quinta-feira, 11 de julho de 2019



HINO DA EUROPA OU A EUROPA SEM HINO?

Mais do que simplesmente representar a hegemonia alemã, aquilo que se designa por Hino da União Europeia representa, antes de mais, uma subordinação à inércia da não criação de um hino que expresse a ideia de uma Europa unida. Mas talvez não tenha sido por acaso que esta apatia existe, pois – trazendo um pouco a imagem -  assim como o azeite não se pode misturar com a água, seria, na melhor das hipóteses, difícil (mas não impossível) haver um verdadeiro hino que espelhasse as diversidades culturais do nosso continente. É indiscutível que, de um ponto de vista realista, perante o cenário mundial, é vantajoso uma Europa unida. Também indiscutível é a imortal Ode à Alegria de Beethoven. Sempre que escutada nos faz vibrar de esperança, mas é triste que se tenha transformado no símbolo do país onde se ancora o Banco Europeu e da economia que tem como almocreves Portugal, Espanha e Grécia. Aristóteles disse que «haverá sempre escravos» e nesta época calhou-nos a nós. Ainda que seja imaculada a Ode à Alegria, a uma nova realidade histórica deve corresponder um hino próprio que expresse mental e sentimentalmente as nações europeias sobretudo de quadrantes de sensibilidades distintas, como, por exemplo; ibéria, norte da Europa, centro e nações eslavas. Ou então a União Europeia não é realidade histórica, tão-só um contrato que dura umas décadas. E, obviamente, a solução não seria colar a Ode à Alegria a uns compassos da Marselhesa!  

Eduardo Aroso
10-7-2019



segunda-feira, 8 de julho de 2019

RECEITA PORTUGUESA (LINGUÍSTICA)
Não ceda às palavras dos dicionários digitais, de acordos ortográficos, ignore algum estilo jornalístico e as frases de rodapé que aparecem nas televisões. Não dê ouvidos à oralidade daqueles que começam sempre com «efectivamente…» quando nem sequer há efeitos nem efectivos! Na hipótese de não poder seleccionar, a preceito, lave tudo, deitando fora o que já nada se aproveita. Deixe a enxugar durante a noite. Se houver lua e aroma de algum pomar, tanto melhor. De manhã, verá que as palavras brilham, podendo soar com o mesmo rumor antes da banalização do acto sagrado da comunicação.
Eduardo Aroso
Julho 2019

quinta-feira, 4 de julho de 2019


HOJE E SEMPRE ©

A sublimação dos caules
É a celebração mais alta.
A seiva e os espinhos
Mostram-se nos passos
Na busca do bodo vegetal.

Move-se o povo  em silêncio
Pela palavra perdida
- nunca escrita -
Nas dobras ocultas dos livros.
Liberte-se a fome e a sede
Sobre os jardins de água.
As rosas ainda amanhecem
No plasma das nascentes.

