sábado, 11 de janeiro de 2020

NORTEAR-SE

Hoje andei por esses lados onde o Douro se entrega diariamente ao mar. Um destino que se funde noutro destino. E, salvo aquelas vizinhanças muito nossas que às vezes se arranham, Gaia e Porto são também um destino onde cada face contempla a outra. Urbes de forte pulsação anímica. Ambas as margens as vejo como dois ventrículos de um coração histórico, que quando o corpo da nação enfraquece lhe lançam mais sangue, e vêm por aí abaixo se necessário for, o que corrobora ou está no cerne da expressão tradicional do ideal de «não perder o norte». Portanto, sejam quais forem os problemas da vida, carago, não fique desnorteado! 

Eduardo Aroso
11-1-2020

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020


O (DES)VENTRE DA CIDADE

Dizer que a cidade tem sido desventrada não é grande exagero, pois não dá razão (antes desse) de um modo positivo ao verso de Camões «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», que se tornaram frouxas para mudanças. É certo que a  cidade conserva os ossos, sejam os do Fundador da Nação, sejam os do crânio herdeiro do «homo sapiens», que se conserva no cimo da colina onde Minerva, ora sopra inspiração, ora volta para férias no Mediterrâneo.
Os ossos, como é sabido, são os elementos do corpo físico mais difíceis de desintegrar; e ainda bem, porque a facilidade com que os sucessivos alcaides têm removido muitas vísceras da cidade, se o pudessem fazer quanto aos ossos, a urbe de séculos e séculos de História já não existiria, ou seria uma espécie de cidade da co-incineração como quis o tal personagem cujo nome ilude a designação de «homo sapiens».  A cidade vai vivendo, substituindo os órgãos naturais por outros de plástico, ou plastificados, e até – pasme-se – com um patético gosto por materiais de cortiça ou latas de conserva, nas artérias do corpo citadino, material que quase chega a entupir as vias. É óbvio que estas obstruções culturais ao perfil que a cidade deveria ter, não se resolvem com as cheias do Mondego que, com excepção de eventuais estragos, limpam tudo por onde passam.
Resta a peculiar atmosfera psíquica e anímica da urbe que, tal como os ossos, é sempre mais perene, constituindo uma espécie de réplica desses elementos duros. Inevitável é a pergunta: e ainda há então na cidade um «núcleo duro»? Uma coisa parece certa: temos que estar com atenção aos ossos da cidade e à extracção de certas vísceras… para que não seja embalsamada de vez.

Coimbra, 2-1-2020
Eduardo Aroso

domingo, 15 de dezembro de 2019


UM SALMO DE LÍRIOS

Ao poeta António Salvado 

Não se fatigam os lírios
De neles reunir a luz.
Passamos num chão desconhecido,
Imperfeitos para os tocar
Nem os olhos os recebem,
Onde já nem o corpo se curva
Nem as mãos para abençoar.
Finos cálices, recebem o melhor da terra
Outro mel para nos untar.
Tacteia a alma que busca, alheia dos sítios,
Ou fontes onde não sabe beber.

Silenciosa é a oferenda dos lírios,
Crescem em todas as presenças
Purificando a cor nas intenções.
Luz clara como a esperança
Para ocultar ainda
A plenitude do amor.

Natal de 2019
Eduardo Aroso



         SURSUM CORDA E A CELEBRAÇÃO DAS PRESENÇAS
                           V. Nova de Gaia, 14-12-2019

Os textos aos quais Bruno Santos deu o nome de Sursum Corda (Corações ao Alto), parecem querer trazer essa força indefinível, muito antes do anima e animus de Carl Jung ou de qualquer pulsão psicanalítica freudiana ou outra, força que provavelmente se invocava no ritual do cristianismo primeiro, sobretudo antes do século V.
 De que modo o autor nos convida e ele próprio oficia na sua escrita? Um pouco fora do habitual labirinto da dualidade, onde o mundo ocidental tanto se enfrenta e interiormente se degladia, e onde se pode inserir a ideia judaico-cristã de Bem e de Mal, que nos chega nebulosa pela nossa ignorância. O autor de Sursum Corda não podendo negar o conflito entre os extremos, busca o que se pode chamar também uma 3ª via. Ou seja, no movimento, Bruno Santos busca a espiral.
Textos do dia-a-dia onde, dentro do pragmatismo de muitos deles ressalta um certo imprevisto que pode surpreender os que esperam uma conclusão na atmosfera do «mainstream». Ou seja, há a atitude consciente de saída do habitual «pensamento que não pensa».
Em termos numerológico: o UM, vaga unidade, ou temas (teses) que vulgarmente não se tomam como deve ser; o DOIS, o autor, reconhecendo-a, ousa sair dessa dualidade «o inferno do mesmo» (como aponta Byung-Chul Han) e busca o TRÊS. E não parece fazê-lo como ousadia de síntese acbada de conhecimento/sabedoria dessa tríade, mas como acto criativo e por isso libertador do já citado  «pensamento que não pensa». Só por isto, vale a pena. O que importa é sair do labirinto.
Tomemos então SURSUM CORDA ou Corações ao Alto. Ajudemos a levantar o mundo.

