domingo, 26 de maio de 2019



REPETIÇÃO DA FÁBULA©

Os cônsules escolhidos regressam sempre
Vestidos de túnicas sobre seda digital.
Treinados no velho império romano
Vieram para engrossar as legiões
Que devem seguir por montes e vales
Ou talvez quietas a vigiar gente.
Têm dejua forte, pratos a toda a hora
E bem servidos…
Só assim há força
Para derrotar os inimigos.
(Césares sucessivos passeiam
Nos corredores
Sem que se mostrem, alheios ao sol).

No débil burburinho dos gorjeios
Muitas aves já não se ouvem
Retirada a amplificação sonora.
A criação é de cordeiros
(Os lobos maus têm o seu covil)
As legiões revezam-se.
Sentinelas da noite
Vigiam atentamente
Hora  a hora
Para que os galos do mundo
Não anunciem a aurora.

Eduardo Aroso©
Maio 2019

quarta-feira, 15 de maio de 2019


DAS MÁSCARAS, DOS (MAUS) ACTORES E AS PLATEIAS DE PACÓVIOS

Em muitas e duvidosas representações de hoje, a inversão da máscara não significa virá-la do avesso, como se faz a uma peça de roupa mal vestida. Posto que está na moda as máscaras serem escolhidas como sendo de preocupadas e edificantes personagens, os que as movem não são, via de regra, confiáveis no que pretendem representar. Quando a máscara cai percebe-se então que são maus actores, ou seja, o que representaram não estava de acordo com o perfil da máscara, o que não deve confundir-se com os eméritos do nosso teatro português.
Na antiga tragédia helena, onde havia a autenticidade do colectivo (a forma de arte humanamente mais completa e complexa, com um envolvimento muito acima das actuais performances), a diversidade da vida obrigava por vezes à representação de figuras pouco simpáticas, ou mesmo opositoras da sociedade e temperadas do cómico. Existia, como ainda hoje, o bobo, figura de papel singular, paradoxal, criticando e corrigindo desmandos, numa linguagem que só a  ele era permitido. O monarca e bem assim toda corte ouviam  dele o que a outra pessoa não se autorizava, sob pena de severo castigo. A conhecia obra de Shakespeare «Rei Lear» apresenta esse primor de bobo, como também, pese embora um cenário bem diferente, «O Pobre Tolo» de Teixeira de Pascoaes.  
Quanto aos bobos, não são os actores do poder político e  económico, pois, como já referido, representam mal. Ainda que de um modo tímido, podemos ser nós os bobos, mas falta-nos a ousadia de ir à corte e fazer de bobos sérios, isto é, cumprindo bem o papel, e depois de tirarmos a máscara, todos ficariam a saber quem são os (verdadeiros) actores, cujos rostos são ainda dos velhos lusitanos, defendo-se dos impostos disfarces do restos do império romano, guerreiros cujas faces podem servir bem a máscara sem truques, actores para o que der e vier…

Eduardo Aroso
Maio 2019         

terça-feira, 30 de abril de 2019



ONDE FICA O LARGO DA PORTAGEM? ©

Procura-se na memória intermitente
Que descansa  longe
Talvez num sofá ou cadeira de rodas.
Chega ali ainda a vaga frescura das tardes
Do Mondego que subia livre na enchente
E arrefecia impiedoso os pés do Mata-Frades!
Ah, nas grades de ferro à beira da água
Arremetia-se com estrondo a liberdade
E o esvoaçar mais largo das fitas era sinal
Que poderia ser outra largada de aves.
Pergunta-se ao neto que escreve no telemóvel
Mas não sabe já o que é o Banco de Portugal
E onde fica a página que se abria extensa
Que ia do Parque até à Rua da Sofia.
Busca-se o sítio do Largo da Portagem
Talvez no Google ou no facebook
Mas a verdade da vida, que escorre e tem aroma,
Não admite, no fim de contas, qualquer truque.
É virgem fugidia essa calçada que não se pisa
Flores, amores-(im) perfeitos regados com espuma de cerveja.
Pergunto pelo verso que já não se escreve
E a assinatura feita no colo da esplanada
Com o rio em frente, primeira testemunha.
No tempo sem assento entra-se e sai-se num instante
Mas ao chão do Largo da Portagem já não se vai.

Janeiro de 2019
Eduardo Aroso©

quarta-feira, 24 de abril de 2019



    45 ANOS A FAVOR E CONTRA A CORRENTE

 «Mansa colmeia a que ninguém colhe o mel» (Miguel Torga)


Quem quiser apreciar a obra que deveria ser de fundo do pós 25 de Abril, viaje pelo INTERIOR do país. Digo o pós, porque o 25 foi na verdade a devolução da liberdade e garantia de uma Constituição democrática. O que se tem feito pelo verdadeiro desenvolvimento em terras do chamado «Portugal profundo» durante cerca de quatro décadas, nada deve aos sucessivos governos centrais, mas ao empenho daqueles que (descontando-se o “caciquismo” que há em todo o lado e as verbas obrigatórias tipo «migalhas para pobres») ainda sentem o «locus», o sangue dos antepassados naquelas terras e, claro está, a sensação aguda de que ou se mexem a sério ou ficam a perder.