Eduardo Aroso ©
Julho, 2019 


sábado, 29 de junho de 2019

PORTUGAL E OS DISCÍPULOS DO FILÓSOFO SÓCRATES

Diz a tradição que os discípulos do filósofo Sócrates lhe chamavam «atopos», ou seja, o indefinido ou não localizado, o que se pode entender como alguém intocável na sua sabedoria. Não fosse ele humano, do sumo pensador poderiam dizer abscôndito, raro adjectivo apenas quando se trata da mais alta transcendência. Portugal tem sido entendido como Porto do Graal, terra Ophiussa, lugar de Ouroboros, ou, geometricamente e em estilização, nação com a forma de dois quadrados juntos. Onde sensivelmente eles se tocam, está a cidade de Tomar, foco principal da presença templária, irradiante no passado e ainda hoje magnético. À cidade do Nabão e do Convento de Cristo chamou Umberto Eco “umbigo do mundo”, o que equivale a dizer Plexo Solar ou Sol do Mundo, porque dizer umbigo ou sol tem exacta correspondência, quanto mais não seja pela equidistância daquela parte do corpo aos extremos deste.
 Diga-se que a este propósito convém ir um pouco mais fundo na ideia de centro. Para além do que em geometria representa, originando a circunferência - não esquecer que esta deriva do ponto (centro), enquanto este pode existir sem ela – René Guénon, num contexto simbólico, lembra que a ideia de centro «é passível de uma transposição similar, mediante o qual se despoja do seu carácter espacial, que só é evocado a título de símbolo». Ou seja, existindo, o centro pode ser quase ou mesmo «atopos». Seja como for, o centro é o princípio do qual se parte em qualquer direcção e no plano do pensamento para qualquer raciocínio especulativo.
O tão famigerado tesouro dos Templários que tantas peregrinações e rotas tem conhecido, árduos estudos, e longos debates, não parece ser contudo o ouro de melhor quilate – sendo bom para muitos, é pouco para alguns. Tratando-se do metal brilhante, mesmo que bem guardado, poder-se-ia dar o caso de alguém, até por descuido, entrar num subterrâneo qualquer e dar de caras com tanta riqueza, ainda por cima com a vantagem de se poder registar logo as coordenadas no g.p.s. (! ).  A aproximação dos discípulos a Sócrates, mesmo sendo ele «atopos», por certo era lenta como também o tempo requerido para os eleitos de Pitágoras que, antes de se manifestarem, teriam que observar silêncio durante alguns anos. Posto que o tesouro dos Templários não se encontra de um golpe, parece ser mais fácil a aproximação dos que o procuram, do jeito dos discípulos de Sócrates (estando, é intocável), pois o que seja esse tesouro só pode ser uma Gnose (de acesso merecido e por isso consentido), não se encontrando certamente descendo as escadas de um subterrâneo. Dir-se-ia mesmo que ao tesouro se chega metaforicamente subindo as escadas, que poderão ser as do fogo serpentino da coluna vertebral ou outras, como passar incólume nas que servem a Torre de Babel. Tudo isto nos leva, em convergência, à questão nuclear do que é Portugal: de que centro (atopos?) têm partido os raios infinitos dando lugar a circunferências concêntricas de mais de oito séculos. O paradoxo é que, considerando as últimas décadas de Portugal, no balanço final da sua Expansão e a entrada na sociedade por quotas chamada CEE, é natural haver, noutra ordem, quantas vezes insuspeitada, mais uma circunferência onde parecia não existir, até em pequenas coisas do dia-a-dia onde haja um português no mundo.
 O Portugal oculto tornou-se mais invisível? Tudo é possível até mesmo (considerando o último século) a morte de Portugal proferida por Junqueiro e por outros nos dias de hoje. Pelo simbolismo do ponto e da circunferência, é óbvio que actualmente o movimento desordenado se alheia cada vez mais do centro ou propósito, chame-se-lhe ainda razão maior de Portugal. No plano visível é sabido que o centro de decisão (despojado de símbolo)  parece estar mais em Bruxelas do que no Terreiro do Paço, no Banco Mundial ou outro parecido, não nas veras necessidades do município, não se podendo negar que haja, num centro simbólico algures entre nós, alguma “oposição” salutar e equilibradora. Assim sendo, é decerto «atopos», ao contrário dos que vemos diariamente nas televisões. O centro (que pode ser plural) tem os seus sinais em muitos locais do país. Todavia, além do locus, há o pulsar na História e na Língua. Por acaso, ou não, a palavra Centro e Verbo têm as mesmas vogais pela mesma ordem.  
Eduardo Aroso
Solstício de Verão, 2019

domingo, 26 de maio de 2019



REPETIÇÃO DA FÁBULA©

Os cônsules escolhidos regressam sempre
Vestidos de túnicas sobre seda digital.
Treinados no velho império romano
Vieram para engrossar as legiões
Que devem seguir por montes e vales
Ou talvez quietas a vigiar gente.
Têm dejua forte, pratos a toda a hora
E bem servidos…
Só assim há força
Para derrotar os inimigos.
(Césares sucessivos passeiam
Nos corredores
Sem que se mostrem, alheios ao sol).

No débil burburinho dos gorjeios
Muitas aves já não se ouvem
Retirada a amplificação sonora.
A criação é de cordeiros
(Os lobos maus têm o seu covil)
As legiões revezam-se.
Sentinelas da noite
Vigiam atentamente
Hora  a hora
Para que os galos do mundo
Não anunciem a aurora.

