AFORISMOS (52)
As catedrais góticas foram os mísseis mais eficazes lançados para o céu. Ainda hoje nos fazem estremecer na interrogação sobre o modo como foram pensados e erguidos.
Eduardo Aroso
18-01-2020
Portugal universal; não o efémero que nos amarra como única realidade nos cárceres escuros onde mataram o Sonho. Poemas e textos, alguns publicados em livros e revistas impressos, outros em blogues e os dados a conhecer aqui, para o domínio público, seguindo o rumo da Criação: a obra nunca está definitivamente acabada.
domingo, 19 de janeiro de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
O ESPLENDOR DA BARBÁRIE
Reveste-se hoje de formas várias e subtis. Não é o barbarismo de
antanho, ainda que este não tenha desaparecido de todo e seja ele a referência
a toda a hora em programas de televisão, o de golpes de faca ou de pistola.
Atirar pessoas a um desfiladeiro é menos vulgar. Essa velha mas recalcitrante
barbárie era a que ainda não tinha subido evolutivamente na espiral para formas
mais harmoniosas de relação. A barbárie actual que se espalha como uma espécie
de polinização, é aquela que se recusa, que mais ou menos conscientemente quer
regredir, no desespero de tomar o poder em formas primitivas, ou em formas de
hipnotismo fácil, mas que resulta. A que toma a arte e, em nome de certo
futurismo, nos atola cada vez mais a sensibilidade para o Belo. A tal arte que -
diz-se – nos faz pensar (!) ainda que dispense o estético, arte que geralmente
atinge preços descomunais e que alguns municípios portugueses se alegram em
mostrar como formas modernaças de progresso. Esplendor também assente em palavras
como cooperação e lei, quando esta está feita com as alíneas que o cidadão
pobre não entende. E não é menor o barbarismo do ensino onde, como alguém já
disse, «se avalia mais o que o aluno não sabe do que aquilo que ele sabe», como
se esse infinito de saberes que se estende para as galáxias coubesse no cérebro
do mais inteligente dos seres.
Eduardo Aroso
Janeiro de 2020
sábado, 11 de janeiro de 2020
NORTEAR-SE
Hoje andei por esses lados onde o Douro se entrega diariamente ao mar. Um destino que se funde noutro destino. E, salvo aquelas vizinhanças muito nossas que às vezes se arranham, Gaia e Porto são também um destino onde cada face contempla a outra. Urbes de forte pulsação anímica. Ambas as margens as vejo como dois ventrículos de um coração histórico, que quando o corpo da nação enfraquece lhe lançam mais sangue, e vêm por aí abaixo se necessário for, o que corrobora ou está no cerne da expressão tradicional do ideal de «não perder o norte». Portanto, sejam quais forem os problemas da vida, carago, não fique desnorteado!
Eduardo Aroso
11-1-2020
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
O (DES)VENTRE DA CIDADE
Dizer que a cidade tem sido desventrada não é grande exagero,
pois não dá razão (antes desse) de um modo positivo ao verso de Camões
«mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», que se tornaram frouxas para
mudanças. É certo que a cidade conserva
os ossos, sejam os do Fundador da Nação, sejam os do crânio herdeiro do «homo
sapiens», que se conserva no cimo da colina onde Minerva, ora sopra inspiração,
ora volta para férias no Mediterrâneo.
Os ossos, como é sabido, são os elementos do corpo físico mais
difíceis de desintegrar; e ainda bem, porque a facilidade com que os sucessivos
alcaides têm removido muitas vísceras da cidade, se o pudessem fazer quanto aos
ossos, a urbe de séculos e séculos de História já não existiria, ou seria uma
espécie de cidade da co-incineração como quis o tal personagem cujo nome ilude
a designação de «homo sapiens». A cidade
vai vivendo, substituindo os órgãos naturais por outros de plástico, ou
plastificados, e até – pasme-se – com um patético gosto por materiais de
cortiça ou latas de conserva, nas artérias do corpo citadino, material que
quase chega a entupir as vias. É óbvio que estas obstruções culturais ao perfil
que a cidade deveria ter, não se resolvem com as cheias do Mondego que, com
excepção de eventuais estragos, limpam tudo por onde passam.
