sábado, 12 de dezembro de 2020

ESCRITO ADVENTÍCIO DE CIRCUNSTÂNCIA

 

Os liames do Destino levaram D. Henrique e D. Teresa ao que se poderia chamar Advento Português que durou o tempo necessário como preparação para o nascimento de Portugal. Foi uma criança-homem que se armou cavaleiro. Porém, o menino-divino só em Ourique conheceu a luz, que se enrolou em forma de nevoeiro pelos séculos fora. Apareceram Herodes e hordas destinados a matar um Sonho de redenção. Todavia, Oriente-Ocidente teriam que se iluminar e comunicar com a perfeição que os hemisférios cerebrais desejam para o ser humano. A mensagem das estrelas teria de ser acolhida na alma humana, a luz dos céus reflectida sobre as varandas nocturnas dos nautas portugueses sobre os mares. Portugal não mudou de nome, mas começaram a chamaram-lhe também lusíadas. Percorreram todas as galileias, atravessaram todos os amazonas e conheceram os sabores que a boca quer, mas sentiram também que um irmão longínquo de qualquer cor poderia ser pedra-angular para uma vida mais próxima ou mesmo familiar.

Oito séculos depois, na simbólica dos 33 anos, a nação lusa encontra-se crucificada de várias maneiras. Muitos desertaram do Getsmani, junto da cruz, aqueles que disseram que quando o galo cantasse nunca negariam. Quando e como será a Ressurreição de Portugal?

 

Eduardo Aroso

12-12-2020

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020


PORTUGAL - O RECTÂNGULO E O CÍRCULO

In memoriam de Carlos Calvet

 

A pequena superfície de Portugal continental, em forma de rectângulo, tornou-se numa “grande superfície” onde tudo passa, tudo se compra e tudo se vende. De outra ordem além da alimentícia; por muito pouco, um monumento gótico esteve quase a ser desmontado, embalado e seguir num navio empurrado por dólares.  Quando chega uma verba é dirigida para uma rua não se sabe bem onde, para alcatroar… (ou untar) a estrada que vai dar à porta de certa gente. Mas não é o vento e a chuva que voltam a fazer buracos. São especialistas de fazer “buracos”, viciosa engenharia que faz trepidar sempre os cofres públicos. Antigamente vendíamos especiarias, agora compramos palitos para os dentes e guardanapos de papel.

 Para o que der e vier no mundo, há todavia o Portugal de outra forma qualitativamente diferente: o Portugal circular, um modo de ser que não se contenta em ser apenas europeu, isto é, aquele que tem ainda impresso nos seus genes a Esfera Armilar, que não pode ser confundida com a bola de futebol, como aconteceu com um proeminente político português saído há pouco da ribalta. Esse Portugal armilar, imaginando nós o círculo e não o rectângulo, segundo o desenho de Carlos Calvet em «Mitogeometria de Portugal», anexo a este texto, tem por centro a cidade templária de Tomar. O Tao diz-nos que o centro, sendo o que se move menos, participa de todo o movimento. O centro permanece para todas as acelerações, paragens e recomeços do movimento.

 

Eduardo Aroso ©

1-12-2020

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O MULTIPLICADOR

 
Ele reproduz-se,
ao contrário do verde dizimado,
e parece que só nos faz olhar para baixo.
Levou-nos a descobrir novas cavernas
algumas de Platão e muitas de betão.
O encontro é com o barro
e o fino pó deste mundo
que cria desertos sobre arranha-céus
e melancolias de silenciosas implosões.
 
Que fumo sairá das combustões da alma
sedenta ou da fala que procura outra fala
a face que busca outra face
sem teclas nem “copypaste”?
Inesperada reprodução, convite absoluto
ao tango duvidoso: da conquista
ou do passo exangue e mortal
na área de um salão com um metro e tal.
 
Eduardo Aroso ©
27-11-2020
 

 

domingo, 22 de novembro de 2020

SITUACIONISTAS E NEGACIONISTAS E (AINDA) O ESTREITO PENSAMENTO BINÁRIO

 

No drama Romeu e Julieta, digladiavam-se as famílias dos Montéquios e dos Capuletos, progenitores dos célebres amantes. Na tragédia da morte, apaziguaram-se as duas hostes. O que estava entre aquele ódio (por certo devido a interesses materiais e outros) era a verdade do amor, a existência única que poderia dissolver os antagonismos. No caso da actual pandemia dever-se-ia imaginar um outro amor, o de apurar as várias situações que vão surgindo no presente panorama, ao invés de se imitar o que se passa nos clubes de futebol: para o adepto de uma equipa, mesmo que esta perca, é sempre a melhor do mundo!

A covid19 existe cientificamente, como real, no aproveitamento do facto, é a defesa de interesses, organizados ou não. Imaginar que alguém, seja a opinião pública ou algum amigo ou conhecido possa situar/classificar uma pessoa no grupo dos situacionistas ou negacionistas, pode ser ligeiramente desagradável, ou mesmo traumático verificando-se uma reacção emocional forte de auto-estima. Para o «pensamento que pensa», que visa apurar o que parece certo ou errado, sem que tenha que exibir bandeira ou crachá, terá que se desenvencilhar do obstáculo que causa esse medo da opinião pública de o classificar como sendo de uma falange ou de outra. Tão grave como esse obstáculo é desencorajar o cidadão de saber o que é certo ou errado (que de certo modo é mais função dos especialistas no assunto), apresenta-se-nos o desencorajamento de indagar o que vai da teia dos interesses à demoníaca contra-informação.