Eduardo Aroso©
Maio 2019

quarta-feira, 15 de maio de 2019


DAS MÁSCARAS, DOS (MAUS) ACTORES E AS PLATEIAS DE PACÓVIOS

Em muitas e duvidosas representações de hoje, a inversão da máscara não significa virá-la do avesso, como se faz a uma peça de roupa mal vestida. Posto que está na moda as máscaras serem escolhidas como sendo de preocupadas e edificantes personagens, os que as movem não são, via de regra, confiáveis no que pretendem representar. Quando a máscara cai percebe-se então que são maus actores, ou seja, o que representaram não estava de acordo com o perfil da máscara, o que não deve confundir-se com os eméritos do nosso teatro português.
Na antiga tragédia helena, onde havia a autenticidade do colectivo (a forma de arte humanamente mais completa e complexa, com um envolvimento muito acima das actuais performances), a diversidade da vida obrigava por vezes à representação de figuras pouco simpáticas, ou mesmo opositoras da sociedade e temperadas do cómico. Existia, como ainda hoje, o bobo, figura de papel singular, paradoxal, criticando e corrigindo desmandos, numa linguagem que só a  ele era permitido. O monarca e bem assim toda corte ouviam  dele o que a outra pessoa não se autorizava, sob pena de severo castigo. A conhecia obra de Shakespeare «Rei Lear» apresenta esse primor de bobo, como também, pese embora um cenário bem diferente, «O Pobre Tolo» de Teixeira de Pascoaes.  
Quanto aos bobos, não são os actores do poder político e  económico, pois, como já referido, representam mal. Ainda que de um modo tímido, podemos ser nós os bobos, mas falta-nos a ousadia de ir à corte e fazer de bobos sérios, isto é, cumprindo bem o papel, e depois de tirarmos a máscara, todos ficariam a saber quem são os (verdadeiros) actores, cujos rostos são ainda dos velhos lusitanos, defendo-se dos impostos disfarces do restos do império romano, guerreiros cujas faces podem servir bem a máscara sem truques, actores para o que der e vier…

Eduardo Aroso
Maio 2019         

terça-feira, 30 de abril de 2019



ONDE FICA O LARGO DA PORTAGEM? ©

Procura-se na memória intermitente
Que descansa  longe
Talvez num sofá ou cadeira de rodas.
Chega ali ainda a vaga frescura das tardes
Do Mondego que subia livre na enchente
E arrefecia impiedoso os pés do Mata-Frades!
Ah, nas grades de ferro à beira da água
Arremetia-se com estrondo a liberdade
E o esvoaçar mais largo das fitas era sinal
Que poderia ser outra largada de aves.
Pergunta-se ao neto que escreve no telemóvel
Mas não sabe já o que é o Banco de Portugal
E onde fica a página que se abria extensa
Que ia do Parque até à Rua da Sofia.
Busca-se o sítio do Largo da Portagem
Talvez no Google ou no facebook
Mas a verdade da vida, que escorre e tem aroma,
Não admite, no fim de contas, qualquer truque.
É virgem fugidia essa calçada que não se pisa
Flores, amores-(im) perfeitos regados com espuma de cerveja.
Pergunto pelo verso que já não se escreve
E a assinatura feita no colo da esplanada
Com o rio em frente, primeira testemunha.
No tempo sem assento entra-se e sai-se num instante
Mas ao chão do Largo da Portagem já não se vai.

Janeiro de 2019
Eduardo Aroso©

quarta-feira, 24 de abril de 2019



    45 ANOS A FAVOR E CONTRA A CORRENTE

 «Mansa colmeia a que ninguém colhe o mel» (Miguel Torga)


Quem quiser apreciar a obra que deveria ser de fundo do pós 25 de Abril, viaje pelo INTERIOR do país. Digo o pós, porque o 25 foi na verdade a devolução da liberdade e garantia de uma Constituição democrática. O que se tem feito pelo verdadeiro desenvolvimento em terras do chamado «Portugal profundo» durante cerca de quatro décadas, nada deve aos sucessivos governos centrais, mas ao empenho daqueles que (descontando-se o “caciquismo” que há em todo o lado e as verbas obrigatórias tipo «migalhas para pobres») ainda sentem o «locus», o sangue dos antepassados naquelas terras e, claro está, a sensação aguda de que ou se mexem a sério ou ficam a perder.

