmes que as colunas de Hércules!
20-7-2017
Eduardo Aroso
terça-feira, 11 de julho de 2017
ÉPICA ÚLTIMA©
Agora os anciãos longe dos sinais de
trânsito
Já não pedem à beira das estradas
Nem vão para as tabernas recolhidas nos
museus.
Jogar às cartas é uma fase intermédia
E dar de comer às pombas no jardim.
O tempo de pedir esmolas
Passaram-no aos mais novos
Os que há e, quem sabe, os que virão…
O ímpeto para a sobrevivência
Está em aceitar o que lhes dão.
Vivem alheios e sem subsídios
Para a guerra que se trava dentro deles
A das sinapses no instinto de defesa
Sem palavras de carinho que as liguem.
Por fora a liça é visível
Sem cremes de remedeio:
Ficaram rugosos todos os mapas-do-mundo
A vida some-se para ficar incrustada
noutro lado.
Oh, milagre derradeiro! Raramente cai no
chão
Ali aos pés uma estrela vinda do espaço
longínquo
Lá onde talvez se entenda melhor o que é
a vida.
Quando isso acontece os anciãos
iluminam-se
Como a frágil esperança dos tratados de
paz.
E até na rugosidade da pele se percebe
Uma serena e iluminada explosão
De uma espécie de Big-Bang que logo se
desfaz.
Eduardo Aroso©
11-7-2017
segunda-feira, 3 de julho de 2017
O FACEBOOK
COMO CONFESSIONÁRIO
Nietzsche observou,
no seu tempo, que o jornal diário tinha vindo substituir o hábito para muitos
da missa matinal. Ainda que o papel impresso para notícias do quotidiano
continue a existir, mais de um século depois, as gerações novas rapidamente o têm
substituído pelo tablet ou pelo telemóvel numa mão enquanto a outra se ocupa de
uma bica e de uma nata. Num lapso de tempo, o mural de muitos utilizadores
tornou-se numa espécie de confessionário. Um estranho lugar onde, entre outras
coisas do expediente, se lançam mágoas mais ou menos dissimuladas. Mas também
atitudes tipicamente neomedievais de trazer pessoas ao pelourinho para lhes
aplicar a malhação, como aliás acontece por outras vias. Falamos de um espaço
livre, onde cada um coloca (à excepção de alguns interesses de publicidade
comercial) assuntos do seu gosto, e que por isso revela a natureza do seu
utilizador. Como disse um sábio «se queres conhecer uma pessoa, observa o que
ela faz depois de cumpridas as suas obrigações a que não pode fugir».
Descontada a
alínea barata da fofoquice, é no espaço de hodierno confessionário que o fb
apresenta uma das suas características mais interessantes, digna da atenção da
psicanálise ou outra área de estudo de observação. No confessionário digital, é
certo que o assunto passa a ser público, mais ou menos dissimulado, mas onde se
descortina a necessidade de confessar as tensões e problemas pessoais, quantas
vezes por causa de cicrano ou beltrano. Nesse novo espaço onde se julga aliviar
a alma (podendo mesmo aliviar), a moral é simples: todos os pecados são
perdoados desde que se fale verdade, ou pelo menos se faça por isso. Não
propagar a mentira já é muito bom. Viva o facebook!
Eduardo Aroso
domingo, 25 de junho de 2017
terça-feira, 13 de junho de 2017
FERNANDO (ULTRA)
PESSOA
Cada um puxa
e repuxa
Conforme é
capaz.
No jogo das
cordas
Surge sempre
Um académico
Capataz
Que dá a
ordem:
- Todos numa!
(Isso é
sistémico…)
O poeta (se
assiste)
Desfaz-se de
mágoa,
Na tola
justificação
Do vinho no
balcão
E que
persiste
De ter mais
uva ou mais água.
Mas puxando
Assim ou
assado,
Com força ou
com calma,
Ninguém lhe
desfaz o génio
Nem toca na
alma.
Eduardo
Aroso
Junho 2017
sábado, 20 de maio de 2017
«NO
PRINCÍPIO ERA A PALAVRA»
No princípio
era o Arquétipo
E o Arquétipo
era Deus muito acima
De perfeito
ou imperfeito
De bem e de
mal.
Era Deus Incriado
No paradoxo
divino de criar
E recriar.