Em tudo isto, a ideia do absurdo conceito «pós-verdade» funcionas às mil maravilhas.

 

Eduardo Aroso©

22-11-2020

 

 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

A DISSEMINAÇÃO DO PENSAMENTO BINÁRIO

 Esta insidiosa atitude mental dualista que invade a sociedade e cresce rapidamente nas televisões e redes sociais, gera de imediato a dificuldade de qualquer exame minucioso, sobretudo porque não há tempo nem abertura de espírito para uma terceira via. Nada do que aqui falo se refere ao que nos habituámos, como únicas verdades, do «não» ou do «sim», nem do próprio «nim» que pode ser – e quantas vezes - a completa ausência de reflexão. Quando um dia se aprofundar a evolução do ser humano nos efeitos da linguagem binária da informática ou mesmo da publicidade a toda a hora sobre o nosso inconsciente, é de prever resultados impensáveis, pois a estrutura binária do mundo da informática ainda esconde alguns enigmas a desvendar. A verificação da sua eficácia é fácil e imediata, mas não os efeitos que, a médio e longo prazo, possa ter no comportamento humano.

O reflexo deste padrão de pensamento binário no dia-a-dia observa-se de modo imediato nos textos e comentários do fb. Descontando a lamentável falta de educação de muitos utilizadores, a discordância, coisa incómoda para muitos, é, regra geral, tanto mais incómoda se bem fundamentada. A clarividência do eminente Byung-Chul Han mostra-o bem na sua obra «A Expulsão do Outro» (ed. Relógio de Água).

Nos debates televisivos, de modo dissimulado, há quase sempre uma espécie de falsas opções, que são apenas variantes do mesmo modelo ou sistema vigente visto na sua globalidade. Quando alguém ousa isso, é apelidado de extremista, ou outro “ista” qualquer, sem que, contudo, se negue o “extremismo militante” que sempre existiu. Toda a matéria que fuja a isto é afastada. Neste nível há outras atitudes semelhantes, como a de um certo «mainstream» da ciência que, seja qual for a razão, afasta do seu objecto (interesse) de estudo determinados temas, apelidando a quem os estuda de “não científico”. O «não há outra alternativa» continua vivo entre nós, encoberto no véu da hipocrisia sistémica que tem desterrado para longe os humanistas, artistas, pensadores, aqueles que sabem (sejam quais forem) e até a força da generosidade de pessoas simples, em favor de plutocratas, tecnocratas e agora de políticos populistas.

Quando, globalmente falando, o mundo rock e inúmeras variantes e géneros de música deste tipo baniram o compasso ternário (assunto ao qual voltarei) da quase totalidade das composições, obviamente se enredaram no binário e no quaternário (não deixando este de ser estrutura binária, apesar das acentuações), matéria esta bem analisada, por exemplo, por David Tame em «O Poder Oculto da Música» (editora Cultrix). Mas pior do que isso é o compasso unitário, de uma massacrante acentuação forte sem respiração e que muitos jovens utilizam como narcótico sonoro.

 

Eduardo Aroso ©

17-11-2020

 

domingo, 8 de novembro de 2020

 A IGREJA DE PEDRO (EXOTÉRICA), A IGREJA DE JOÃO (ESOTÉRICA) E OS SEUS MEANDROS OCULTOS EM PORTUGAL (Conclusão do texto anterior)

 

 Para além do que transparece dos Painéis de Nuno Gonçalves, encontramos indícios da Igreja de João na arquitectura e na literatura portuguesas, de que «Os Lusíadas» e «Mensagem» são bons exemplos, para além do que mais neles se pode ler. Um dos mais recentes acontecimentos, entre nós, terá sido o movimento da Renascença Portuguesa através da sua revista «A Águia». Na insistência do nome desta ave que fita o sol (agora temos a «Nova Águia») parece estar a resposta. O Apóstolo João é conotado com a águia. Observe-se, por exemplo, a frontaria da Sé Catedral de Viseu onde estão os quatro apóstolos (que correspondem aos 4 evangelhos canónicos) e onde vemos a águia junto a João.

 O que se tem buscado com o nome de Igreja Lusitana, à falta de outras fontes que legitimamente talvez se pudessem considerar, é susceptível de desde sempre ter existido nas influências mais ou menos alternantes destas duas vias essenciais do Cristianismo. Pela altíssima e peremptória afirmação de S. João no início do seu evangelho «No princípio era o Verbo (Logos)», o português começou, fosse como fosse, por escutá-lo no rumor do mar, no marulhar das ondas. Verbo como movimento e vida. Quem sabe se a arqueologia mais enigmática da fonética e do ritmo da língua portuguesa, em simbiose com o latim e outros idiomas influentes, se foi moldando singularmente nessa sonoridade oceânica. Pessoa, ao referir-se ao Rei-Lavrador (diríamos hoje Lavrador da cultura lusíada) escreve: «… E a fala dos pinhais, marulho obscuro,/É o som presente desse mar futuro,/É a voz da terra ansiando pelo mar». Sendo certo que entre os actos da Igreja de Pedro e a de João há a Única Mão, é árdua a tarefa de averiguar com clareza as suas as repercussões, nas diferenças, ao longo do tempo. Mas podemos pensá-la sob o emaranhado paradoxo português.