Um pouco no cansaço do tempo do homem de Santa Comba, pese embora a diferença qualitativa (felizmente), os discursos das cerimónias oficiais soam hoje cheios de cansaço, numa atmosfera europeia também cansada. Não porque a liberdade, democracia e pluralismo, não tenham todo o sentido. O problema é dos vícios arreigados – que o povo sente inconscientemente – que não deixam acreditar e que não têm permitido o progresso estruturado e estruturante. Esta, sim, a verdadeira revolução e não outra com mais ou menos golpes que puxam para trás e, como a História ensina, fazem depois dos “revolucionários” caricatos “pseudo-conservadores”.

 Na verdade, vivemos na «sociedade do cansaço» como diz Byung- Chul Han. O idealismo de vultos notáveis que se criou e que lutou durante a ditadura do Estado Novo, perdeu-se no momento em que a liberdade cívica e política foram devolvidas aos portugueses e logo começou uma certa “ditadura” que emanava da EU. Foi uma soberana oportunidade perdida. A quebra desse idealismo português já anteriormente se havia notado na passagem do 31 de Janeiro de 1891 para o 5 de Outubro, e no novo regime logo tristemente reduzido a querer mais Europa e mais verbas. O trabalho maior estava ainda por fazer, na bela manhã do dia 25 trazendo a POSSIBILIDADE de tal. O 25 de Abril (devido em boa hora aos militares e a mais ninguém, pois o resto é do tipo ”cereja no bolo”) foi uma possibilidade que democraticamente se foi cumprindo no que foi, e não o sonho no postal ilustrado que correu mundo. Podemos compará-lo a uma boa terra, que foi bem lavrada e prontinha a semear. O resto era com os sucessivos lavradores… Por isso, vigiar sempre quem vai amanhar  a terra!
Hábitos e mentalidades persistem por muitos anos e só com ideais fortes e lutadores preparados se avança. A distorção que Salazar (por falta de inteligência) tinha de Portugal foi substituída por quem se  desinteressou pelo país, coisa que já no seu tempo F. Pessoa dizia: «São portugueses porque, por desgraça nossa, nasceram adentro da nossa fronteira».

 Quem olha hoje para a Assembleia da República, para os meios sindicais e partidários e até para os desejados movimentos de cidadãos (que quando surgem são logo captados) vê que os vícios do antigamente persistem, desde a burocracia, a compulsão para o imposto e a taxa, o gosto pela gorjeta, o ganhar “a meias” (ou o dividir por mais alguns), os estranhos meandros da justiça, o deixa-andar…Hoje estamos melhores (tortuosamente melhores, mas estamos melhores) que no tempo em que muitos foram esturricados no Tarrafal pela Pide e uma professora tinha que fazer um requerimento ao Estado para casar com um professor (!)

No entanto, as “abelhas” dos pinhais e das serras interiores, vivem hoje cheias de solidão, com televisões, internet e estradas de alcatrão, e com cada vez mais Lares de idosos, que são hoje os monumentos nacionais de vilas e aldeias. Cá fora sopra o vento da solidão nas casas sem ninguém. A «mansa colmeia» já não pode ser mais do que isso, até porque descende dos brandos costumes. As “abelhas novas” escasseiam e, pelo jeito, não se indignam mesmo quando a velha capital do império ainda não perdeu o hábito de carregar com os idos impostos da pimenta e o marfim…

Eduardo Aroso
Abril 2019

terça-feira, 19 de março de 2019


S.O.S. UNIVERSAL ©

O mundo afoga-se lentamente
Trágica repetição do Titanic
Em terra julgada firme.
Come-se o pão da desconfiança
No esquecimento da semente.
Não há bóias gratuitas
Nem Constituições salvíficas.
Presas não se sabe onde
Restam duas cordas
Uma para cada mão:
A fé e a razão.
Agarra-te!