Por ele é
que tudo começou
E por isso
Tudo É.
Tudo começou
a existir
Como uma
estrela que brilha
Onde o céu
era escuro,
Como os
frutos infinitos
Que
escorregam da árvore da vida
Dádivas de
luz solar,
Ou os ventos
que são a respiração de Deus,
Também os
mundos moléculas de ensaios
Do Arquétipo
Que brilha
sobre os tempos transitórios
Milénios que
se apagam da memória sensível do Homem.
Nem a morte
vence o Arquétipo Maior
Como um barco
em naufrágio sempre com salvação
É que no fundo
mergulho do amor
A morte
grita e ao mesmo tempo tem a sua redenção.
Eduardo Aroso©
20-5-2017
segunda-feira, 1 de maio de 2017
ESTATUTO DO ANIMAL, O AVANÇO
CIVILIZACIONAL … E O NOVO DESAFIO
A partir de hoje, em Portugal, um animal, sob o ponto de vista
jurídico, deixa de ser coisa, considerando-se um ser vivo e com sensibilidade. Basta olharmos para trás, para vermos que ainda
não há muito tempo os animais em geral (alguns em particular) eram submetidos a
maus-tratos intencionais e, em grande escala, a esforços desmedidos ajudando
o homem, para se perceber que estamos
perante um avanço civilizacional. Mais avançado será não os matarmos para comer,
o que felizmente alguns já fazem. Mas numa sociedade em que tudo tende a ser
COISIFICADO (onde cabe também dizer tudo a ser informatizado), a sociedade do
reino das estatísticas sentadas no trono sobre o soalho raso da insensibilidade,
tudo isto nos lança um novo desafio perante o estatuto do animal e perante os
nossos semelhantes masi directos. Desafio não só quanto aos animais (ou os
chamados «irmãos menores» no caminho evolutivo), mas nas relações fraternais
com os seres humanos, há que dar uma espécie de salto qualitativo.
Ter número de identificação fiscal não pressupõe sensibilidade - ainda
somos coisa. Tratar bem as árvores e plantas já é diferente, como diferente é a
relação com os animais. Mas tudo isto nos leva inevitavelmente a pensar no SER
HUMANO MAIS FRACO, quantas vezes FERIDO NA SUA SENSIBILIDADE e na SUA RAZÃO, e
não tem quem o defenda: as custas judiciais são caras e nem todos podem nascer
em “boas famílias”… e tratar da saúde, às vezes, fica caro.
A consciência do ecológico chegou quando se verificou a ameaça ao meio
ambiente, tal como a consciência do que é o animal se afirma agora plenamente,
pela constatação do que os animais têm sido sujeitos ao longo dos tempos.
Muitas vezes se diz que há seres humanos piores do que animais, o que não é
verdade, seja pela óptica do criacionismo seja pelo darwinismo, pois não
podemos comparar, por exemplo, uma garrafa de vinho com um automóvel. A razão
humana, não sendo comum ao animal (daí não se poder comparar) pertence à
natureza do Homem que a pode utilizar para o bem ou para o mal, daí a
responsabilidade do ser pensante. Vamos lá: dizer bom dia ao cão ou ao gato,
fazer um mimo, é tão importante como pensar que se deve dizer bom dia ao vizinho.
No que é verdadeiramente importante na vida, os actos que têm significado são insubstituíveis.
Eduardo Aroso
1-5-2017
domingo, 23 de abril de 2017
A
ESPECIFICAÇÃO DAS MARGENS
"O
homem e a hora são um só» (Mensagem, Fernando Pessoa)
Entre
os dois lados do tempo, no cimo de um muro que separava, cresceu um cravo, para
ver se chegava ainda mais alto à liberdade. Mais acima - águia silenciosa - havia um homem que
olhava. Podia chamar-se Destino, Ousadia, mas o nome civil era Salgueiro Maia.
Hoje há o muro em paradoxo, de outro jeito. Uns atravessam-no, mas há quem o
tema como de minério fosse, quando é a própria sombra. Hoje olhamos na vertical
o cravo no gume do muro. Para que lado cresce?