 

 Eduardo Aroso

23-10-2020

 

 

A IGREJA DE PEDRO (EXOTÉRICA), A IGREJA DE JOÃO (ESOTÉRICA) E OS SEUS MEANDROS OCULTOS EM PORTUGAL

 

A relação dos monarcas portugueses com a Santa Sé ao longo da História aconteceu ora numa aceitação sem vacilar, ora em atitude que, não negando a cristandade, escolhia outras vias que não as dos ditames exactos de Roma. D. João III querendo mesmo ser “mais papista que o Papa” (Inquisição) e D. Dinis que, num acto superior e inteligente do “desenrascar” lusitano, acolheu sabiamente os Templários, o mesmo é dizer aqueles que iriam preparar o «Projecto Áureo» - que a Europa não imaginava - e que contaria com os «fraticceli». Quiçá o primeiro exemplo audaz é de Afonso Henriques quando se arma cavaleiro em Zamora e logo começa a adiantar as coisas… Se mais sinais não houvesse destas relações (dir-se-ia alternantes da Igreja de Pedro e a de João) bastaria o que está no chamado Painel do Santo das Tábuas das Janelas Verdes, de Nuno Gonçalves, onde vemos o Livro sagrado aberto na primeira página do imortal Evangelho do Apóstolo Amado (João).


 Se atendermos ao «providencialismo histórico» - como no-lo descreve António Quadros em «Introdução à Filosofia da História» ou Agostinho da Silva em várias obras - não é difícil aceitar que, consoante a época e as circunstâncias, os reis tomassem atitudes dir-se-ia nem sempre dentro do mesmo cânone. Todavia – no dizer de Pessoa «o homem e a hora são um só» - é de crer que a Mão do Destino guiaria cada decisão da melhor maneira. Do mesmo modo se poderia chamar a este assunto os vários laços de consaguinidade de figuras proeminentes da corte portuguesa (reis alguns) que se foram estabelecendo com os pares de Espanha, quando a nação portuguesa sempre lutou contra a sua anexação a Castela. Os sempre enigmas do visível e do invisível. D. João IV tem um gesto singular ao depor a coroa real em Nossa Senhora da Conceição, continuando, deste modo, a nossa tradição do culto ao feminino na figura da Mãe de Jesus, gesto esse simbólico, nunca mais interrompido já depois da monarquia, prolongando-se em Fátima. Mas tudo isto leva a pensar se (depois da Expansão, da presença dos «fraticceli», do culto do Espírito Santo e de outros acontecimentos) o acto do primeiro rei da 4ª Dinastia representa a “entrega” definitiva, ou não, da Igreja de Pedro (e de um modo mais visível) na relação de Portugal com a Santa Sé.  


(Conclui no próximo texto)

Eduardo Aroso

7-11-2020 

domingo, 1 de novembro de 2020

 

O “DIA DAS BRUXAS” (INVERSÃO DE ESCORPIÃO) E A BANALIZAÇÃO DA VIDA E DA MORTE

 

Alguém no facebook colocou uma foto de uma criança vestida como convém ao seu gosto de mãe, e escreveu: «Gosto muito de ti minha vampirinha». A abóbora oca, iluminada, é um ludismo bonito para as crianças; diferente é ser bruxinha; mais ainda parece ser vampira!

 A progressão é clara, uma INVERSÃO progressiva do arquétipo de Escorpião, porque até durante o ano os jovens andam de t-shirt preta com uma caveira (e não só)! Vem isto obviamente a propósito do Dia de Finados ou Fiéis Defuntos. A educação que se está a dar às crianças, banaliza as duas realidades: a vida e a morte. Pese embora tudo o que ao longo de séculos se tem escorrido do mistério e de experiências no sentido de crer que há algo para além do último suspiro, tudo isto tem sido tomado (importado) como um jogo de bruxas e vampirinhos para nos assustar ou fazer rir. É um carnaval que prenuncia o outro que virá, esse no tempo certo, depois do Natal. Eu que leccionei durante 35 anos, causa-me tristeza esta pedagogia que se fez moda. É certo que os mais velhos têm outra atitude, todavia é de lamentar não haver outra maneira mais inteligente e com um sentido mais pedagógico de vivenciar esta efeméride.

 

É certo que esta data não acontece por acaso, quando o Sol transita em Escorpião/Serpente/Águia. Esconde-se um sentimento (vontade) oculto na bonita cantilena, felizmente ainda vivenciada em Portugal, na qual eu próprio participava em criança, que reza assim:

Bolinhos e bolinhós

Para mim e para vós,

Para dar aos finados

Que estão mortos e enterrados

À porta da bela cruz

Truz, Truz, Truz!

Transpondo o sentido do pão (coisa material) há, creio eu, a verdade de “alimentar” a relação dos vivos e dos mortos por uma amoroso pão de memória («para dar aos finados», saudades que ficam de quem partiu. Chamar-lhe-emos Pão da Vida.