Eduardo Aroso ©
19-3-2019

quinta-feira, 7 de março de 2019


DIFÍCIL GRAMÁTICA©
(In memoriam das mulheres
da minha aldeia)

O verbo era sempre amar.
Em cima da mesa
Artigos indefinidos.
A enxada nas mãos
Única certeza.
O verbo era sempre amar.
Quanto aos substantivos
Eram muitos,
Eram os filhos.
As mães trabalhavam
Em difíceis substantivos:
A terra e a água
Levadas à raiz
Como um seio à boca
O verbo era sempre amar.

Eduardo Aroso©
17-2-2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


 SUPERAÇÃO  DO COLÍRIO
 (Para Arthur Berberian, fraternalmente)

Nas mãos temos o fruto estranho do tempo.
Sem límpido movimento de olhar o céu.
Perde-se na metamorfose da cor,
Na mímica obscura, estatística fácil
Sob lúcifer intruso, rosto do vero sol
Ilusório véu ou catarata no espírito ágil
De visão livre de qualquer lamento.

Nas mãos temos o fruto de dois gumes
Que brota ainda de páginas vinciadas,
Labirintos que tecemos e outros mecanismos
Sem alma que prolongam a oclusão criada
Na noite maior que criou os dualismos.

Vela oculta e amorosa a Mãe universal
A panaceia espera a nossa madrugada.
Toca-nos o perfeito vislumbre da aurora
No anseio em delírio para eliminar o mal,
Busca-se o colírio sobre ávidos olhos
E os olhos choram porque não vêem.

18-2-2019
Eduardo Aroso ©



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

AFORISMOS (47) ©

Sou o rio que não olha para a margem direita nem para a esquerda. Elas são o que são na vida; fazem o que tem de fazer. Eu procuro o mar, onde há a explicação para todas as águas, quando olho o azul e o alto.

Eduardo Aroso
19-2-2019

sábado, 26 de janeiro de 2019


SÃO ALTAS ©

Estas árvores são altas!
Nelas correm todos os sentidos
Que há na seiva do tempo.
As metáforas desabam em cascatas
Viçosas algumas respiram juventude.
Parágrafos viscerais e palpitantes
Ébrias de olhos que as vejam
Geografias do espanto e distantes
Companheiras de Magalhães
Para darem ao volta ao mundo.
A imaginação é além de redonda
Geradora de todos os nascimentos
O verbo fecundo que foi dado às mães.

São altas estas árvores antigas
Colunas de Hércules cujo vigor
Abala a primeira morte
Que é o esquecimento.
Elas permitem refazer do pó
O que foi duro mineral ou acto de amor.
Abraçar estas árvores
Oh, estranhos cruzamentos de biologia
E quando tudo pulsa às vezes acontece
Que a verdade da natureza fala pela voz da poesia.

Eduardo Aroso©
25-1-2019

domingo, 20 de janeiro de 2019


A BEM DA NAÇÃO, O BEM DA NAÇÃO, OU O MELHOR DA NAÇÃO?