V. Nova de Gaia, 14-12-2019
Eduardo Aroso

domingo, 8 de dezembro de 2019



A TERRA NÃO EMIGRA ©

Foram-se para o mundo
Como os dias
Que não se apanham mais.
Levaram o destino consigo,
Poucos móveis e muitas fotografias
Essas coisas estranhas que nas entranhas
Têm também o coração
Que bate para além do corpo…

A terra não emigra,
Corpo caridoso
Recebendo qualquer um de braços abertos.
O chão não emigra,
Porque se mantém no seu posto de vigia,
Ele que formou os ossos da infância
E está disposto a recebê-los já gastos.
Mas quando a fogueira ainda se acende
A terra dá flor com o aroma
Carregado sobre as lápides da memória.

Eduardo Aroso ©
6-12-2019

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA OU VIOLÊNCIA GENERICAMENTE UNIVERSAL?

Parece ousado o título deste texto, porque pode dar a impressão de quem o escreve diluir ou deslocar o problema, daquilo que, bem visível e próximo, nos choca diariamente. Todavia, uma reflexão mais profunda poderá buscar causas remotas no que o eminente filósofo Byung-Chul Han aborda em «Topologie der Gewalt» (Topologia da Violência), tradução e edição/Relógio d’Água, obra que deveria ser, no presente, (quase) obrigatória em muitas áreas de estudo. O autor faz uma análise em parâmetros muito abrangentes e progressivos, desde tempos mais recuados, passando na sociedade da era industrial, no capitalismo clássico, até aos tempos de hoje do «burnout». Em síntese, a violência passou de níveis externos para níveis internos, «mantém-se constante. Simplesmente se desloca para o interior. “A decapitação” na sociedade  da soberania, “ a deformação” na sociedade disciplinar e “ a depressão” na sociedade do rendimento são estádios da transformação topológica da violência. Sofre uma interiorização, torna-se mais psíquica e, nessa medida, invisibiliza-se».

Este tornar-se invisível – ou na linguagem popular o verniz e as boas aparências que não deixam de acoitar cargas tremendas prontas a explodir, de tal modo que nem sempre o detonador consegue escolher o local e o tempo mais propícios para o fazer! Sobre este movimento nefasto inerente à condição humana, Byung afirma ainda como chegou ao presente: «As execuções desenrolam-se em lugares aos quais a comunidade pública não tem acesso. A pena de morte deixa de ser um espectáculo. (…) O palco da violência sangrenta que caracteriza  a sociedade soberana, cede lugar a uma câmara de gás limpa e exangue, estranha ao olhar público. (…) executa-se como uma aniquilação surda e muda.» O autor alarga a sua visão do problema, referindo-se às forças do terrorismo que «também não agem em termos frontais, mas dispersam-se de forma viral e atuam de maneira insível» e «os vírus digitais, que se dedicam mais a infectar do que a atacar, quase não deixam rasto que indicie claramente o infractor».

A actualíssima síndrome do “burnout” é  «a relação tensa, de sobrecarga excessiva, de si mesmo consigo, que assume traços destrutivos. Do mesmo modo, o sujeito exausto e depressivo do rendimento atormenta-se a si mesmo. Está esgotado, farto de si mesmo, da guerra que trava consigo mesmo». Paradoxalmente, ao contrário do que seria suposto, há ainda a força tremenda que desemboca ou na violência sobre o outro, ou no suicídio, uma forma de violência contra si próprio, no interior para o interior.
  

Na opinião de certos autores, a violência está associada ao poder, parecendo, mais objectivado no espaço doméstico, porque escondido dos olhos da sociedade e da lei. Essa explosão leva-se a cabo não só pelo sujeito com mais força física, como pela intimidação, uma outra forma de violência mais lenta e branda, mas não menos cruel.
Todavia, Byung faz uma distinção: «enquanto o poder constrói um “continuum” de relações hierárquicas, a violência gera cortes e ruturas. (…) O poder caracteriza-se por juntar e encaixar, a transgressão e o delito, em contrapartida, definem a violência. O poder inclina-se sobre o outro até o submeter, até o encaixar. A violência inclina-se sobre o outro até o quebrar».

Nesta linha de pensamento, a interiorização desse mal estar terrível acaba numa tremenda fístula psíquica e emocional que, como é óbvio, rebenta mais facilmente no âmbito doméstico, essa mesma violência que, por exemplo, no mundo laboral já só pode agir como intimidação seja qual for a sua espécie. Se o patrão ou chefe hierárquico, age assim, não é por uma questão de (verdadeiro) poder, embora podendo valer-se da sua deturpação, mas porque é interiormente violento.

Eduardo Aroso
4-12-2019



sábado, 30 de novembro de 2019



AS DUAS ROSAS©

A rosa de Cesariny
Não é a Rosa de Pessoa.
Gémeas, vivem perto.
A do Mário é de espuma
Vai e volta de frescura.
A do Fernando é verbo
Inaudível para uns
Para outros não.
E contudo soa.

Eduardo Aroso©
Agosto de 2019