 

É neste dia que os mortos estão mais próximos de nós («quando os mortos amados/batem à porta do poema»). Significa isso que são bruxos e bruxas ou vampiros?! O filósofo António Telmo disse que uma pessoa aceita muito natural ver imagens na televisão de alguém que já morreu, mas se tivesse uma visão dessa pessoa em sua casa, ficaria gelado de medo. É o modelo cultural das nossas sociedades da cerrada oposição vida-morte, ainda que sejam realidades distintas. Espera-se que num futuro próximo ele passe por uma outra educação, qualquer que seja, mas que não banalize o que é a nossa caminhada aqui e além fronteira…

 

Eduardo Aroso ©

1-11-2020

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 PERMITA-SE-ME O DESABAFO


Fui buscar o Eça, que me não levanta grandes dúvidas. 

— "E qual é a posição dos deputados?...

— Na aparência, sentados, por dentro, de cócoras."

(Eça de Queiroz)


O espírito da república de 1891 e a de 5 de Outubro diferem como, respectivamente, o vinho da água-pé. O primeiro (de boa cepa, plantado por genuínos liberais ainda com algum sangue de Viriato) não foi aproveitado, por algumas razões. Quanto à água-pé, mesmo querendo ser conservada, foi-se toldando, ou porque não tinha grau suficiente, ou porque certos tanoeiros não sabem fazer vasilhas.
A vindima continua, com saudades de Baco quando andava pelo mundo e falava com Junqueiro, Bruno, Pascoaes, Basílio Teles e Alves da Veiga.

Eduardo Aroso *
5-10-2020
* Filho e neto materno de lavradores e de pai aristocrata de espírito nascido na Rua da Constituição do Porto.

sábado, 3 de outubro de 2020

O QUERIDO MÊS DE OUTUBRO

 

O português gosta do mês de Outubro, seja o dia (5) da Implantação da República, o mesmo dia do Tratado de Zamora (reconhecimento da independência), o dia 7, quando durante décadas se iniciavam as aulas, o 13 de Outubro (Fátima); diversos actos eleitorais na época actual, para não falarmos de outras datas como o Congresso do Livre Pensamento (1913) ou os muitos discursos de Salazar.


O português gosta de tudo experimentar, mesmo que não possa chegar ao fim e manter o brio do havido por si, sendo o mais certo que o seu experimento lhe caia das mãos ou vá parar a outras. O seu afã vem desde as Descobertas – embora, neste caso, estivesse além da sua vontade porque acto de um Destino Maior que teria que ser cumprido. Ânimo que chega à nossa época, onde o idealismo fica bem, mas o dinheiro acaba depressa, seja o habitante desta casa lusitana monárquico ou republicano, porque também alguns monárquicos sentam-se na Assembleia da República representando partidos (ou seja, é possível ser uma coisa e outra) e republicanos há que, para ali foram, porque do outro lado já pouco ou nada havia. Em Portugal é, muito naturalmente, possível ser cristão e ao mesmo marxista-leninista-stalinista; ir à missa e ao outro dia ir à bruxa.

    

Mas não só o mês de Outubro. Em Abril, por exemplo, foi um penalty que bateu na trave; Outubro parece ter tido um calendário de jogos difíceis, com prolongamento, mas nem sempre bem jogados. Falta um Ronaldo na política? Falta. Falta um S. Francisco de Assis (mesmo sendo laico) no ambiente? Falta. É urgente que ao Povo (com maiúsculas, para distinguir de eleitores) ninguém se atreva a «jurar o seu santo nome em vão». Ser republicano ou monárquico, em Portugal, é estar em campos opostos? Ou não ser pela nação, pela pátria, pela ética, sem respeito pelo legado dos antepassados é o mesmo que exibir um crachá ou ser militante deste ou daquele partido?     

 

Eduardo Aroso

(no mês de Outubro, 2020)

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A IGREJA ANGLICANA E A IGREJA LUSITANA

 Um dos poucos actos históricos louváveis que eu conheço da história da Inglaterra foi, para o bem e para o mal, o de não se ter sujeitado à Igreja de Roma, ficando assim a olhá-la de outro modo, graças a Henrique VIII. Ao que consta pela submissão (discutível ou não) a Ana Bolena, camareira da Rainha, muito embora este episódio palaciano já viesse depois do nosso de Pedro e Inês, este de contornos mais elevados. Perante a negação do papado em reconhecer a ligação com Ana Bolena, o rei fez o que fez. Seja como for, o acto viria a influenciar poderosamente os destinos da Inglaterra porque a criação da Igreja Anglicana, olhando de soslaio para Roma, deu logo origem a esse extraordinário espírito de nome Francis Bacon que levaria o pensamento do seu país a libertar-se da “via única”, ou seja, da escola aristotélica que durante séculos norteava o Catolicismo. 

 Pascoaes e bem assim outros antecessores remotos falavam numa Igreja Lusitana, uma ecclesia dir-se-ia mais inclusiva que herética, bastaria para tal ver a relação D. Afonso Henriques com as três religiões do Livro, espírito que continua, vindo a sofrer ruptura com D. Manuel e definhando com D. João III. É sabido que a maioria dos monarcas portugueses foram hábeis nas relações com a Santa Sé, firmes em algumas circunstâncias, mas ao estilo brando de “saber dar a volta” cujo episódio maior foi o da criação da Ordem de Cristo por D. Dinis, quando o facto foi acolher os Templários. No final do século XIX e com o estranho apadrinhamento (!) da Igreja Anglicana cria-se oficialmente uma Igreja Lusitana em Portugal. Só se pode compreender este apadrinhamento baseado numa velha Aliança, mas que, no caso, é incompreensível, pelo que também não se vislumbram influências desta Igreja Lusitana no movimento da filosofia portuguesa, a menos que haja uma Igreja Lusitana oculta, à semelhança do que se passa com a Igreja de Pedro e a Igreja de João.