Um pouco no cansaço do tempo do homem de Santa Comba, pese embora a diferença qualitativa (felizmente), os discursos das cerimónias oficiais soam hoje cheios de cansaço, numa atmosfera europeia também cansada. Não porque a liberdade, democracia e pluralismo, não tenham todo o sentido. O problema é dos vícios arreigados – que o povo sente inconscientemente – que não deixam acreditar e que não têm permitido o progresso estruturado e estruturante. Esta, sim, a verdadeira revolução e não outra com mais ou menos golpes que puxam para trás e, como a História ensina, fazem depois dos “revolucionários” caricatos “pseudo-conservadores”.

 Na verdade, vivemos na «sociedade do cansaço» como diz Byung- Chul Han. O idealismo de vultos notáveis que se criou e que lutou durante a ditadura do Estado Novo, perdeu-se no momento em que a liberdade cívica e política foram devolvidas aos portugueses e logo começou uma certa “ditadura” que emanava da EU. Foi uma soberana oportunidade perdida. A quebra desse idealismo português já anteriormente se havia notado na passagem do 31 de Janeiro de 1891 para o 5 de Outubro, e no novo regime logo tristemente reduzido a querer mais Europa e mais verbas. O trabalho maior estava ainda por fazer, na bela manhã do dia 25 trazendo a POSSIBILIDADE de tal. O 25 de Abril (devido em boa hora aos militares e a mais ninguém, pois o resto é do tipo ”cereja no bolo”) foi uma possibilidade que democraticamente se foi cumprindo no que foi, e não o sonho no postal ilustrado que correu mundo. Podemos compará-lo a uma boa terra, que foi bem lavrada e prontinha a semear. O resto era com os sucessivos lavradores… Por isso, vigiar sempre quem vai amanhar  a terra!
Hábitos e mentalidades persistem por muitos anos e só com ideais fortes e lutadores preparados se avança. A distorção que Salazar (por falta de inteligência) tinha de Portugal foi substituída por quem se  desinteressou pelo país, coisa que já no seu tempo F. Pessoa dizia: «São portugueses porque, por desgraça nossa, nasceram adentro da nossa fronteira».

 Quem olha hoje para a Assembleia da República, para os meios sindicais e partidários e até para os desejados movimentos de cidadãos (que quando surgem são logo captados) vê que os vícios do antigamente persistem, desde a burocracia, a compulsão para o imposto e a taxa, o gosto pela gorjeta, o ganhar “a meias” (ou o dividir por mais alguns), os estranhos meandros da justiça, o deixa-andar…Hoje estamos melhores (tortuosamente melhores, mas estamos melhores) que no tempo em que muitos foram esturricados no Tarrafal pela Pide e uma professora tinha que fazer um requerimento ao Estado para casar com um professor (!)

No entanto, as “abelhas” dos pinhais e das serras interiores, vivem hoje cheias de solidão, com televisões, internet e estradas de alcatrão, e com cada vez mais Lares de idosos, que são hoje os monumentos nacionais de vilas e aldeias. Cá fora sopra o vento da solidão nas casas sem ninguém. A «mansa colmeia» já não pode ser mais do que isso, até porque descende dos brandos costumes. As “abelhas novas” escasseiam e, pelo jeito, não se indignam mesmo quando a velha capital do império ainda não perdeu o hábito de carregar com os idos impostos da pimenta e o marfim…

Eduardo Aroso
Abril 2019

terça-feira, 19 de março de 2019


S.O.S. UNIVERSAL ©

O mundo afoga-se lentamente
Trágica repetição do Titanic
Em terra julgada firme.
Come-se o pão da desconfiança
No esquecimento da semente.
Não há bóias gratuitas
Nem Constituições salvíficas.
Presas não se sabe onde
Restam duas cordas
Uma para cada mão:
A fé e a razão.
Agarra-te!

Eduardo Aroso ©
19-3-2019

quinta-feira, 7 de março de 2019


DIFÍCIL GRAMÁTICA©
(In memoriam das mulheres
da minha aldeia)

O verbo era sempre amar.
Em cima da mesa
Artigos indefinidos.
A enxada nas mãos
Única certeza.
O verbo era sempre amar.
Quanto aos substantivos
Eram muitos,
Eram os filhos.
As mães trabalhavam
Em difíceis substantivos:
A terra e a água
Levadas à raiz
Como um seio à boca
O verbo era sempre amar.

Eduardo Aroso©
17-2-2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


 SUPERAÇÃO  DO COLÍRIO
 (Para Arthur Berberian, fraternalmente)

Nas mãos temos o fruto estranho do tempo.
Sem límpido movimento de olhar o céu.
Perde-se na metamorfose da cor,
Na mímica obscura, estatística fácil
Sob lúcifer intruso, rosto do vero sol
Ilusório véu ou catarata no espírito ágil
De visão livre de qualquer lamento.

Nas mãos temos o fruto de dois gumes
Que brota ainda de páginas vinciadas,
Labirintos que tecemos e outros mecanismos
Sem alma que prolongam a oclusão criada
Na noite maior que criou os dualismos.

Vela oculta e amorosa a Mãe universal
A panaceia espera a nossa madrugada.
Toca-nos o perfeito vislumbre da aurora
No anseio em delírio para eliminar o mal,
Busca-se o colírio sobre ávidos olhos
E os olhos choram porque não vêem.

18-2-2019
Eduardo Aroso ©