Nos tempos em que o melhor (ou grande parte) da nação era silenciado com a conhecida fórmula de encerramento dos documentos oficias “A Bem da Nação”, na verdade isso sufocava o que não podia existir autorizado e que era muito bem da nação. A frase lapidar ficou como enganadora, porque o rótulo não correspondia ao conteúdo, na visão difusa de Portugal do homem que, sendo monárquico nos ossos e na alma, todavia na sua sede de poder não podia exercer essa condição por estarmos numa república.
 Depois veio a esperança para o melhor da nação. Seria até interessante que agora se contrapusesse com a fórmula “Para o Bem da Nação” ou “Para o Melhor da Nação”,o que afirmaria a tal política patriótica. Mas seja como for, ninguém de boa consciência, pode fugir à pergunta se vivemos hoje o melhor da Nação. A questão dos nacionalismos (confundidos com muitos ismos) tem sido assunto mal esclarecido,  porque há que distinguir o trigo do joio. Até o insuspeito  Chomsky, que não se deixou baralhar porque é um pensador, numa entrevista ao EL PAIS (Março de 2018), perante a pergunta «teme o nacionalismo?», respondeu: «Depende, si significa estar interessado en tu cultura local, es bueno. Pero si es un arma contra otros, sabemos a donde puede conducir, lo hemos visto y experimentado».
 Numa simples leitura se vê que a palavra interNACIONALISMO (outro conceito ou ideia sujeita a baralhações), só tem sentido quando há NAÇÃO. Havendo sempre pátria e mátria no que se herda dos antepassados, país na geografia e nas leis que se fazem e desfazem, a nação, embora mudando em lenta estratificação, perdura como rosto ou tatuagem anímica e psíquica de estabilidade, nomeadamente pelo idioma e costumes, pelo que deve preservar a sua autonomia. Por outras palavras, um país que não afirma a sua condição de nação e  espera subsídios para viver, importa ideias desajustadas à sua condição, é pouco mais que uma colónia perante quem subsidia. Talvez se entenda que não se avance com a fórmula final nos documentos oficiais «Para o Melhor da Nação», pois, ainda que no actual sistema democrático de alternância do poder (ainda bem), o que muitos desses gostariam era a velha falsa despedida «A Bem da Nação».

Eduardo Aroso
 20-1-2019
  

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


CONSUMMATUM EST
(25-12-1929/12-1-2019)

Um dia as mães regressam ao oriente
Ao rasgo de luz de todas as nascentes,
Etérea placenta dos reencontros.
Lá se confundem mimos com flores,
Choros de infância são cantos de pássaros.
Não falo do pão e do leite que se deixam
Assim é o nosso andar de caminhantes.
Digo dos frutos de amor incandescentes,
Regozijos de alma, os melhores timbres.
Um dia as mães regressam como se nascessem
Outra vez e de outro modo sem idade.
Por enquanto ficamos a embalar o tempo
Criança delicada que se chama saudade.

Eduardo Aroso
12-1-2019




sábado, 15 de dezembro de 2018


O PRESÉPIO DIVINO, PLANETÁRIO E ECOLÓGICO

Armar o presépio – tal a expressão tradicional – sem armas, mas cuja armação tem o amor e a estética que cada um possa dar. Toda a humanidade faz parte de um presépio gigante, bem mais complexo do que o modelo que chegou até nós pelo gesto amoroso de Francisco de Assis. Não seria de admirar que o santo, nos dias de hoje, pudesse também imaginar um presépio à escala planetária, onde não faltem árvores sãs e águas limpas. É certo que alguns não vêem nesse presépio planetário o Menino Jesus, embora ele esteja presente para quem o pode vislumbrar. Muitos entendem a vaca apenas como produtora de leite e dadora da carne, ou o burrinho como epíteto dos mais pobres de inteligência, ou, pior do que isso, um conceito difuso de direitos de animais e pessoas. Quanto ao resto dos figurantes, é certo que alguns não podem estar junto de outros (coisa natural), porque os incómodos são cada vez maiores. Por sua vez é isto que dá sentido ao mundo, na sua complexidade e diversidade. Mas… os rios poderão deixar de estar limpos, os poços vazios e as fontes secas, falando eu também daquelas fontes onde a alma se sacia mitigando aquela outra fome que corrói por dentro, a que muitos também chamam solidão. Quando à falta de fé no transcendente, se a isto se juntar definitivamente a frouxa e desesperançada fé no actual sistema político e nos seus “apóstolos”, ver-se-á que, pior do que ser educado num colégio de freiras ou num seminário é vaguear pelo mundo sem emprego e sem família, cujo único horizonte é um “cigarro doce” ou uma seringa na mão. Eis a morte do velho IDEAL helénico ou mesmo renascentista do Ocidente, trocada pelo comando tecnológico (uma espécie de “feitiço contra o feiticeiro” e não o contrário, como é desejável); do materialismo como monarca supremo do mundo; ou o consumo do sexo em saldo e a inquisição dos mercados. Mas tudo isto, em tempos de agonia, nos conduz à ideia de que ainda vale a pena ter um presépio ideal. E a palavra-chave é renascer, seja como for.