 Assim, a tendência de uma igreja verdadeiramente lusitana ou lusa, mais de emancipação do que de heresia, saiu gorada, mas, tal como o Destino maior se tem que cumprir, desde cedo se firmou o culto do Espírito Santo em Portugal com a Rainha Santa, porque entendemos seja ele a verdadeira Igreja Lusitana, o nosso “anglicanismo” que muito tem influenciado poetas, pensadores, artistas e outros.    

Eduardo Aroso

Equinócio de Outono, 2020 



   

domingo, 6 de setembro de 2020

 A CASA DO POETA

 

Ao contrário do que se diz

Fernando Pessoa só teve uma casa.

Nasceu no Largo de São Carlos em Lisboa

e nunca mais mudou de lugar.

O que ele fez foi alargar a habitação:

meteu-lhe um telhado tipo proa,

um radar ligado a todos os sentidos

e ele próprio viajava como os aviões

supersónicos que não se podem detectar.

 

Quando as obras da casa estavam na extrema

incalculável de um qualquer vizinho longínquo

que ele desconhecia, o poeta continuou

e chamou-lhe Universo, Cosmos, Galáxia

(isto é, até onde ia a sua casa nem ele sabia).

Insatisfeito com as obras deu-as por acabadas

por ordem do Arquitecto no dia 30 de Novembro

de mil novecentos e trinta e cinco.

 

Eduardo Aroso©

6-9-2020

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

DIÁRIO DE EXAUSTÃO

 

Em que Lete bebemos tanto

para vir esquecimento?!

Um céu nocturno

deixa ainda apanhar

restos de estrelas

e pedras desfeitas onde se gravaram

os primeiros versículos da esperança.

De onde surgiu o punhal do medo

para se cravar entre desfiladeiros

que distam cerca de dois metros?

 

Eduardo Aroso ©

30-8-2020

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

SOU ANTI NADA, MAS POR MUITA COISA (IDEAL)

 

O que importa é «ser sempre por alguma coisa», como dizia Miguel Torga. Ser anti… começa logo por anular qualquer hipótese do outro ter razão, ou parte dela. Mesmo em casos explícitos, como por exemplo, anti pena de morte, o outro terá que justificar por que defende essa baixa desumanidade pois, no contexto do mundo ocidental contemporâneo, pouco adiantaria na generalidade. Mas cabe aos que defendem a vida, fazê-lo não só parcialmente – como tanto se vê – mas de um modo completo. Defender a vida é tarefa bem árdua, pois para quem, por exemplo, se bate afanosamente pela defesa de animais de estimação, deve compreender que “irmãos e primos” desses bichos entram aos milhares diariamente nos matadouros. A defesa da vida não pode ser apenas na montra do social ou do politicamente correcto. Se aplicarmos o tema ao ser humano, encontramos variados exemplos do que muito se condena por maus-tratos, sobretudo a idosos, não levando em conta os diluídos e lentos maus-tratos que o sistema inflige a tantas dessas pessoas cujo dinheiro não chega para comprar medicamentos e comida. O Estado de Direito e os governos têm dois braços bem diferentes: defendem-se situações tidas como injustas com mais zelo do que acções para as erradicar. Filosoficamente, qualquer negação pressupõe uma afirmação prévia, definitiva ou não. O percurso de vida de muitos anti mostra que nunca foram por coisa alguma, ou andaram sempre a mudar de coisa.

 

Eduardo Aroso

26-8-2020  

terça-feira, 11 de agosto de 2020

DA LÍNGUA DOS PÁSSAROS©

 

Existe para expressar a verdade. A sua fonética é um hino de amor, por isso nunca se torna despropositada nem redundante. A etimologia da língua dos pássaros constitui-se de uma gramática daquilo que foi, é e será. A ela não se chega por mera curiosidade ou pela erudição de falar mais um idioma entre outros, ou por qualquer interesse mercantilista e mundano. Está feita de tal modo, que a mera audição sem a sua gramática não significa nada para quem a escuta. É com saber todos os algarismos, mas não conhecer a sua ordenação para o que se pretenda.

Há os que nascem a entender a linguagem dos pássaros; quando da primeira vez a escutam, percebem logo que têm acento nessa assembleia, conhecida, noutras épocas, por outros nomes. Há também os que chegam a aprendê-la, relativizando outras idiomas, fazendo a distinção entre o dom das línguas e o dom dessa língua. Há os que nascem e morrem sem saber que os pássaros existem.