Resta a peculiar atmosfera psíquica e anímica da urbe que, tal
como os ossos, é sempre mais perene, constituindo uma espécie de réplica desses
elementos duros. Inevitável é a pergunta: e ainda há então na cidade um «núcleo
duro»? Uma coisa parece certa: temos que estar com atenção aos ossos da cidade
e à extracção de certas vísceras… para que não seja embalsamada de vez.
Coimbra, 2-1-2020
Eduardo Aroso
domingo, 15 de dezembro de 2019
UM SALMO DE LÍRIOS
Ao poeta António Salvado
Ao poeta António Salvado
Não se fatigam os lírios
De neles reunir a luz.
Passamos num chão desconhecido,
Imperfeitos para os tocar
Nem os olhos os recebem,
Onde já nem o corpo se curva
Nem as mãos para abençoar.
Finos cálices, recebem o melhor da terra
Outro mel para nos untar.
Tacteia a alma que busca, alheia dos sítios,
Ou fontes onde não sabe beber.
Silenciosa é a oferenda dos lírios,
Crescem em todas as presenças
Purificando a cor nas intenções.
Luz clara como a esperança
Para ocultar ainda
A plenitude do amor.
Natal de 2019
Eduardo Aroso
SURSUM CORDA E A CELEBRAÇÃO DAS PRESENÇAS
V. Nova de Gaia, 14-12-2019
Os textos aos quais
Bruno Santos deu o nome de Sursum Corda (Corações ao Alto), parecem querer
trazer essa força indefinível, muito antes do anima e animus de Carl Jung ou de
qualquer pulsão psicanalítica freudiana ou outra, força que provavelmente se
invocava no ritual do cristianismo primeiro, sobretudo antes do século V.
De que modo o autor nos convida e ele próprio
oficia na sua escrita? Um pouco fora do habitual labirinto da dualidade, onde o
mundo ocidental tanto se enfrenta e interiormente se degladia, e onde se pode
inserir a ideia judaico-cristã de Bem e de Mal, que nos chega nebulosa pela
nossa ignorância. O autor de Sursum Corda não podendo negar o conflito entre os
extremos, busca o que se pode chamar também uma 3ª via. Ou seja, no movimento,
Bruno Santos busca a espiral.
Textos do dia-a-dia
onde, dentro do pragmatismo de muitos deles ressalta um certo imprevisto que
pode surpreender os que esperam uma conclusão na atmosfera do «mainstream». Ou
seja, há a atitude consciente de saída do habitual «pensamento que não pensa».
Em termos numerológico:
o UM, vaga unidade, ou temas (teses) que vulgarmente não se tomam como deve
ser; o DOIS, o autor, reconhecendo-a, ousa sair dessa dualidade «o inferno do
mesmo» (como aponta Byung-Chul Han) e busca o TRÊS. E não parece fazê-lo como
ousadia de síntese acbada de conhecimento/sabedoria dessa tríade, mas como acto
criativo e por isso libertador do já citado «pensamento que não pensa». Só por isto, vale
a pena. O que importa é sair do labirinto.
Tomemos então SURSUM
CORDA ou Corações ao Alto. Ajudemos a levantar o mundo.
V. Nova de Gaia,
14-12-2019
Eduardo Aroso
domingo, 8 de dezembro de 2019
A TERRA NÃO EMIGRA ©
Foram-se para o mundo
Como os dias
Que não se apanham mais.
Levaram o destino consigo,
Poucos móveis e muitas fotografias
Essas coisas estranhas que nas entranhas
Têm também o coração
Que bate para além do corpo…
A terra não emigra,
Corpo caridoso
Recebendo qualquer um de braços abertos.
O chão não emigra,
Porque se mantém no seu posto de vigia,
Ele que formou os ossos da infância
E está disposto a recebê-los já gastos.
Mas quando a fogueira ainda se acende
A terra dá flor com o aroma
Carregado sobre as lápides da memória.
Eduardo Aroso ©
6-12-2019
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