Eduardo Aroso©
Natal, 2018    


terça-feira, 27 de novembro de 2018

ANTÓNIO TELMO E O SENTIDO DO ESOTERISMO OCIDENTAL

«O movimento da filosofia deverá consistir, pois, não em fugir para um mundo suprassensível, mas em tomar consciência da imensa força na qual vivemos e somos, - em encontrar o dissolvente universal. (Arte Poética)


O declínio da Palavra no ocidente tem sido a causa maior da ilusória busca do orientalismo espiritual não só como rápida panaceia para os males da sociedade do apogeu do consumo material, como também para uma via espiritual por excelência dos pensadores que esgotaram a sua exegese mais profunda no seio das igrejas. Seja por uma rápida atitude, como quem já não vai a Fátima, para querer peregrinar por outras bandas, seja na busca de razões para entender o chamado renascimento ou reincarnação ou mesmo esse ignoto sentido do silêncio como alicerce de toda a Criação.
 No primeiro caso, vemos a profusão de incensos em cada esquina, ou posturas corporais (quantas vezes chamando yoga ao que não é yoga), mas que prometem um quase imediato adiantamento da alma. Tem sido este o refúgio de um mundo que, tirando vantajosamente o pó que vinha acumulando, condicionou-se entre as hostes marxistas e os corredores jesuítas.
 A proliferação de inúmeros livros de auto-ajuda parecem ter esquecido a máxima helénica «conhece-te a ti mesmo», porque também ao declínio da Palavra corresponde um preocupante afrouxamento da vontade.
A desesperada busca do silêncio (desesperado acto também da (re)ligação à Natureza perdida), se é verdade que lhe confere a essência sagrada habitante no caos como possibilidade de tudo poder-vir-a-ser, de outro modo não pode ser o refúgio ilusório ocidental onde se tentam ludibriar os traumas que a adulteração da Palavra (quando não profanação) tem trazido. Uma abordagem mais exigente entre nós, na busca de insondáveis gnoses que ultrapassem academismos e ortodoxias enxertadas, parece ter esquecido a tradição templária e o sinal da Rosa que foi colocado no Convento de Cristo de Tomar, ainda antes dos primeiros Manifestos Rosacruzes surgidos na Alemanha. A rápida divulgação do budismo no ocidente e de um modo específico em Portugal, curiosamente apetecido por algumas classes cultas e de jovens, pese embora a sua inquestionável condição benigna de remeter o ser humano para a sua essência, sendo por isso o ideal para muitos ocidentais, não vem esclarecer mais o silêncio que os frades medievais, para os quais o céu era mais que o nirvana onde as almas se dissolvem num incognoscível Absoluto.
Por tudo isto, o filósofo António Telmo, também ele leitor atento de Bergson, não poderia deixar de alertar para o movimento da filosofia que preconiza a exaltação da Palavra indispensável à expressão do pensamento. «A gnose hebraico-portuguesa distingue-se da gnose oriental valorizando a palavra sobre o silêncio, procurando no silêncio, não o pensamento que se torna inefável, mas o pensamento que se transforma em palavras que iluminem as trevas em que vivemos» (A. Telmo, conferência, 1996).
Na verdade o Génesis consagra o Verbo como supremo agente do mundo, justificando-o nesse mistério. Milhares de anos depois, João, o apóstolo amado, abre o seu imortal evangelho com a chave do Verbo, pormenor que não escapou ao autor dos chamados Painéis das Janelas Verdes, no que é tido como o painel do Santo, com o livro aberto no intróito desse evangelho, porventura o ponto focal de toda a obra, pese embora o panorama holístico que nela colhemos. Ferir ou romper o silêncio é o acto mais sagrado que só a Palavra pode fazer. No mundo ocidental (porventura todo ele agora que está sob o olhar atento da Besta) o poder temporal, no declínio da Palavra, promete a salvação, a curto prazo, para quatro ou cinco, no contraponto ao poder espiritual que no fim desta vida promete a salvação, quiçá a vida eterna.
 Se o silêncio é prioritariamente condição de chegada, então a Criação do mundo não tem servido para nada, como se o ser humano voltasse ao caos, uma espécie de “posição fetal”, porque o sentido da Manifestação foi acentuado pelo Verbo com os seus múltiplos efeitos. O pensamento abstracto só faz sentido quando se sabe o que é o pensamento concreto.