 

Eduardo Aroso©

11-8-2020

 

quarta-feira, 22 de julho de 2020


A QUESTÃO DA CIDADE LUSA©

Não sei para que lado olha
com seu rosto de Janus
esguio e hesitante.
Cá por baixo não se vê o Torga
circunspecto a entrar no consultório.
e o Tatonas sumiu-se da Praça da República.
As musas descem as monumentais
para estranhos concílios femininos
de calças rasgadas, convocando Eros
de olhos fechados à estética.
Nas lições de sapiência
mete-se cuspo nos dedos
virando as folhas de trás para a frente
e também ao contrário…
Às vezes há uns zunzuns
de cadeiras rolantes
mas sempre ocupadas.
Lá em cima não há Largos
com o nome de Bota-Abaixo.
A colina tem os seus quês
e o som não chega à Sé Velha
para a presença na serenata.
Galos de Barcelos descem pela Porta de Barbacã
e nas montras com objectos de cortiça
fazem coro e assim tudo «tem mais encanto».
Belezas a cidade tem;
a urgência é cuidar delas
como fazem as mulheres enquanto é tempo.
Os bons livros arrumados nas estantes
não os podemos esquecer.
Em cada esquina às vezes encontra-se um amigo,
então o tempo fica sem passado nem futuro.
A última varanda da cidade
está suspensa não sei onde.
Que é feito das colchas da saudade
que pendiam latejantes das janelas?
No rés-do-chão da Portagem
há esquerdo e direito.
Mas foram-se os recados que havia
entre o Montanha e a Brasileira
e nem falo de Santa Clara
Onde os Crúzios iam deitar os seus despojos…
Agora a Rainha pouco mais conforta
(a devoção é bi-anual)
além de turistas e dos confrades
à cata da gastronomia.
Há quem saiba o que a Rosa vale
(metafísica feliz de minorias).
A cidade tem micro-clima:
quando se espera sol
está sempre nevoeiro!
Falta muito para andar,
em cada canto há uma surpresa
qualquer coisa para cuidar.
«O que faz falta» parece ser
uma coisa que já não tem a malta!

Coimbra, 21-7-2020
Eduardo Aroso©


sábado, 13 de junho de 2020


A ESFINGE

O mundo contemporâneo transformou-se vertiginosamente numa outra mais temível esfinge. No passado distante, ela ameaçava devorar quem não a interrogasse. Hoje, o chamado «sistema», apesar da nesga da democracia, não está pelos ajustes de perguntar. E se alguém pergunta é para não ter resposta. Quem tenta decifrar a esfinge feita da matéria do “vil metal”  é ignorado ou lançado num outro desfiladeiro das Termópilas. Mas vale sempre a pena perguntar e ousar, porque há outros Cabos Bojador para passar.

Eduardo Aroso ©
13-6-2020

sexta-feira, 12 de junho de 2020


INESPERADA MARAVILHA

Do outro lado da rua, virado para mim, exclama um menino:
- Olha, eu fiz hoje cinco anos!!!
Levantei a minha mão aberta e respondi-lhe:
- Olha, também eu! E muitos cincos…
E prossegui, feliz no meu passeio, depois de ter visto naquele rosto todas as manhãs do mundo.

Eduardo Aroso
12-6-2020



terça-feira, 9 de junho de 2020


DEIXEM LUIS DE CAMÕES EM PAZ,
OU AMEM-NO DE VEZ!

«Que eu bem sei que o canto
 Há-de achar menos crédito que espanto»
                      (Canção VII, Luis de Camões)           

O poeta que vive no coração de muitos portugueses – uns guardam-no em semiconsciência; menos são os que o escutam dentro de si - parece que foi convocado a regressar ao túmulo nos Jerónimos, para ter que ouvir o já velho camonismo de Estado. Essa obrigação da lembrança anual de quem no resto do ano deixa vaguear o idioma português num caos de ortografias, não sei se sentirá uma dor semelhante à do cidadão que tem que pagar cada vez mais impostos. Mas lá terá que ser, não há outro remédio. Neste 10 de Junho, espera-se que a cerimónia se salve pelo acto de um poeta evocar outro poeta e a certeza do autor de «Os Lusíadas» não se expor a selfies.
A imagem de Luis de Camões mudou (isto é, repartiu-se) de algum modo nestes últimos 40 anos. Houve quem felizmente se distanciasse dos que mantinham (mantêm?) a ideia de uma epopeia que afinal de contas não foi bem assim, havendo até quem tenha escrito que «Os Lusíadas» são uma anti-epopeia (título de um livro) de um antirrevolucionário! Todavia, muitos dos que se distanciaram dessa falange não deixam de ver ainda na magna obra uns pecadilhos por ela imitar o estilo dos velhos clássicos, arremetidas essas como se fossem uma espécie de “reparo” ao poeta, por ele trazer à sua obra todos esses heróis gregos e outros temas da Antiguidade. Tal finca-pé parece não deixar ver o essencial: o zénite da epopeia atingido na Ilha dos Amores, onde se vislumbra, para quem possa ver (imaginar) o horizonte mais largo de Portugal e da humanidade.