Eduardo
Aroso
23-4-2017
sexta-feira, 14 de abril de 2017
PÁSCOA E NATUREZA
O êxodo nestes dias de Páscoa em busca de praias ou de
itinerários serranos faz-nos pensar nas raízes portuguesas do nosso peculiar
paganismo. Todavia, se por um lado é um acto natural, de outro modo este ímpeto
actual repousa também numa crescente atitude turística dessacralizada. Não é de
todo inviável a vivência pascal no abraçar a Natureza que nos desponta e brinda,
isto é, fazer dela também um altar. Não parece ser todavia esta debandada de
gente, assustada com o sagrado, a busca de um Paganismo superior como queria
Fernando Pessoa. O impulso é mais um sintoma que contém algo de incrustado
desespero de quem já fez uma cisão com a Natureza: pelo lado de dentro, com
equivocado entendimento do lado de fora.
O penúltimo capítulo da
«História Secreta de Portugal» de António Telmo mostra o cenário que se nos
oferece ver. Quem se senta numa esplanada à beira-mar parece não suportar já a
sonoridade das ondas, as frases melódicas das gaivotas, em suma, a voz do mar
entrelaçada com o vento, coisa agora de metereologia ou algo que pode trazer algum
prejuízo aqui ou acolá numa plantação, se sopra mais forte. A música, de batida
insistente e em subido volume, abafando mesmo as conversas, diz que o dono
daquele espaço comercial, se assim não procedesse, a esplanada teria pouca ou
nenhuma gente. O dito “stress” – ou uma estranha relação com a Natureza – não se
desagarra das pessoas nesta via-sacra pagã. O espanto, face ao silêncio ou ao
som da terra e do mar, deu lugar ao medo do silêncio.
Eduardo Aroso
(Páscoa de 2017)
domingo, 9 de abril de 2017
Domingo de Ramos (in ilo tempore) ©
Dias antes já era uma azáfama, um louvar a Deus de
preocupações e alegrias. O corte do loureiro e enfeitá-lo não era menos
preocupação para os rapazes do que o lavar das casas para as mulheres. «A limpeza
Deus a armou» diziam as mais velhas, e assim teria que ser para dali a dias receber
o Senhor. Escova de aço nas mãos, sabão azul e os joelhos em penitência a lavar
o sobrado. Os aspiradores eram naquele tempo ficção científica.
A maior altura do loureiro que os rapazes levavam era o record
a alcançar. Mas quanto mais alto, mais peso, por isso os mais velhitos tinham
vantagem. À porta da igreja tinham que os baixar para entrarem
convenientemente; o entusiasmo era maior do que a altura! Estava ali a representação
bíblica, à maneira da aldeia, de gente simples mas autêntica. Era a nossa
entrada triunfal em Jerusalém. Lá dentro, alguns loureiros roçavam o tecto da
igreja perante alguma preocupação do padre que começava a celebrar a missa, não
fosse a pontareca de algum ramo bater no
azeite das lamparinas. Depois a água benta chegava a todo o lado no momento
próprio. Quanto às mulheres, não tinham problemas, pois os raminhos que levavam
quase cabiam debaixo das mantilhas.
À saída o entusiasmo não era menor do que
aquele que tinha entrado uma hora antes. É que para o Domingo de Páscoa faltava
uma semana e já se pensava no junco e no rosmaninho.
Eduardo Aroso ©
Domingo de Ramos, 2017
sábado, 8 de abril de 2017
PASCOAES – O ENCONTRO E A DISTÂNCIA ©
Desconhecido o convite,
Fui pelos meus sentidos
Para te observar as rugas
Que descem ainda do teu rosto
Escarpas perenes do Marão
Ao sol-posto.
O que persiste é a força da gravidade
Noite e dia sem descanso
A que os poetas chamam saudade.
Desconheço o convite
Para analisar as fontes,
Mas sei que as águas
São as primordiais
Que correm entre as duas margens do tempo
E que dispensam rastreio,
Pois basta nascer aqui
Para haver o mais sério juramento.
Belo é tudo acontecer
Na rebentação da terra
Até aos píncaros da serra
Onde as águias se reúnem
Ocultas
Livres do cumprimento de horários
Para atender à chamada.
Todas as esperas silenciosas
Fortificam o tutano da certeza
Em cada nova primavera.