Santa Clara (Coimbra) 27-11-2018
Eduardo Aroso©

sábado, 17 de novembro de 2018



«FÁTIMA E A CULTURA PORTUGUESA» de Miguel Real

«Sente-se, logo existe (…) a Presença, porém, basta-se a si própria como explicação e justificação. E como fundamentação» (página 51)  


O título da obra não induz ninguém em erro, qualquer que seja o pensamento de cada um sobre tão problemático tema, pois o autor, ao contrário de muitos outros, ao escolher tal designação não vem, afanosamente, defender uma tese pessoal. Miguel Real, numa visão omniabarcante do pensamento ao longo da história (como ele superiormente sabe fazer e tem o mérito de expressar), empenha-se em situar o fenómeno das Aparições na cultura portuguesa desde o passado mais ou menos remoto até ao que se projecta na nossa contemporaneidade.
O autor debruça-se bastante sobre o período que vai do final da monarquia e ambiente da república (1910), percorrendo-a e sublinhando mormente a época fracturante do sidonismo, chegando ao salazarismo e ao actual regime democrático. Se o caudal de informação, onde notamos a vastíssima bibliografia lida por Miguel Real, apresentando passagens elucidativas, o que por vezes nos parece excessivo (como se o autor quisesse quase abordar outro tema), o certo é que no último capítulo da obra se percebe tal necessidade, para assim situar, como é jus, os acontecimentos da Cova da Iria na linha da história, da religião, da própria igreja católica (em face até de outras) de algum modo da sociologia, e sobretudo da nossa condição mítica e iniludível genética transcendental. Algumas sínteses deste livro poder-se-iam aqui apontar, mas, por conveniência de brevidade, dir-se-ia que, sendo óbvio que o fenómeno da Cova da Iria não se insere numa lógica racional, ou pelo menos racionalista, ele obedece necessariamente a outra lógica em que a sua justificação não assenta tanto na argumentação, mas essencialmente na peculiaridade de todo o processo português (se quisermos desde Ourique) providencialista e mítico, com toda uma sintomatologia do transcendente que há em nós. Se existe (ou veio a existir) uma relação alterada no triângulo Aparição/Visão/Manifestação (ou o que quer que tenha sido) Igreja e Estado, permanece o enigma na continuidade, que pese embora o palco mundanista hoje montado para o efeito, ele não apaga a realidade subterrânea de Fátima que todavia persiste. Do que disse também o Professor Moisés Espírito Santo, em «Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima», vê-se que essa realidade subterrânea teve provavelmente a sua génese nessa região, mesmo antes da própria fundação de Portugal, pelo que 1917 seria outra manifestação moderna, quem sabe se do Inominado.

Eduardo Aroso ©
16-11-2018


quinta-feira, 25 de outubro de 2018


ODE AO BRASIL
(EM ACENTO AGUDO)©


De que lado é oriente, despertar,
No país do sul e vigor ocidental,
Do nervo de sol desfazendo ganga,
E agora de que lado vai soprar
O novo grito de Ipiranga?
Mexe no chão, mexe Brasil,
No grande rio que não desiste
Guarda-mor de tantas gerações,
No ar há sonhos que circulam
Sem que ninguém os agarre
E olha que há no povo vulcões
De lava saindo no lado errado
Não caias nos momentos antes
De acabar a grande maratona
Onde esperam bater palmas
Resistentes e répteis mutantes.
Vai além do meio tom cantado
Não te fiques no gesto de ancas
E rosto de meias-tintas consentidas
Avança no dia seja ou não impossível
Na hora que é tempo exacto
Das soberanas coordenadas tropicais:
Niemeyer ainda traça o teu perfil
E Betânia e Caetano, um de cada lado.
Metade samba e metade fado.

©Eduardo Aroso
23-10-2018