Assim, ao contrário do que possa parecer, esta imagem do vate não é, qualitativamente, muito diferente daquela que nos apresentava a política cultural do Estado Novo (e ainda não extinta de vez neste particular), ou seja, o poeta servia às mil maravilhas para umas coisas, mas para outras nem pensar. O Canto IX, recheado de cenas dionisíacas de “erotismo e paganismo” era silenciado no meio académico, chegando mesmo a ser omitido nalgumas edições mais populares. Depois de 74, foi abolida a censura, mas o espírito de interpretação literal, escolástico, raramente tem dado lugar a uma hermenêutica simbólica e esotérica do poeta que escreveu: «Transforma-se o amador na cousa amada». Aqueles que, de algum modo o têm feito, não conhecem os corredores académicos; se conhecem, não servem para citação nos actos solenes.
Fiquemos com o retrato de Camões que parece não ter mudado muito para os portugueses, e que podemos ler em «Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões» de António Telmo (1927-2010), uma hermenêutica de desocultação de «Os Lusíadas», publicada pela primeira vez em 1982.
«A imagem que, ao longo dos séculos, o camonismo de Estado formou e difundiu mostra o autor de «Os Lusíadas» como um plagiador de Petrarca na lírica, de Virgílio na épica, de Platão na filosofia; um homem de inegável talento, mas sem iniciativa criadora, servo em religião do catolicismo, mentiroso pelo uso da mitologia romana, pior cronista do que João de Barros; um sensual hesitante entre a atracção do sexo e a sua sublimação. Quatrocentos anos se aborreceram os portugueses com esta imagem à qual atribuíram um sentido não muito diferente do retrato do Presidente da República em exercício, obrigatoriamente pendurado nas repartições públicas. Por ironia ou sarcasmo pintaram o plagiador – homem de algum talento, servil e beato, mentiroso e sensual – com uma coroa de louros sobre a cabeça severa de guerreiro. Em cima escreveram: Luís de Camões, Príncipe dos Poetas; e puseram por baixo a palavra «Pátria».

Eduardo Aroso ©
Vésperas do 10 de Junho de 2020


sexta-feira, 29 de maio de 2020



O CORONAVÍRUS – UM GRÃO DE AREIA NO DESERTO DO AFASTAMENTO E CONTROLO DO SER HUMANO

«No futuro haverá, possivelmente, uma profissão a que se chamará “ouvinte”. Mediante pagamento, o ouvinte escutará um outro, atendendo ao que este diga. Recorreremos ao ouvinte porque, excepto ele, quase mais ninguém haverá que nos escute» (Byung-Chul Han)

À parte o (doloroso) abalo directo no corpo, o vírus constitui um dos meios do crescente afastamento entre pessoas, aliado a uma tecnologia susceptível de controlar o cidadão. A globalização dos muito ricos, sem rosto, cria governos que ficam reféns da venda de riqueza nacional ou acções contratuais que logo pressionam a criação de legislação a favor desses países. O telemóvel, verdadeira torre de Babel onde o controlador da torre não é o dono do telemóvel, apresenta-se o objecto privilegiado para esse rastreio minuto a minuto. Brevemente, a quem não possuir o aparelho, será dado um, como se fez com um número que já nos foi atribuído. O telemóvel pode ser a doce antecâmara do chip futuro sem o qual talvez o cidadão não tenha acesso a um sem número de serviços. O eminente pensador da actualidade Byung-Chul Han escreveu recentemente: «Na China existem 200 milhões de câmaras de vigilância, muitas delas com uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam até mesmo as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmara de vigilância (…)». Sobre o afastamento social diz o filósofo germano-coreano «A estratégia da dominação consiste hoje em privatizar o sofrimento e o medo, ocultando desse modo a sua sociabilidade. (…) A Internet, hoje, não é mais do que uma caixa de ressonância do eu isolado. (…) Sem a presença do “outro”, a comunicação degenera num intercâmbio acelerado de informação. Não estabelece qualquer “relação”, mas antes a”conexão” somente».

Evitar ajuntamentos - o único modo de dar alguma coragem ainda que momentânea, mobilizando pessoas para o que der e vier – parece ser o objectivo a atingir. A Europa ( e aqui não estamos a falar dos infelizes migrantes que arribam ao mediterrâneo para entrar no velho continente), apesar de tudo ainda faz finca-pé nos valores da Revolução Francesa perante o problema que lhe é colocado. E o problema ultrapassa o que existiu durante séculos: apenas a tão desejada margem de lucro. O que parece acontecer agora, para manter esses privilégios, é garantir algum domínio legislativo e de cláusulas contratuais (algo que passa de governo em governo), tendo na retaguarda a ameaça militar. A globalização é o último andar da torre de Babel, de onde se sacodem os tapetes e se cospe para os vizinhos de baixo.

Entretanto, ao jeito de um trabalho na arena, cansa-se o cidadão de mil maneiras, porque o “burnout” não existe apenas no trabalho, mas na própria sociedade. E assim continuamos a bater palmas à cena feita pela direita e pela esquerda no tabuleiro que apenas se roda para outro jogo. Actores que confundem o seu amor-próprio com um moribundo paradigma, naufrágio no qual alguns têm bóias e outros não.