7-4-2017
Eduardo Aroso ©
quinta-feira, 30 de março de 2017
UMBILICAL
A expressão corrente e pouco agradável de ouvir «não sair do
seu umbigo» ou estar apenas no seu umbigo» é, no plano qualitativo,
diametralmente oposta ao sentido tradicional do que representa este ponto
nevrálgico do nosso corpo e da nossa psique, aparentemente como toca do
egoísmo. René Guénon diz ser o «omphalos», relacionado com o Centro do Mundo,
sob o ponto de vista iniciático e espiritual. Também o umbigo humano é o
assento físico do chacra esplénico, a que os antigos chamavam o “segundo sol”.
Hoje mesmo, constitui um ponto de concentração em certas práticas de meditação.
Nesta perspectiva, se a ideia de Eu Superior tem algum acento físico-energético,
é no plexo solar na zona do umbigo, e que, aliás, fica sensivelmente no meio do
corpo.
Umberto Eco chamou a Tomar «o umbigo do mundo», coisa que
muito antes alguns já sabiam, ou seja, haver um “chacra” templário a meio de
Portugal, nesse local que, ligado a mais dois pontos, se denominou «triângulo
místico» português». O acto de cortar o cordão umbilical implica uma cisão. Ora,
o sentido dessa cisão não impede de continuar a haver uma profunda relação (tal
é o caso da mãe-filho) resultante desse centro ou útero de onde se nasce. Mas
também pode dar origem a uma perda irremediável. Não o será se o que se separa mantiver,
de certo modo, alguma continuidade nem que seja apenas por uma vaga memória. Não haverá cisão se esse Centro do Mundo ou
umbigo for como uma espécie de sol, que verdadeiramente oculto (o tal “segundo
sol” mas como também o Papa oculto) irradiando em todas as direcções. Aí pode
ser uma imponderável Rosa-dos-Ventos.
29-3-2017
Eduardo Aroso
sexta-feira, 10 de março de 2017
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
DAS REDES…
Hoje as redes sociais
deslaçaram-se completamente no passeio da rua sem viva alma, ao ponto de já não
chegarem às cadeiras vazias do café. Não se adicionou nem bloqueou ninguém;
aquilo era o que havia. Como é domingo, há uma rede cercando a igreja, rede
meia partida, mas mais forte à entrada do templo. Não falo nos vendilhões do
mesmo, mas dos pedintes. Reparei, mais adiante, que pelos alpendres e varandas,
sem as pessoas e flores que noutros tempos havia, é provável que por lá passassem e andassem umas redes invisíveis… claro está. Há mais: as redes dos quintais confundem-se
com as silvas. Até as redes dos pescadores estão limitadas; adicionar este ou
aquele peixe não é à sua vontade. O certo é que ninguém gosta de ser enredado.
Estar na fila é outra coisa. Melhor é voar e deixar o caminho livre para os
outros.
Eduardo Aroso
27-2-2017
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
APONTAMENTO ANÍMICO-BUCÓLICO©
Ao poeta António Salvado,
nos seus 81 anos
Os verdes prados insistem
Na rebentação dos dias,
À margem das insígnias da morte
Que alguns anónimos depõem em seres humanos.
Estalam as manhãs
No silêncio entranhado
Da humidade longínqua do Génesis.
A imunidade dos talos
E a seiva escorrendo
Como um grito de vitória
Pegajosa esperança ávida de respirar
Na boca agónica do mundo.
Se há ribombar do aço
Manchando a geografia,
Solta-se uma fonte,
Ave, ímpeto de sair do ninho.
Exaltam-se rouxinóis nos salgueirais
E as velhas alminhas brancas nos caminhos
Ganham aura de catedrais.
Eduardo Aroso©
(22-02-2017
entre Rio de Vide e Coimbra)
Ao poeta António Salvado,
nos seus 81 anos
Os verdes prados insistem
Na rebentação dos dias,
À margem das insígnias da morte
Que alguns anónimos depõem em seres humanos.
Estalam as manhãs
No silêncio entranhado
Da humidade longínqua do Génesis.
A imunidade dos talos
E a seiva escorrendo
Como um grito de vitória
Pegajosa esperança ávida de respirar
Na boca agónica do mundo.
Se há ribombar do aço
Manchando a geografia,
Solta-se uma fonte,
Ave, ímpeto de sair do ninho.
Exaltam-se rouxinóis nos salgueirais
E as velhas alminhas brancas nos caminhos
Ganham aura de catedrais.
Eduardo Aroso©
(22-02-2017
entre Rio de Vide e Coimbra)
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