domingo, 1 de novembro de 2020

 

O “DIA DAS BRUXAS” (INVERSÃO DE ESCORPIÃO) E A BANALIZAÇÃO DA VIDA E DA MORTE

 

Alguém no facebook colocou uma foto de uma criança vestida como convém ao seu gosto de mãe, e escreveu: «Gosto muito de ti minha vampirinha». A abóbora oca, iluminada, é um ludismo bonito para as crianças; diferente é ser bruxinha; mais ainda parece ser vampira!

 A progressão é clara, uma INVERSÃO progressiva do arquétipo de Escorpião, porque até durante o ano os jovens andam de t-shirt preta com uma caveira (e não só)! Vem isto obviamente a propósito do Dia de Finados ou Fiéis Defuntos. A educação que se está a dar às crianças, banaliza as duas realidades: a vida e a morte. Pese embora tudo o que ao longo de séculos se tem escorrido do mistério e de experiências no sentido de crer que há algo para além do último suspiro, tudo isto tem sido tomado (importado) como um jogo de bruxas e vampirinhos para nos assustar ou fazer rir. É um carnaval que prenuncia o outro que virá, esse no tempo certo, depois do Natal. Eu que leccionei durante 35 anos, causa-me tristeza esta pedagogia que se fez moda. É certo que os mais velhos têm outra atitude, todavia é de lamentar não haver outra maneira mais inteligente e com um sentido mais pedagógico de vivenciar esta efeméride.

 

É certo que esta data não acontece por acaso, quando o Sol transita em Escorpião/Serpente/Águia. Esconde-se um sentimento (vontade) oculto na bonita cantilena, felizmente ainda vivenciada em Portugal, na qual eu próprio participava em criança, que reza assim:

Bolinhos e bolinhós

Para mim e para vós,

Para dar aos finados

Que estão mortos e enterrados

À porta da bela cruz

Truz, Truz, Truz!

Transpondo o sentido do pão (coisa material) há, creio eu, a verdade de “alimentar” a relação dos vivos e dos mortos por uma amoroso pão de memória («para dar aos finados», saudades que ficam de quem partiu. Chamar-lhe-emos Pão da Vida.

 

É neste dia que os mortos estão mais próximos de nós («quando os mortos amados/batem à porta do poema»). Significa isso que são bruxos e bruxas ou vampiros?! O filósofo António Telmo disse que uma pessoa aceita muito natural ver imagens na televisão de alguém que já morreu, mas se tivesse uma visão dessa pessoa em sua casa, ficaria gelado de medo. É o modelo cultural das nossas sociedades da cerrada oposição vida-morte, ainda que sejam realidades distintas. Espera-se que num futuro próximo ele passe por uma outra educação, qualquer que seja, mas que não banalize o que é a nossa caminhada aqui e além fronteira…

 

Eduardo Aroso ©

1-11-2020

Sem comentários:

Enviar um comentário