Eduardo Aroso
Maio de 2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020


A FALTA DE SENTIDO DO DEVIR HISTÓRICO
OU A PANDEMIA DO EFÉMERO

Se há algo que caracteriza as gerações novas, ou talvez as da meia-idade, é o rápido esquecimento do mundo de há 30 ou 40 anos, trocado por aquilo que é o fascínio do novo ou da novidade. Isso aplica-se à vida de um modo geral. Deve-se, por um lado, à facilidade da busca veloz de crescente informação por um processo que lhe está obviamente associado: a tecnologia digital. O problema principal é quando se acumulam conhecimentos não estruturados ou não digeridos fora de toda a ausência do sentido ou devir histórico. “Parece que o mundo começou há meia dúzia de anos!” é a exclamação já frequente de muito boa gente que começa a perceber que, no teatro do mundo, não de deve confundir a forma e a essência, ou os cenários que vão mudando para representar o mesmo drama da humanidade.  
Tudo isto é ajudado pelo chamado «ensino obrigatório» e mais do que isso de uma espécie de “moral obrigatória” que o sistema impõe, quer pela pressão e o controle dos média, reflectidos na oscilante mudança dos currículos escolares que pretendem uma formação integral com “a fruta da época”, sendo que há necessárias excepções como é obviamente a da ênfase na actualização científica. No campo da artes se perguntarmos a vinte alunos do curso de História de Arte quem foi René Huyghe talvez um responda. Os compêndios, que sempre elegiam Thomas Edison, ainda hesitam em falar de Tesla, não fosse o seu nome estampado no mais sofisticado automóvel. Dos «The Beatles» ainda se sabe, mas já ninguém escuta «The Animals» ou «The Mamas and Papas». E quem aprecia Moustaky ou Piaf ou (excepto para fins académicos) quem lê Aquilino, Torga ou Agustina?
Ainda que já houvesse escrita, os filósofos mais antigos e outros da mesma estirpe não estavam interessados em escrever como qualquer intelectual hoje tem necessidade de o fazer, ou o simples cidadão que se sente realizado se publicar um livro. O grande objectivo desses mestres, pela sua presença ante os discípulos, era o da sua transformação interior, a verdadeira alquimia que não olhava para o «vil metal» com lhe chamaria Camões, nem para o armazenamento de páginas e páginas no cérebro. Há mais de dois milénios, um mestre gravou sobre a entrada do Templo de Delfos a celebérrima frase: «Homem, conhece-te a ti próprio». Não tinha essa época, de modo nenhum, o avanço no conhecimento médico que hoje existe, mas tinha estas “vacinas” contra a já muito longa pandemia do efémero.

Eduardo Aroso
27-5-2020

terça-feira, 26 de maio de 2020



UNIDOS PELO PRESENTE E FUTURO DA CULTURA EM PORTUGAL
( 2ª PARTE)
CULTURA E ENTRETENIMENTO
Assim como o liberalismo não é o neoliberalismo e a beira da estrada não é a estrada da Beira, também Cultura não é o mesmo que entretenimento e lazer, ainda que estes dois últimos, quiçá, possam coexistir enquanto elementos secundários. Um ministério da Cultura que ostente este nome deve ter uma nítida distinção entre uma coisa e outra, e se não quer acrescentar a palavra «entretenimento» ao seu dístico, deve, no mínimo, ter dois balcões, bem como um critério de distribuição de verbas, tornado público. Qualquer um sabe que é mais fácil gerir uma actividade recreativa do que ter um cargo superior relacionado com a Cultura que, em abono da verdade, tem também um lugar diferente do que tem o artesanato. Todas estas actividades têm a sua função nas sociedades cada vez mais heterogéneas, chegando mesmo a ser um bom factor de saúde mental e da realização que cada um pode ter.
 Mas vamos ao tema: a ideia do que é a verdadeira Cultura nunca foi pacífica, tanto mais que também nunca foi fácil ajuizar do que em cada presente (época) fica como marca de Cultura. Mas não temos dúvida, pelo que diz a História, mesmo a mais recente, do que já é Cultura. Um ministério que não zela pelo património cultural mais ou menos recente e por aqueles que o mantêm vivo, não é ministério de cultura ou então é de outras coisas (não falo agora das listas de compadres).
 Por muito que a alguns custe admitir, no mundo moderno a degradação do que é cultura é a degradação do espírito. Há, contudo quem escape dessa pandemia. Na época que Nietzsche proclamou a “morte de Deus” estava Wagner vacinado contra isso; ou quando Duchamp criou o «A fonte» (urinol) Kandinsky navegava noutras águas. A ideia de que o criador de uma obra deve ceder completamente à subjectiva interpretação de quem a aprecia, foi crescendo de tal maneira que o artista (nas sempre louváveis excepções), para sobreviver, viu-se na obrigação de transmitir a sua mensagem na forma do utilitarismo consumista. Assim chegámos à “arte sem artista” – uma mera forma de expressão (quanto mais bizarra melhor) para a interpretação (!) de quem a usufrui. Mas também outros factores deste declínio no panorama mundial (até na velha Europa), como é o caso da classe média que se foi extinguindo. Dela poderiam vir aqueles que constituem as elites espirituais para fazer face a uma nova vaga de “elites intelectuais” (muito chegadinhas aos tecnocratas), destinadas a servir o novo-riquismo. São os angariados das “Cortes palacianas actuais”. Mas só as elites do espírito fermentam uma sociedade contra a barbárie, sustentando as democracias salutares.
 Posto que, no caso português, a presença dos municípios está em todo o país, e para ainda haver alguma salvação do que é cultura, e como há, de um modo geral, escolas e academias em todos os concelhos, sugiro que se ouça a sério quem sabe de cultura. O povo também necessita de lazer e tem-no tido sempre com aquela música onde as pessoas aguardam ansiosamente a palavra brejeira que rima com outra ainda mais brejeira. E também há – quando o rei faz anos – honrosas excepções. Boas orquestras já têm tocado nas antigas Casas do Povo e nos teatros municipais. Seja como for, haja então dois balcões nos municípios. É claro que um deles vai ter mais gente e vai ganhar mais votos. Até ao século XXII?

Eduardo Aroso
25-5-2020